Misto de euforia e descaso marca vitória de 'O Agente Secreto' no Critics Choice
'O Agente Secreto', de Kleber Mendonça Filho, venceu o troféu de Melhor Filme Estrangeiro no Critics Choice de maneira inusitada — mas saiu ainda mais fortalecido da cerimônia do último domingo (4)
Publicado: 05/01/2026 às 17:45
Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho subiram ao palco para apresentar o prêmio máximo da noite, Melhor Filme (Foto: Kevin Winter / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)
Mais uma vitória histórica para o cinema brasileiro ocorreu quando O Agente Secreto levou para casa o 31º Critics Choice Awards de Melhor Filme Estrangeiro, em uma cerimônia marcada por um misto de euforia e sentimento de descaso. O diretor Kleber Mendonça Filho e a produtora Emilie Lesclaux, assim, foram surpreendidos ao receber, durante uma entrevista, a notícia de que o filme havia sido o vencedor — um reconhecimento inédito para um longa brasileiro.
No calendário deste ano, o Critics, que premia cinema e TV, foi o primeiro grande prêmio televisionado da temporada, que segue no próximo domingo (11) com o Globo de Ouro. O evento ocorre em Los Angeles desde 1995, e há anos algumas de suas categorias, especialmente as técnicas, têm seus resultados anunciados fora da cerimônia, durante o tapete vermelho ou nos intervalos. Filme Estrangeiro, no entanto, sempre teve transmissão tradicional, incluindo a edição de 2025, em que venceu o polêmico Emilia Pérez, com discurso do diretor Jacques Audiard no palco.
Não demorou para que espectadores brasileiros começassem a cobrar, nas redes sociais, mais respeito por parte da cerimônia, que não deu o devido valor à vitória de O Agente Secreto e aos demais indicados da categoria. No que pareceu um gesto de compensação do evento, Wagner Moura — indicado a Melhor Ator pelo longa brasileiro e a Melhor Ator Coadjuvante em Série Limitada por Ladrões de Drogas — subiu ao palco ao lado de Kleber para anunciarem juntos o prêmio de Melhor Filme, consagrando Uma Batalha Após a Outra.
O cineasta aproveitou a oportunidade para agradecer pela vitória, o que evidenciou ainda mais a ausência de um momento exclusivo de celebração para a produção internacional. Premiações como o Oscar e o Globo de Ouro vêm buscando uma aproximação com o cinema produzido fora dos Estados Unidos, sobretudo por meio da expansão de seus quadros de membros, o que tem levado a uma presença cada vez maior de filmes em língua não inglesa na corrida principal de Melhor Filme.
O Critics Choice, porém, cujo corpo votante envolve centenas de críticos atuantes (em sua maioria dos Estados Unidos e Canadá), parece tão ensimesmado que mesmo uma categoria representada por seis países diferentes não ganha a oportunidade de ter seus vencedores anunciados na festa. Não por acaso, Wagner Moura alfinetou o olhar autocentrado das premiações norte-americanas antes do anúncio dos dez títulos indicados a Melhor Filme. “Ou, como nós chamamos no Brasil, melhor filme estrangeiro”, disse, sob risos e aplausos. Apesar do tom jocoso, a intenção de lembrar a indústria norte-americana da diversidade do cinema de diferentes nacionalidades ficou clara.
Kleber se manifestou sobre o assunto, afirmando à imprensa que "o fato de termos apresentado o prêmio de Melhor Filme, de certa forma amenizou uma falta de atenção da Critics Choice Association com uma das grandes safras históricas de cinema feito fora dos Estados Unidos — num momento político do país em que o elemento estrangeiro tem sido muito debatido".
O pouco caso da premiação com a categoria soa ainda mais gritante nesse último ano, que ganhou destaque pela acirrada disputa entre os candidatos internacionais. Além de O Agente Secreto, o norueguês Valor Sentimental, de Joachim Trier, o iraniano Foi Apenas um Acidente (representando a França), de Jafar Panahi, o sul-coreano A Única Saída, de Park Chan-wook, e o espanhol Sirât, de Oliver Laxe, estão entre os filmes mais listados e premiados do período, ultrapassando a média de indicações de diversas produções faladas em inglês.
A entrega errática não diminui o impacto da vitória do longa pernambucano, que já iniciou a temporada na dianteira por suas expressivas conquistas no Festival de Cannes (Melhor Direção e Melhor Ator) e por inúmeras menções em listas de prestígio. A visibilidade no Critics Choice, aliada à intensa discussão sobre a valorização das produções “estrangeiras”, pode ter impulsionado ainda mais a campanha de O Agente Secreto. E, como os então favoritos Foi Apenas um Acidente e Valor Sentimental saíram da cerimônia de mãos vazias, o caminho para um novo favorito pode estar sendo trilhado.