Projeto Ecotuba testa equipamento elétrico para afastar tubarões em Fernando de Noronha
Dispositivo Freedom está sendo avaliado para aumentar a segurança de guarda-vidas e poderá ser adaptado para embarcações de pesca. Pesquisadores ainda aguardam autorização para iniciar os testes diretamente com os animais
Publicado: 05/11/2026 às 21:51
Tubarão cabeça-chata aparece frequentemente em redes de pesca ( Foto: Divulgação)
Pesquisadores do Projeto Ecotuba, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), estão avaliando uma tecnologia desenvolvida para afastar tubarões sem provocar a morte ou ferimentos nos animais. O equipamento, chamado Freedom, começou a ser testado em Fernando de Noronha e tem como possíveis aplicações a proteção de guarda-vidas durante operações de salvamento e a redução da aproximação de tubarões de embarcações de pesca.
A iniciativa busca verificar se o dispositivo apresenta o mesmo desempenho observado em estudos realizados em outros países quando submetido às condições ambientais brasileiras. Entre os fatores que serão considerados estão a temperatura, a salinidade e as propriedades físico-químicas da água, além das espécies de tubarões encontradas no litoral do país.
Segundo Mariana Rêgo, pesquisadora do Projeto Ecotuba e bolsista de pós-doutorado da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE), o primeiro contato com a empresa responsável pelo equipamento ocorreu depois que representantes localizaram o trabalho da equipe nas redes sociais. Após reuniões, os pesquisadores demonstraram interesse em conhecer a tecnologia e avaliar sua aplicação em Pernambuco.
O dispositivo é semelhante a outros modelos de repelentes elétricos já utilizados no mercado, como os da linha Shark Shield, mas a equipe pretende verificar sua adaptação às condições locais. Segundo Mariana, equipamentos semelhantes já haviam sido utilizados anteriormente com guarda-vidas, mas sem resultados considerados satisfatórios.
“Esse equipamento é amplamente utilizado na Austrália e nos Estados Unidos. Portanto, já existem muitos testes que demonstram sua eficácia. Aqui, a gente queria realmente avaliar seu funcionamento considerando a salinidade, a temperatura e as propriedades físico-químicas da água, além das espécies que temos no Brasil. A ideia é verificar como ele se comporta nas nossas condições”, explicou.
Apesar do início da avaliação em Fernando de Noronha, os pesquisadores ainda não realizaram testes diretamente com os tubarões. Até o momento, a equipe verificou a ergonomia do dispositivo, incluindo o peso, o conforto e as condições de utilização durante atividades na água.
A pesquisadora explicou que os guarda-vidas participaram de exercícios de natação com simulações de resgate para avaliar o comportamento do equipamento durante o deslocamento. A avaliação inicial foi considerada positiva, principalmente pela leveza do dispositivo e pela ausência de relatos de choques durante os testes.
A próxima etapa, prevista para este mês de novembro, depende da liberação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão da unidade de conservação federal em Fernando de Noronha. A equipe também pretende realizar avaliações com o Corpo de Bombeiros Militar no Recife, mas ainda não há data definida.
“Por enquanto, testamos apenas a ergonomia do equipamento. Agora, em novembro, vamos realizar os testes com os tubarões, pois estamos aguardando a liberação do ICMBio em Fernando de Noronha”, afirmou Mariana.
A escolha do arquipélago para a etapa inicial está relacionada ao trabalho de monitoramento realizado mensalmente pela equipe na região. De acordo com a pesquisadora, a visibilidade da água e as condições de segurança oferecidas pelo local foram consideradas fatores importantes para a realização dos primeiros experimentos.
Além da proteção dos profissionais que entram no mar para salvar banhistas, a equipe pretende avaliar uma segunda aplicação da tecnologia: reduzir a aproximação de tubarões dos pescados capturados por pescadores de Fernando de Noronha. A situação é particularmente relevante no arquipélago, onde há relatos de tubarões que investem contra os peixes ainda próximos às embarcações, provocando perdas na atividade pesqueira.
A empresa responsável pelo Freedom também possui outro dispositivo, ainda não disponível no Brasil, desenvolvido para instalação em embarcações. A proposta é utilizar a mesma tecnologia para afastar os animais durante a atividade de pesca. Para Mariana, a possibilidade de adaptação precisa ser investigada antes de qualquer recomendação.
Como funciona o equipamento
O Freedom utiliza estímulos elétricos para interferir na percepção sensorial dos tubarões. A tecnologia explora a sensibilidade desses animais aos campos elétricos, captados por estruturas chamadas ampolas de Lorenzini, localizadas principalmente na região da cabeça e do focinho.
Essas estruturas funcionam como órgãos sensoriais que permitem aos tubarões identificar campos elétricos muito fracos produzidos por outros organismos vivos. A capacidade é importante para localizar presas mesmo quando elas estão escondidas ou em ambientes com pouca visibilidade.
De acordo com Mariana, o dispositivo produz um estímulo que provoca uma reação no sistema sensorial do animal, levando-o a se afastar. A proposta é justamente criar uma barreira de proteção sem recorrer a métodos letais.
“Ele não causa nenhum problema nem faz mal ao animal, mas funciona como um mecanismo de repulsão. É como se provocasse uma sensação que assusta o tubarão e o faz se afastar.”
A tecnologia ainda precisa ser avaliada nas condições encontradas em Pernambuco. A equipe pretende observar se as espécies presentes na região apresentam respostas semelhantes às registradas em pesquisas internacionais.
Estudo científico aponta redução de ataques
Um estudo publicado em 15 de julho de 2024 na revista científica Scientific Reports avaliou dois modelos de repelentes elétricos da fabricante Ocean Guardian: o Freedom+ Surf e o Freedom7. A pesquisa analisou o comportamento de tubarões-tigre, tubarões-cabeça-chata e tubarões-brancos em experimentos realizados na Austrália.
Os resultados indicaram que o Freedom+ Surf reduziu em 54% a probabilidade de mordidas nas três espécies analisadas. Já o Freedom7 apresentou redução de 69% nas mordidas de tubarões-tigre, mas não demonstrou redução para os tubarões-brancos.
Os pesquisadores também observaram aumento no tempo necessário para os animais alcançarem as iscas e mudanças nas reações e nos padrões de aproximação.
Apesar dos resultados, o estudo destacou que nenhum dos equipamentos eliminou completamente o risco. Mesmo com os dispositivos ligados, houve tubarões que conseguiram alcançar as iscas. A resposta também variou entre espécies e indivíduos.
A diferença entre os resultados reforça a importância dos testes em Fernando de Noronha. A eficácia observada em determinadas espécies e condições experimentais não representa uma garantia de proteção em qualquer ambiente.
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A aquisição dos equipamentos ainda está em fase de negociação entre os pesquisadores e a empresa responsável. Segundo Mariana, a equipe solicitou inicialmente a possibilidade de testar o dispositivo antes de discutir uma eventual compra.
Um dos aspectos considerados positivos é a presença de um representante da fabricante no Brasil. A pesquisadora explicou que experiências anteriores com equipamentos semelhantes enfrentaram dificuldades pela ausência de assistência técnica e de peças de reposição no país.
Caso os próximos testes apresentem resultados satisfatórios, a equipe considera recomendar o investimento pelo Governo de Pernambuco para utilização por profissionais que trabalham na água, incluindo guarda-vidas e integrantes do Corpo de Bombeiros.
Ela também destacou que a tecnologia seria um recurso complementar às medidas de prevenção já desenvolvidas no estado. Desde a década de 1990, pesquisadores da UFRPE trabalham com educação ambiental e orientação sobre os riscos associados ao banho de mar, incluindo os cuidados com as condições da maré e a presença de barreiras naturais, como os arrecifes.
O Ecotuba também desenvolve atividades educativas com moradores e turistas, com orientações sobre o papel dos tubarões no equilíbrio dos ecossistemas marinhos e os cuidados necessários durante o banho de mar.
Em 2026, o projeto ampliou novamente as atividades de monitoramento para a costa continental pernambucana, após 11 anos de interrupção das pesquisas nessa região. A retomada ocorreu em setembro, com previsão de até 50 tubarões marcados ao longo de 24 meses de trabalho.