Fernando de Noronha figura em lista de recifes de corais costeiros sob ameaça
Lista Vermelha de Ecossistemas lançada da COP 17 recomenda proteção urgente
Publicado: 29/10/2026 às 17:31
Proteger os recifes de corais é essencial para garantir um futuro com menos problemas ambientais (Foto: Felipe Cadena/Fundação Grupo Boticário)
O arquipelago pernambucano de Fernando de Noronha está entre as cinco ecorregiões de recifes de corais brasileiras classificadas como criticamente em perigo, de acordo com a Lista Vermelha de Ecossistemas. O documento foi lançado na 17ª Conferência das Partes das Nações Unidas (COP17) da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), em Yerevan, na Armênia.
Com exceção de Abrolhos, que alcança pelo Sul da Bahia o Norte do Espírito Santo, no Sudeste do País, todos os demais estão situados no Nordeste brasileiro. A classificação "criticamente em perigo" indica a necessidade urgente de ações para proteger os ecossistemas marinhos construídos por colônias de pólipos corais, pequenos animais invertebrados parentes das águas-vivas e anêmonas, ao longo de milhares de anos.
Ao todo, oito ecorregiões de recifes de corais foram analisadas no Brasil, mas três delas não continham dados suficientes para compor a análise geral. Além de Noronha, Parrachos, no trecho do litoral Norte do Nordeste, entre o Rio Grande do Norte e o Ceará; e Atol das Roscas, a cerca de 260 km da capital potiguar Natal - o único atol do Atlântico Sul -; a Baía de Todos os Santos e o Baixo Sul, na Bahia, também aparecem.
O documento lista as ecorregiões conforme o risco de colapso, considerando a distribuição dos corais, as restrições geográficas, a degradação e outros critérios ambientais. Os locais são classificados como: Vulneráveis (VU), Em Perigo (EN), Criticamente em Perigo (CR) ou Colapsados (CO).
Houve dados insuficientes para Parcel de Manuel Luís, Costa Semiárida e Queimada Grande. Para a analista de Conservação do WWF-Brasil, Ana Lídia Gaspar, a falta de informação não pode ser lida como ausência de risco. “A avaliação aponta a necessidade de ampliar o conhecimento sobre essas áreas para compreender melhor sua situação e orientar medidas de conservação”, reforça a pesquisadora.
As cinco regiões criticamente em perigo foram avaliadas sobre as mudanças ocorridas nos últimos 50 anos e as projeções de estresse térmico provocado pelo aquecimento dos oceanos nas próximas cinco décadas. A avaliação concluiu que, nos últimos 50 anos, Parrachos, Costa dos Corais e Atol das Rocas e Fernando de Noronha já apresentavam condições para uma classificação CR. Já Baía de Todos os Santos e Baixo Sul e Abrolhos ficariam classificados como EN.
O nível de perigo crítico foi alcançado pelas cinco ecorregiões devido às projeções para os próximos 50 anos de estresse térmico, com base em um cenário intermediário apontado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Essa foi a primeira avaliação global, para esses ecossistemas, promovida pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
Ameaças
As ondas marinhas de calor são apontadas como principais ameaças aos recifes brasileiros, tendo como referência importantes eventos de estresse térmico que resultaram em branqueamento severo e mortalidade de espécies-chave de corais, como os ocorridos em 2019/2020 e 2024.
“Pressões humanas locais, como a sobrepesca, o desenvolvimento costeiro, o turismo e o aporte de sedimentos e nutrientes provenientes do continente, contribuem para a degradação da qualidade da água, reduzindo a resiliência e a capacidade de recuperação dos recifes”, aponta a avaliação sobre as ecorregiões brasileiras.
O estudo destaca também pressões adicionais, como a exploração de petróleo e gás, mineração e navegação, além da invasão de espécies exóticas como os corais-sol e o peixe-leão. “De modo geral, os recifes costeiros estão expostos a pressões cumulativas maiores do que os recifes situados mais longe da costa”, acrescenta o documento.
Metodologia
A avaliação global analisou apenas recifes de coral fóticos, que ocupam regiões mais rasas e ensolaradas. Não foram incluídos recifes profundos, rochosos e corais de água fria.
Em todo o mundo, foram analisados 127 ecorregiões em mais de 80 países e territórios, agrupados em dez macrorregiões. Desse total, 122 ecorregiões foram classificadas como Criticamente em Perigo, o equivalente a 96%.
Quando consideradas apenas as mudanças ocorridas nos últimos 50 anos, sem as projeções do IPCC, 30 ecorregiões já estão criticamente em perigo e outras 116 estão ameaçadas.
Ferramenta
A Lista Vermelha de Ecossistemas é uma das ferramentas para a revisão do tratado internacional da biodiversidade de Kunming-Montreal, estabelecido em dezembro de 2022, do qual o Brasil é signatário.
A avaliação serve como referência para relatórios e adoção de políticas nacionais capazes de proteger os recifes, recuperar as populações de espécies marinhas e reduzir as pressões locais.
A análise destaca, no entanto, que ações locais devem ser vistas como complementares à ação climática global. “Medidas locais não são capazes de impedir as ondas de calor marinhas, portanto, cortes rápidos nas emissões continuam sendo essenciais”, destaca a análise.
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