Tempo médio no trânsito do Recife aumenta e chega a 2h07 por dia, aponta pesquisa
Média diária chegou a 2h07 em 2026, trabalhadoras relatam impactos das viagens na rotina e apontam dificuldades no transporte público
Publicado: 26/10/2026 às 06:00
Trânsito lento no Recife (Foto: Weslly Gomes/DP Foto)
O dia de Gislayne Kelly Nascimento, de 29 anos, começa às 6h30, quando ela sai de Candeias, em Jaboatão dos Guararapes, para trabalhar no Recife Antigo. A volta para casa pode se estender por até duas horas e meia. A rotina da corretora de seguros reflete o resultado do estudo “Viver nas Cidades: Mobilidade Urbana 2026”, do Ipsos-Ipec, que mostra que o tempo médio diário gasto nos deslocamentos aumentou 17 minutos em um ano, passando de 1h50 para 2h07, em 2026.
O tempo dedicado ao transporte interfere nas atividades que ficam para depois do expediente. Gislayne conta que gostaria de aproveitar parte desse período para estudar ou praticar exercícios físicos, mas o cansaço acumulado ao longo do dia acaba limitando as possibilidades.
“Meia hora daria para adiantar muita coisa, seja nos estudos, seja na academia. Muitas vezes, a gente quer praticar um esporte ou fazer uma atividade depois do expediente, mas, com esse tempo que leva para chegar em casa, acaba ficando cansada”, relata.
Gislayne utiliza ônibus para ir ao trabalho. Na ida, pega a linha Jardim Piedade. Na volta, costuma escolher outro coletivo que passa pelo bairro onde trabalha, mas também utiliza o Jardim Piedade para ficar mais perto de casa e completar o percurso a pé. Segundo ela, o tempo de viagem varia conforme o fluxo de veículos e o horário de chegada do ônibus ao terminal.
O trânsito é uma das dificuldades que percebe no caminho e ela cita a Avenida Domingos Ferreira, na Zona Sul do Recife, como um dos trechos que ficam mais complicados nos horários de pico. Ela também relata congestionamentos na área do Cabanga em determinados períodos.
“Às vezes, vou em pé dentro do ônibus. Quando chego em casa, só quero tomar meu banho, jantar e dormir. Principalmente eu, que faço um trajeto longo”, afirma. Para Gislayne, alternativas que facilitem o compartilhamento de viagens poderiam contribuir para reduzir a quantidade de passageiros nos ônibus e de carros nas ruas. Ela conta que utilizou, no início da vida profissional, um aplicativo que oferecia caronas para trabalhadores.
Segundo a corretora, a iniciativa permitia que ela conseguisse uma carona próxima de casa e evitasse parte das dificuldades do transporte coletivo. “Eu pegava uma carona bem próxima da minha casa, não passava sufoco dentro do ônibus e também diminuía a quantidade de pessoas dentro dele.”
Sair de casa durante o dia e chegar à noite
Moradora de Jardim São Paulo, na Zona Oeste do Recife, Janaína Menezes, de 51 anos, também enfrenta longos deslocamentos entre casa e trabalho. Ela utiliza a linha Jardim São Paulo e afirma que o retorno para casa pode levar mais de uma hora.
Janaína sai de casa por volta das 6h50 e só consegue retornar 12 horas depois. Segundo ela, a rotina faz com que saia pela manhã com o dia claro e retorne quando já está escuro.
A escolha da linha também está relacionada à localização do ponto de desembarque. De acordo com Janaína, outros ônibus a deixariam a cerca de três quilômetros de casa. “Se o trânsito fosse melhor eu chegaria em casa mais cedo para me organizar, cuidar das coisas, ir à academia e também teria menos cansaço no dia seguinte.”
Já Márcia Luana, promotora de vendas e moradora da Imbiribeira, na Zona Sul do Recife, relata uma redução recente no tempo de viagem. Antes, segundo ela, o trajeto de retorno podia ultrapassar uma hora quando a Rua Imperial estava fechada para veículos. “Acho que a gente poderia ter mais opções de vias para desafogar o trânsito em horários de pico. Mais ônibus de qualidade nas ruas também poderia fazer motoristas optarem pelo transporte público, diminuindo o número de veículos.”
No conjunto das dez capitais analisadas pelo estudo, as pessoas que utilizam o transporte coletivo como principal meio de locomoção passam, em média, 2h17 por dia em deslocamentos. Entre aquelas que priorizam o transporte individual, a média é de 1h47, uma diferença de 30 minutos diários.
O levantamento também identificou que 42% dos entrevistados nas dez capitais passam mais de 1h30 por dia em deslocamentos. Além disso, 54% apontaram algum meio de transporte coletivo como principal opção de locomoção, enquanto 44% priorizam os meios individuais. Ao todo, 78% afirmaram utilizar algum tipo de transporte público coletivo, mesmo que ele não seja o principal meio de transporte.
Transporte público ganha espaço nos deslocamentos
Além do aumento do tempo médio diário de deslocamento, o estudo identificou uma participação maior do transporte público na rotina dos entrevistados no Recife. A parcela que apontou esse meio como o mais frequente passou de 50%, em 2025, para 59%, em 2026.
Quando considerada especificamente a categoria que reúne ônibus, BRT e MOVE, o percentual passou de 36% para 44% no mesmo período.
O levantamento Viver nas Cidades: Mobilidade Urbana 2026 foi realizado pelo Ipsos-Ipec entre 1º e 20 de julho de 2026, com 3,5 mil entrevistas on-line em dez capitais brasileiras, incluindo o Recife.
O público ouvido tinha 16 anos ou mais e era formado por usuários de internet. Para o resultado do Recife, a margem de erro estimada é de seis pontos percentuais. Os dados refletem as respostas dos entrevistados e devem ser interpretados dentro dos limites da metodologia da pesquisa.