Barraqueiros resistem à mudança para boxes construídos ao lado do Hospital das Clínicas
Comerciantes trabalham há décadas na entrada do HC e afirmam que novos espaços, na Avenida Professor Artur de Sá, não atraem o mesmo movimento e ainda aguardam estrutura de alimentação
Publicado: 28/09/2026 às 18:05
Barraqueiros resistem à mudança para boxes construídos ao lado do Hospital das Clínicas (Foto: Rafael Vieira/DP)
As barracas instaladas na entrada do Hospital das Clínicas (HC), no campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), fazem parte da rotina de pacientes, acompanhantes e funcionários que passam diariamente pelo local. O comércio funciona às margens da BR-101, em uma área de circulação de pedestres, com venda de alimentos, bebidas e outros produtos.
Há cerca de cinco anos, uma nova estrutura foi construída na lateral do hospital, na Avenida Professor Artur de Sá, para receber os comerciantes. Os espaços foram divididos em boxes individuais e cada barraqueiro recebeu uma chave. A proposta, segundo os comerciantes, era transferir as atividades para o novo local e organizar o comércio.
A mudança, porém, não aconteceu. Os boxes continuam fechados e alguns são usados pelos próprios comerciantes como depósito. Segundo as barraqueiras, também estava prevista a criação de uma praça de alimentação, com mesas e bancos, para que os clientes pudessem permanecer no local. A estrutura não foi concluída.
É nesse cenário que comerciantes que trabalham há décadas na entrada do hospital continuam mantendo as barracas no local original.
Uma delas é Cassiana Dias, de 49 anos, que trabalha há 19 anos na entrada do HC. Ao explicar por que os comerciantes não aceitaram a transferência para os novos espaços, ela lembra que a mudança foi apresentada junto com a promessa de uma área de alimentação. “O que disseram é que o HC queria tirar a gente daqui dessa área para colocar lá fora. (…) Eles iam fazer uma área de alimentação para que os nossos fregueses fossem até nós. Mas essa área de alimentação não saiu, não foi feita.”
Para os comerciantes, a localização é o principal motivo para a resistência à mudança. Os clientes já estão concentrados dentro e no entorno do hospital, enquanto os boxes ficam do lado externo, na Avenida Professor Artur de Sá.
Cassiana explica que o deslocamento até os novos espaços faria com que os comerciantes perdessem o fluxo de pessoas que circula diariamente pelo HC. “Todo mundo, para entrar aqui no HC, tem que passar por esse caminho. A gente indo para o outro lado, ninguém vai lá, para a avenida, atrás de comprar uma água mineral ou comer uma fruta.”
A barraqueira também descreve quem forma a clientela das barracas e destaca que o comércio acompanha a rotina do hospital. “O pessoal que vem para cá para fazer refeição é acompanhante, médico, enfermeiro, paciente. Todos vêm para cá lanchar.”
A relação com os pacientes e funcionários também é apontada por outra comerciante, de 59 anos, que trabalha no local há aproximadamente 25 anos. Ela começou a atividade ao lado da sogra, que permaneceu no comércio por cerca de três décadas. Ao explicar como a atividade passou de uma geração para outra, a comerciante conta: “Minha sogra tem uns 30 anos aqui. Eu estou com uns 25 já aqui também. Minha sogra adoeceu, saiu e eu permaneci.”
A rotina começa ainda de madrugada, segundo ela, justamente para acompanhar a chegada dos pacientes ao hospital. “Eu chego aqui quatro horas da manhã. Eu chego igual com os pacientes do hospital. As funcionárias também já são freguesas da gente.”
Além da localização, as comerciantes apontam o tamanho reduzido dos boxes e problemas na estrutura da área externa. Uma barraqueira de 54 anos, que preferiu não se identificar, afirma que algumas pessoas chegaram a abrir os estabelecimentos, mas desistiram diante da falta de movimento.
Ela cita o caso de duas comerciantes que chegaram a tentar trabalhar nos novos espaços. “Tem duas meninas que abriram. Elas fecharam porque não tem condições, porque não vai ninguém.”
A mesma comerciante relata que os trabalhadores receberam as chaves dos boxes, mas afirma que o acesso aos espaços não funcionou como esperado. “Eles deram a chave, mas fecharam a entrada da barraca. Aí depois não tem saída nenhuma.”
Na avaliação de Cassiana, a falta de funcionamento dos boxes fez com que os espaços deixassem de cumprir a finalidade original e passassem a ser utilizados para guardar objetos e mercadorias. “Cada barraqueiro tem uma chave do seu pontinho de comércio, mas é muito miudinho. A gente ficou só botando depósito mesmo, jogando as coisas lá dentro e fecha.”
Os problemas não se restringem ao tamanho dos espaços, segundo as comerciantes. A área externa também teria dificuldades de drenagem durante os períodos de chuva. A comerciante de 59 anos relata o que acontece quando chove no local: “Ali, quando chove, meu Deus do céu, não dá para ir.”
Ela também aponta uma estrutura instalada por trás dos quiosques que, segundo os relatos, deveria funcionar como praça de alimentação. “Ali fizeram uma horta mesmo. É tomate, é pimentão. E ali ia ser também uma praça de alimentação.”
Mesmo com os novos boxes disponíveis, os comerciantes continuam trabalhando na entrada do hospital, onde afirmam encontrar o público que sustenta as atividades. A comerciante de 59 anos resume o motivo pelo qual não pretende deixar o ponto atual: “A gente aqui tem movimento. Lá não tem como a gente ir.”
Para Cassiana, a transferência poderia ser diferente caso a estrutura inicialmente apresentada aos comerciantes fosse efetivamente implantada. Ela defende que a área tenha condições para receber os trabalhadores e os clientes. “Se eles usassem essa área do HC para fazer uma praça de alimentação, com os banquinhos, mesinha, tudo organizadinho, seria diferente.”
Enquanto aguardam uma definição, os barraqueiros permanecem na área de entrada do Hospital das Clínicas. Segundo Cassiana, os próprios comerciantes ajudam na conservação do espaço onde trabalham. “A gente limpa, a gente organiza, a gente fez os telhados. A gente aqui faz tudo.”
Resposta da Prefeitura
Procurada pelo Diario, a Prefeitura do Recife confirmou que é responsável pela construção dos quiosques, mas que novas exigências dos comerciantes levaram à elaboração de um novo projeto. Segundo a nota enviada, "a Secretaria Executiva de Controle Urbano esclarece que o projeto de ordenamento urbano para garantir a mobilidade de transeuntes na região das proximidades da UFPE remonta a mais de uma década, cabendo à gestão municipal a responsabilidade apenas a construção dos quiosques. No total, a municipalidade entregou 22 equipamentos em 2023 para uso dos concessionários".
A prefeitura informou ainda que, "diante de novas exigências dos comerciantes não previstas anteriormente, um novo projeto está em elaboração para que, a posteriori, haja busca de recursos para execução das mudanças solicitadas".