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O lixo do Capibaribe como memória, denúncia e educação ambiental

Há mais de 30 anos, ONG Recapibaribe transforma lixo retirado do Capibaribe em arte e educação ambiental; para fundadora, rio ainda precisa de saneamento

Cadu Silva

Publicado: 22/09/2026 às 15:26

Maria do Socorro Cantanheira, fundadora da ONG Recapibaribe/Rafael Vieira/DP Fotos

Maria do Socorro Cantanheira, fundadora da ONG Recapibaribe (Rafael Vieira/DP Fotos)

“O insustentável sustenta o insustentável.” É assim que Maria do Socorro Cantanheira, fundadora da ONG Recapibaribe, define o espaço que mantém às margens do Rio Capibaribe, no bairro do Monteiro, na Zona Norte do Recife.

Pneus, garrafas, latas, pedaços de madeira e outros resíduos retirados das águas ocupam o local. Não estão ali para serem vendidos. Viraram parte de uma exposição permanente sobre aquilo que a cidade descarta e que acaba no rio.

A frase surgiu durante uma conversa sobre a dificuldade de manter o trabalho da organização. O material recolhido tem pouco ou nenhum valor comercial, mas, para Socorro, retirar as peças do espaço seria também perder uma ferramenta de conscientização.

“Esse lixo que está aqui não é um lixo para ser vendido. É um lixo para ser mostrado, é uma arte diferenciada dizendo: ‘não joga isso no rio’. Se eu vender, eu vou tirar aquilo dali e não vou ter como conscientizar”, explica.

É nesse paradoxo que se sustenta o Capibar, sede da ONG, onde o lixo encontrado no rio ganha outro significado. O espaço recebe escolas, estudantes, pesquisadores e visitantes para atividades de educação ambiental, debates e oficinas. De quarta a domingo, também funciona como bar e casa de shows. A renda ajuda a manter as atividades, enquanto os objetos recolhidos permanecem como testemunhas da situação do rio.

Uma vida às margens do Capibaribe

A relação de Socorro com o rio começou muito antes da criação da ONG, em 1994. Filha de "pescador" de areia, ela nasceu em Limoeiro, cresceu em Paudalho e viveu em diferentes bairros cortados pelo Capibaribe. O pai retirava areia do rio para sustentar a família. Na memória dela, a água também está associada à infância, às enchentes e ao contato direto com a natureza.

Durante uma das grandes cheias que atingiram o Recife, Socorro conta que passou dias dentro de um barco com os pais e os irmãos, enquanto a cidade estava alagada. A experiência reforçou uma relação que, anos depois, se transformaria em militância pela preservação do rio.

“Eu contemplava cada dia mais como o Capibaribe é belo, como a natureza é bela. E nós é que estamos no lugar errado. Nós estamos ocupando as margens do rio sem nenhum propósito e sem nenhuma responsabilidade ambiental”, lembra.

O Recapibaribe nasceu, segundo ela, dessa relação. A organização passou a atuar com educação ambiental, reciclagem, consumo consciente, cidadania, logística reversa e mobilização de comunidades, estudantes, técnicos, empresários e artistas. O objetivo é aproximar a população do rio e reforçar a importância de sua fauna e flora.

Para Socorro, porém, o problema do Capibaribe não está apenas no que aparece boiando sobre a água. “O que mata realmente o rio não é o lixo que você vê, mas sim o lixo que você não vê, que é o saneamento básico que é jogado aí dentro”, afirma.

A defesa do saneamento tornou-se uma das principais bandeiras da ONG. A fundadora critica a continuidade do lançamento de esgoto no rio e cobra políticas públicas que tratem o Capibaribe como patrimônio ambiental e também como parte da vida cotidiana da população. “Eu queria ver o Capibaribe saneado antes de morrer”, diz.

O rio como sala de aula

Boa parte do trabalho do Recapibaribe acontece longe dos barcos. As escolas que chegam ao Capibar levam os estudantes para conhecer o rio, observar os resíduos retirados das águas e discutir formas de preservação.

A estratégia também aparece em um dos projetos mais conhecidos da ONG, o “Há gosto pelo Capibaribe”, realizado em agosto. A iniciativa reúne pescadores, estudantes e voluntários em uma espécie de mutirão pelas águas do rio.

Na 17ª edição, realizada em agosto de 2026, os participantes recolheram cerca de 20 toneladas de resíduos. Em 2025, foram 18 toneladas. O recorde ocorreu em 2019, quando 29 toneladas foram retiradas em um único dia, com a participação de cerca de 100 pescadores.

A quantidade, entretanto, não é tratada por Socorro como uma vitória. “Eu não queria tirar nem uma bituca de cigarro do rio. Para mim, tirando uma bituca de cigarro do rio é o mesmo que tirar uma tonelada. Ele está sofrendo do mesmo jeito”, afirma.

O raciocínio é simples: o resultado ideal de uma ação de limpeza seria não encontrar lixo para retirar.

Durante o “Há gosto pelo Capibaribe”, os pescadores percorrem o rio em barcos e levam os resíduos até o ponto de pesagem. Além da coleta, a programação inclui uma gincana ambiental, com premiação para os participantes que recolhem as maiores quantidades. A ONG também arrecada alimentos ao longo do ano para distribuir cestas básicas aos pescadores envolvidos.

A participação dos estudantes completa o ciclo. Crianças que aprendem em sala sobre poluição e preservação passam a observar, diretamente no rio, as consequências do descarte irregular.

Para Socorro, é justamente aí que está uma das principais funções do Recapibaribe: “pescar” consciência. “Quando Dona Socorro não está no rio pescando lixo, ela está aqui pescando a consciência do cidadão”, resume.

Ao longo de mais de três décadas, o Recapibaribe também mudou de tamanho. Hoje, Socorro fala da organização menos como uma estrutura formal e mais como uma rede formada pelas pessoas que se juntam às ações.

A ONG conta com uma equipe fixa reduzida, mas reúne pescadores, professores, estudantes, pesquisadores, artistas e voluntários em diferentes atividades. O trabalho também foi construído ao longo dos anos pelo “boca a boca”, sem uma estrutura permanente de financiamento.

Essa é uma das dificuldades apontadas pela fundadora. Os projetos dependem de doações, parcerias e arrecadações. Para manter as atividades, ela diz que gostaria de contar com maior apoio técnico e financeiro para a organização. Ainda assim, a falta de recursos não interrompe a rotina.

“Não existe meta. O que existe é fazer ação e dizer que o Capibaribe está pedindo socorro”, afirma.

O pedido, para Socorro, não se resume à retirada do lixo. Ela defende que a população deixe de enxergar a limpeza do rio como uma tarefa isolada e passe a discutir a origem dos resíduos, o saneamento e a ocupação das margens.

Aos 32 anos de atuação da ONG, a avaliação que faz sobre o rio também é direta: não vê uma transformação capaz de considerar o Capibaribe recuperado. Mas reconhece que a própria existência de novos projetos e iniciativas em torno do rio mostra que a semente lançada pelo Recapibaribe se espalhou.

“Eu não posso dizer que a cidade, que o rio melhorou. Mas eu vou continuar fazendo”, afirma.

No Capibar, o lixo permanece à vista. Não como produto, mas como denúncia. Cada objeto recolhido ajuda a contar a história de um rio que, para Socorro, continua vivo, e ainda à espera de que a cidade faça a sua parte.

“O Capibaribe precisa de você. Vamos juntar nossas forças e fazer algo por ele de verdade.”

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