° / °
Vida Urbana
CARNAVAL

Galo Gigante homenageia dom Helder Câmara e leva debate sobre saúde mental para o carnaval

Galo Folião Fraterno receberá um coração em alusão à fraternidade de dom Helder Câmara

Adelmo Lucena

Publicado: 26/01/2026 às 18:55

Confecção do Galo Gigante de 2026/Foto: Crysli Viana/DP Foto

Confecção do Galo Gigante de 2026 (Foto: Crysli Viana/DP Foto)

O Galo Gigante de 2026 levará à Ponte Duarte Coelho uma mensagem de paz, fraternidade e esperança. Batizada de Galo Folião Fraterno, a alegoria gigante que vai reinar no principal cartão-postal do carnaval do Recife entre os dias 11 e 18 de fevereiro homenageia dom Helder Câmara, símbolo da luta pelos direitos humanos e da defesa dos mais vulneráveis.

Assinada pelo designer e multiartista Leopoldo Nóbrega, em parceria com a produtora, arquiteta e designer Germana Xavier, a alegoria mantém a tradição de sustentabilidade: desde 2019, 100% da escultura é produzida com materiais descartados e recicláveis.

CDs, tampas de garrafa, plásticos, redes de pesca, conchas, lonas, restos de cortinas e garrafas PET compõem a indumentária do galo. As cores de 2026, verde, amarelo, azul e branco, fazem referência ao Brasil e dialogam com o fato de o Recife ser uma das cidades-sede da Copa do Mundo Feminina de 2027.

“O Galo Gigante traz os tons desse carnaval do Recife para Pernambuco, para o Brasil e para o mundo. Ele traz também a mensagem de que a gente precisa se conectar muito mais com o próximo, com o meio ambiente, com a arte, com a sustentabilidade, com a relação entre tradição e inovação, dentro de todo esse cenário produtivo construído por pessoas que estão ali fazendo parte, como marisqueiras, artesãos, cenógrafos, a equipe da Arte Plena, pessoas de comunidades diversas, muitas vezes invisibilizadas dentro desse cenário social”, afirma o artista Leopoldo Nóbrega.

O figurino também estabelece um diálogo entre o Sertão e o litoral pernambucano. Elementos inspirados nos gibões do cangaço, como o sol e a estrela, se unem a biojoias feitas com conchas e restos de redes de pesca, trazendo o alerta sobre o impacto do descarte inadequado de lixo nos mares e mangues. A cauda ganha sombrinhas de frevo e penas com maior volumetria, feitas a partir de tecidos reaproveitados.

A edição de 2026 traz ainda referências à ciência e à tecnologia. Espirais de DNA aparecem nas penas da cauda, simbolizando a celebração da vida. As 27 estrelas da bandeira brasileira serão produzidas em impressoras 3D pelo núcleo de robótica da comunidade do Xié e Entra Apulso. No peito, o galo exibe um Sagrado Coração iluminado por LEDs e resíduos tecnológicos.

Galo “ganha coração” em homenagem a Dom Helder

Conhecido como o “Dom da Paz”, dom Helder foi arcebispo de Olinda e Recife de 1964 a 1985, tendo enfrentado, duramente, as ações da ditadura militar. Foi indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz. Sua forte ligação com o povo do Recife e com o carnaval marcou a trajetória do religioso, que via na festa popular um ato de fé e resistência. O legado do arcebispo será celebrado na escultura de 32 metros de altura e oito toneladas, uma das maiores do país.

“O coração do galo é inspirado em eom Helder: essa generosidade, essa fraternidade e esse amor pelo povo e pelo carnaval que ele sempre trouxe. É um momento de evolução, de muitas criatividades, de muitas pessoas, muitos talentos e muitos materiais expressivos. E a gente tem certeza de que isso só começa agora, porque o carnaval é feito por milhares de pessoas”, destaca Leopoldo Nóbrega.

Amiga de dom Hélder, Maria Elvanda de Araújo conta que o arcebispo sempre admirou o carnaval e que estaria honrado em receber a homenagem. “Dom Helder sempre aprovou o carnaval. A gente tem histórias dele abençoando o carnaval ou pedindo a Deus para não chover, porque o povo precisava se divertir, porque o carnaval era o momento do povo. É uma honra participar deste momento e saber que dom Helder segue sendo lembrado”, registra.

Saúde mental e papel social

A saúde mental é outro eixo central da alegoria. Inspirada na obra de Nise da Silveira, referência no uso da arte como ferramenta terapêutica, parte da escultura foi construída por usuários de políticas públicas municipais, por meio de oficinas de arteterapia. A iniciativa envolve a Secretaria de Saúde, a Coordenação de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, a Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome e a Província Franciscana Santo Antônio do Brasil.

“Nós realizamos trabalhos com oficinas arteterapêuticas para promover uma ativação real da importância da saúde mental, do cuidado com o próximo e da coletividade. Também falamos muito sobre sustentabilidade. Trazemos várias referências, incluindo Nise da Silveira, que é um ícone e uma grande inspiração para a gente”, pontua Leopoldo.

As oficinas utilizam técnicas como colagem, pontilhismo e termocolagem, com tintas à base de água e materiais como espelhos. As atividades ocorrem em equipamentos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), no Centro Integrado de Atenção à População em Situação de Rua (CINPOP) e em espaços da Província Franciscana, reforçando a proposta de cuidado em liberdade, inclusão social e valorização da cultura popular.

Uma das artistas aprovadas pelo edital é Diana Araújo, de 61 anos, que tinha o objetivo de trabalhar ao lado de Leopoldo Nóbrega. “Eu trabalho com pontilhismo, e a minha especialidade é o pontilhismo 3D. Quando saiu o resultado, eu fui classificada. Fiquei bem feliz e impactada. Eu nunca pensei em participar de um trabalho tão grandioso como esse. A gente já vive a energia do Galo e nesse momento, fazer parte de uma escultura gigantesca é algo muito importante para mim”, conta.

Além disso, a construção do Galo Gigante tem um importante papel social, observa Leopoldo. Cerca de 200 usuários e usuários beneficiados pelas políticas públicas do Recife e instituições envolvidas participam da cocriação artística por meio de workshops de arteterapia.

“A gente trouxe também moradores em situação de rua, pessoas com transtornos, deficiências e pessoas que aparentemente não fazem parte dessa parcela mais glamourosa da sociedade. Mas, ao contrário, a gente sabe que a potência de cada um está no processo de cocriação, na imaginação e na participação.”

“O Galo Gigante é um marco do carnaval do Recife e de Pernambuco. Ele tem um simbolismo muito grande, tanto pela sua beleza quanto pelo gigantismo que carrega, mas também por toda a mensagem que é construída. Este ano, ele convida à fraternidade, à reflexão sobre a política de saúde mental, e todo o colorido que o envolve”, afirma o presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, Marcelo Canuto.

Mais de Vida Urbana

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas