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MEIO AMBIENTE

Pesquisa da UFPE investiga impactos do derramamento de óleo sobre pescadores do Nordeste

Projeto desenvolvido com comunidades de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia será encerrado com seminário em Tamandaré, entre os dias 17 e 19 de agosto

Adelmo Lucena

Publicado: 14/08/2026 às 21:31

Em Tamandaré, projeto sobre petróleo e pesca artesanal debate racismo e injustiça ambiental em comunidades do Nordeste/Foto: Arquivo do projeto da Pesca de integrantes de Comunicação do Caranguejo Uçá

Em Tamandaré, projeto sobre petróleo e pesca artesanal debate racismo e injustiça ambiental em comunidades do Nordeste (Foto: Arquivo do projeto da Pesca de integrantes de Comunicação do Caranguejo Uçá)

Quase sete anos depois de o petróleo começar a aparecer no litoral nordestino, comunidades de pesca artesanal ainda convivem com consequências econômicas, sociais e de saúde associadas ao desastre. Para analisar os impactos, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) realizou um projeto que ouviu pescadores e pescadoras de quatro estados para identificar impactos e discutir formas de prevenção e resposta a novos desastres ambientais.

O projeto “Petróleo e os Povos da Pesca Artesanal: Enfrentando o Racismo e a Injustiça Ambiental” é desenvolvido desde janeiro de 2024 por pesquisadores da UFPE, em parceria com organizações sociais e instituições ligadas à pesca artesanal.

O trabalho envolve comunidades da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco e terá seus resultados apresentados durante um seminário no Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (CENEPE), em Tamandaré.

A pesquisa surgiu a partir dos problemas enfrentados pelas comunidades após o derramamento de 2019. Segundo a arquiteta Maria de Jesus de Britto Leite, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano da UFPE e coordenadora-geral do Centro de Estudos Avançados da universidade, a percepção dos moradores sobre o atendimento recebido pelo poder público foi um dos pontos identificados durante o trabalho.

“Houve uma observação, por parte das comunidades pesqueiras, de um descaso em relação a elas e à situação que enfrentavam. O projeto surgiu em função dos problemas que foram agravados com a chegada das manchas de petróleo, há sete anos", destaca.

De acordo com a pesquisadora, os efeitos não ficaram restritos ao meio ambiente. A impossibilidade de comercializar o pescado durante o período de contaminação também atingiu diretamente a renda das famílias. Ela relata ainda que os pesquisadores encontraram preocupações relacionadas à saúde e à participação das comunidades nas decisões sobre os próprios territórios.

A dimensão do impacto sobre a pesca já havia sido registrada por pesquisas realizadas após o desastre. Um estudo publicado em 2026 nos Cadernos de Saúde Pública, com 1.259 pescadores artesanais de 27 colônias e associações de Pernambuco, identificou diferentes níveis de exposição ao petróleo.

Entre os entrevistados, 15,4% foram classificados no grupo de alta exposição. Nesse grupo, 77,8% haviam lidado com resíduos de petróleo, 81% relataram forte odor e 72,2% disseram ter apresentado irritação na pele.

Outro levantamento da Fiocruz apontou que pescadores e marisqueiras também tiveram a renda afetada pela redução ou interrupção da comercialização de produtos da pesca. Em Pernambuco, a venda de mariscos, ostras, mexilhões e caranguejos chegou a cair entre 80% e 100% nas primeiras semanas do desastre, segundo estudo publicado pela instituição.

Impactos ultrapassaram a contaminação

As primeiras manchas de óleo foram identificadas no Nordeste em agosto de 2019 e o material atingiu praias, estuários, manguezais e outros ambientes costeiros. Estudos científicos apontam que o episódio alcançou milhares de quilômetros da costa brasileira e afetou comunidades que dependiam diretamente dos recursos marinhos.

Para Maria de Jesus, um dos problemas observados durante a pesquisa foi justamente a dificuldade de perceber os efeitos do desastre apenas a partir do momento em que o petróleo chegou às praias.

“As comunidades ficaram prejudicadas tanto pelos adoecimentos relacionados às manchas de petróleo quanto pelo fato de terem passado muito tempo sem poder vender o peixe. Isso gerou um problema econômico para elas também, não só social e de saúde."

A exposição também ocorreu durante a retirada do material contaminado. Segundo a Fiocruz, pescadores, marisqueiras e outros trabalhadores e voluntários estiveram entre os grupos expostos por contato com a pele, inalação e possível ingestão de alimentos contaminados.

A pesquisa da UFPE também procura relacionar os problemas provocados pelo derramamento a outras vulnerabilidades existentes nos territórios, como falta de saneamento, lançamento de efluentes e riscos associados a atividades portuárias, embarcações e tubulações.

Conhecimento dos pescadores é incorporado à pesquisa

Uma das propostas do projeto é combinar informações produzidas pela universidade com o conhecimento acumulado pelas próprias comunidades. “A gente está tentando unir o conhecimento, o saber tradicional, com o saber da ciência, da universidade. Eles também têm a ciência deles", diz a coordenadora do projeto.

A partir desse trabalho, os pesquisadores também produziram levantamentos sobre riscos existentes nos territórios. Entre eles estão áreas mais suscetíveis a enchentes e possíveis impactos provocados por novos vazamentos ou pela chegada de substâncias contaminantes.

Maria de Jesus explica que o trabalho também buscou apresentar às comunidades informações científicas capazes de ajudar na compreensão do próprio desastre de 2019, como os fatores que influenciaram o deslocamento das manchas de petróleo. “Explicações sobre o que motivou as manchas de petróleo a seguirem em uma direção e não em outra, em função das marés e da temperatura da água.”

A ideia é que esse conhecimento possa contribuir para uma resposta mais rápida diante de futuros desastres.

Racismo e injustiça ambiental

Além dos impactos econômicos e sanitários, o projeto trata da participação das comunidades nas decisões que interferem nos territórios onde vivem e trabalham. Para a pesquisadora, essa é uma das principais reivindicações identificadas durante o contato com os pescadores.

“Principalmente eles reclamam muito do fato de não terem acesso às decisões que são tomadas nos territórios e nas redondezas dos territórios pesqueiros.”

O projeto considera que a pesca artesanal não pode ser analisada apenas como uma atividade econômica. A relação das comunidades com os manguezais, rios, estuários e mar envolve também práticas culturais e formas tradicionais de ocupação do território.

A própria UFPE já desenvolveu, em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e o Ministério da Pesca e Aquicultura, iniciativas relacionadas à memória da pesca artesanal em Pernambuco. Uma exposição sobre a cultura marítima pesqueira, realizada em 2024, integrou o projeto e reuniu registros históricos sobre comunidades que vivem da atividade.

Outro eixo da pesquisa é a prevenção e existe a intenção de identificar mecanismos que permitam às comunidades reconhecer riscos e atuar diante de possíveis acidentes envolvendo petróleo ou outros produtos contaminantes.

A necessidade de preparação permanece atual. Em fevereiro de 2026, o Ibama registrou 176 ocorrências com indícios de óleo em aproximadamente 200 quilômetros do litoral entre Bahia e Sergipe. Foram coletadas 49 amostras para análise, inclusive para verificar se os resíduos tinham relação com o derramamento de 2019 ou com novos episódios.

Para Maria de Jesus, a experiência de comunidades tradicionais de outros países mostra que o conhecimento produzido localmente pode ser integrado ao trabalho científico para melhorar a capacidade de resposta a eventos extremos. “Nós constatamos essa dificuldade de resposta do poder público em relação a desastres ambientais.”

Ela cita o Canadá como exemplo de experiências nas quais comunidades indígenas trabalham em conjunto com instituições científicas.

Seminário em Tamandaré

Os resultados da pesquisa serão discutidos e validados com representantes das comunidades participantes durante o seminário de encerramento, de 17 a 19 de agosto, no CEPENE, em Tamandaré.

A programação prevê discussões sobre saúde e trabalho no período posterior ao desastre, os impactos do derramamento na saúde de pescadores artesanais e uma Ciranda dos Aprendizados, além de atividades de validação dos resultados.

Na quarta-feira (19), está prevista a apresentação dos resultados consolidados e dos produtos produzidos pelo projeto. O material deverá ser sistematizado em relatórios, cartilhas, livretos, mapas, artigos científicos e trabalhos acadêmicos.

A iniciativa é resultado de um Termo de Execução Descentralizada firmado entre a Secretaria Nacional de Pesca Artesanal do Ministério da Pesca e Aquicultura e a UFPE. A execução reúne pesquisadores do Centro de Estudos Avançados e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema), além de pesquisadores de outras instituições, estudantes e organizações ligadas às comunidades pesqueiras.

O objetivo, segundo os responsáveis pelo projeto, é fazer com que os resultados produzidos durante os dois anos e meio de trabalho não fiquem restritos à universidade e possam ser utilizados pelas próprias comunidades na discussão de políticas públicas.

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