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Golpes digitais somam 1,5 mil registros em Pernambuco nos sete primeiros meses de 2026

Dados da SDS apontam redução de 12,6% nas ocorrências em relação ao mesmo período de 2025; levantamento nacional mostra que 16,5 milhões de brasileiros perderam dinheiro para fraudes

Cadu Silva

Publicado: 11/08/2026 às 12:47

De acordo com a SDS foram contabilizados 1.546 crimes só este ano/Maurício Ferry/DP Fotp

De acordo com a SDS foram contabilizados 1.546 crimes só este ano (Maurício Ferry/DP Fotp)

Pernambuco registrou 1.546 crimes de estelionato/fraude eletrônica entre janeiro e julho de 2026, segundo dados preliminares da Gerência Geral de Análise Criminal e Estatística da Secretaria de Defesa Social (SDS). O número representa uma redução de 12,6% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 1.769 ocorrências. Em todo o ano passado, o Estado registrou 2.880 casos.

A queda nos registros oficiais ocorre em um cenário de aumento da exposição da população brasileira a tentativas de fraude. Um levantamento da Global Anti-Scam Alliance (GASA) aponta que os brasileiros foram alvo de cerca de 34 bilhões de tentativas de golpe entre março de 2025 e fevereiro de 2026. A estimativa corresponde a uma média de 201,6 tentativas por adulto no período.

Os dados da SDS mostram que a maior parte das vítimas identificadas está na faixa de 35 a 64 anos. Em 2026, foram 763 ocorrências envolvendo pessoas desse grupo etário, o equivalente a quase metade dos registros com idade informada. Na sequência aparecem as vítimas de 30 a 34 anos, com 234 casos; de 25 a 29 anos, com 138; e acima de 65 anos, com 116 registros. Também foram contabilizadas 51 vítimas entre 18 e 24 anos. Em 244 ocorrências, a idade não foi informada.

No levantamento de todo o ano de 2025, a faixa de 35 a 64 anos também concentrou o maior número de vítimas, com 1.432 registros. Depois aparecem pessoas com idade desconhecida (427), entre 30 e 34 anos (368), entre 25 e 29 anos (338), acima de 65 anos (139) e entre 18 e 24 anos (174). Houve ainda dois registros envolvendo vítimas de até 11 anos.

Exposição aos golpes

Os números de Pernambuco representam apenas os casos que chegam ao conhecimento das autoridades. O levantamento da GASA indica uma dimensão maior do problema no país. Segundo a entidade, 16,5 milhões de brasileiros perderam dinheiro para golpes no período analisado. O prejuízo estimado foi de R$ 21,2 bilhões, com uma perda média de R$ 1.287 por vítima. Um terço das pessoas que perderam dinheiro afirmou ter sido vítima mais de uma vez.

As compras online aparecem entre as modalidades mais citadas pelos brasileiros, correspondendo a 22% dos golpes relatados. Em seguida estão as promessas de dinheiro inesperado e as falsas ofertas de emprego, ambas com 17%.

Telefone e aplicativos de mensagens são os principais meios utilizados pelos criminosos, concentrando 71% das fraudes apontadas no levantamento. O WhatsApp aparece como o principal canal, citado por 64% das vítimas.

O impacto não é apenas financeiro. De acordo com a GASA, 76% dos entrevistados que sofreram golpes relataram consequências moderadas ou significativas para o bem-estar mental.

Golpe do falso empréstimo

Um geógrafo de 42 anos, que preferiu não ser identificado, passou por uma situação semelhante em 2022, quando morava sozinho no Rio de Janeiro. Ele enfrentava dificuldades financeiras provocadas por um problema de saúde e precisava de cerca de R$ 20 mil para custear despesas médicas.

Sem conseguir o dinheiro no banco onde mantinha conta, passou a procurar opções de empréstimo pela internet. Em uma das buscas, encontrou uma empresa que oferecia crédito com juros baixos.

“Eles tinham um site, tinham um e-mail, um WhatsApp automatizado. Uma série de coisas que dificultavam a identificação de um golpe”, relata.

Antes de fazer o pagamento, ele pesquisou o CNPJ da empresa e consultou informações disponíveis na internet. Os criminosos também apresentaram documentos, contrato e mantiveram o atendimento durante alguns dias.

A fraude só ficou evidente quando foi informado de que precisava pagar entre R$ 600 e R$ 700 por uma suposta documentação para liberar os R$ 20 mil. Ele fez o pagamento e, depois de enviar o comprovante, foi bloqueado.

“Eles me pescaram, literalmente. Eu estava procurando um empréstimo e eles apareceram na busca. Como eu estava numa situação de urgência, questão de saúde, precisava fazer exames e uma série de procedimentos, acabei caindo”, conta.

A vítima registrou boletim de ocorrência pela internet e comunicou o banco, mas não conseguiu recuperar o dinheiro. Ao investigar o destinatário do pagamento, descobriu que o CPF utilizado estava em nome de uma jovem de 18 anos.

“A sensação depois que você é enganado é muito ruim. Você está extremamente frágil e vulnerável.” A experiência fez com que ele mudasse os cuidados ao procurar serviços financeiros pela internet.

“Hoje eu redobro, triplico o meu cuidado. Também ensino meus pais, meus irmãos e fico atento ao que eles estão fazendo para não caírem em algo parecido.”

Modalidades mais frequentes

Segundo a Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DPCRICI), da Polícia Civil de Pernambuco, entre as fraudes eletrônicas mais recorrentes estão o falso investimento, o falso advogado, a falsa central bancária, o phishing (golpe virtual em que criminosos se passam por empresas confiáveis), o golpe do WhatsApp e a falsa venda de produtos ou serviços.

No falso investimento, a vítima recebe a promessa de rendimentos elevados em pouco tempo. No golpe do falso advogado, o criminoso se apresenta como profissional ou integrante de escritório e cobra valores relacionados a supostos processos judiciais.

Já na falsa central bancária, o golpista se passa por funcionário de instituição financeira para obter senhas, códigos, tokens ou induzir a vítima a realizar transferências. No conhceido por phishing, links enviados por SMS, e-mail, redes sociais ou aplicativos de mensagens são utilizados para capturar dados pessoais e bancários.

Também são frequentes os golpes envolvendo contas de WhatsApp, inclusive com tomada de contas ou utilização da fotografia de familiares e conhecidos em outro número. Com as falsas vendas, o criminoso recebe o pagamento, mas não entrega o produto ou serviço anunciado.

Como identificar uma tentativa de golpe

A Polícia Civil alerta para alguns sinais que devem levantar suspeita:

* promessa de lucro elevado, rápido e sem risco;
* pressão para pagamento imediato ou pedido de sigilo;
* solicitação de PIX para pessoa diferente daquela envolvida na negociação;
* contato de suposto banco pedindo senha, token, PIN, código de segurança ou instalação de aplicativo;
* mensagem de advogado utilizando número desconhecido e exigindo pagamento para liberar valores;
* mudança repentina do número de WhatsApp de familiar ou conhecido acompanhada de pedido de dinheiro;
* preços muito abaixo dos praticados no mercado;
* links encurtados ou endereços eletrônicos com pequenas alterações;
* páginas que imitam sites oficiais;
* perfis recém-criados ou sem histórico confiável;
* erros de escrita em mensagens ou anúncios;
* pedido de compartilhamento de tela ou acesso remoto ao aparelho.

Antes de realizar qualquer pagamento, a orientação é confirmar a solicitação por outro canal. Em caso de contato de familiar, advogado ou instituição, a recomendação é utilizar um número já conhecido. Também é importante conferir os dados do beneficiário exibidos pelo banco antes de confirmar uma transferência.

Instituições financeiras não solicitam senha, token, instalação de aplicativos ou transferência para uma suposta “conta segura”.

O ressarcimento não é automático nem garantido. Em casos envolvendo PIX, a vítima deve comunicar imediatamente o banco e solicitar a contestação da transação e a abertura do Mecanismo Especial de Devolução (MED). Também é necessário registrar boletim de ocorrência pela Delegacia pela Internet da SDS ou presencialmente em uma unidade da Polícia Civil.

A orientação é preservar todas as provas: comprovantes de pagamento, conversas, números de telefone, e-mails, anúncios, perfis, links, chaves PIX, dados bancários e protocolos de atendimento. Conversas mantidas pelo WhatsApp devem ser exportadas, incluindo as mídias.

A vítima não deve apagar mensagens ou bloquear o contato antes de preservar adequadamente as informações. Perfis, anúncios ou contas utilizadas na fraude também devem ser denunciados à plataforma.

Quando os responsáveis pelo crime são identificados, a investigação pode rastrear o caminho percorrido pelo dinheiro. A autoridade policial também pode solicitar ao Poder Judiciário medidas cautelares patrimoniais, como bloqueio de contas, valores e outros bens relacionados à prática criminosa.

Serviço

A vítima pode registrar a ocorrência na Delegacia pela Internet da SDS ou procurar presencialmente uma delegacia da Polícia Civil. Em golpes envolvendo PIX, o banco deve ser comunicado imediatamente para que seja solicitada a abertura do MED.

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