Cabo de Santo Agostinho está entre as 10 cidades mais violentas do Brasil, diz Anuário da Segurança Pública
Segundo Anuário, o Cabo de Santo Agostinho ocupa a oitava posição entre as cidades mais violentas, com uma taxa de 65,1 mortes por 100 mil habitantes
Publicado: 23/07/2026 às 08:01
Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife. (Foto: Rafael Vieira/DP Foto)
O município do Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife, é o oitavo mais violento do país, com uma taxa de 65,1 mortes violentas intencionais (MVI) por 100 mil habitantes, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Os dados são referentes ao ano de 2025.
Apesar de mais uma vez figurar no ranking das dez cidades mais violentas do país, o Cabo apresenta uma melhora em seu quadro. No ano anterior, aparecia como a 5ª cidade mais violenta, com 73,3 MVIs a cada 100 mil habitantes. De 2021 a 2026, esteve na lista quatro vezes, com exceção dos anuários de 2022 e 2024 .
São Lourenço da Mata, também no Grande Recife, que estava entre as cidades mais violentas na edição de 2025 do estudo, não apareceu na nova lista.
O relatório destaca que o Cabo está localizado a cerca de 20 km do Porto de Suape, "ponto importante de rota para tráfico internacional de drogas". O Anuário cita que, em 2025, a Polícia Federal e o Complexo Portuário de Suape assinaram um acordo de cooperação técnica com o intuito de redobrar a segurança e aumentar o controle do tráfico de drogas e outros crimes marítimos.
Para calcular as MVIs, o Fórum considera a soma do número de vítimas de homicídios dolosos (quando há intenção de matar), latrocínios (o roubo seguido de morte), feminicídios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais.
“Ela quer ir para o céu, ficar com a mãe”
Está nas estatísticas o caso de um casal de 16 anos que foi morto a tiros no bairro da Cohab, em 26 de junho de 2025, e deixou uma bebê de dois anos. O crime estaria relacionado a dívida de integrantes da família da adolescente com traficantes de drogas.
O irmão mais novo da jovem, que tinha 15 anos na época, também foi baleado na ocorrência. Sobrevivente, ele mora hoje em outra cidade e não pode mais voltar, devido ao risco de ser assassinado.
A filha do casal, atualmente com três anos, ficou sob os cuidados da bisavó materna. "Ela lembra da mãe, diz que está no céu. Esses dias ela disse que queria ir para o céu, porque queria a mãe dela. A gente se desmanchou em choro", diz a mulher, de 63 anos, que não quis se identificar.
Segundo conta, ela também foi responsável por criar a neta, vítima de violência. "Eu que acompanhei toda a gravidez dela. Era mais próxima de mim do que da mãe", lembra. "Ela dizia que queria ser delegada e eu falava 'estude, que você será'".
Em 2019, a mulher também perdeu um filho de 19 anos no Cabo de Santo Agostinho.
"Às vezes eu me lembro, choro, mas eu tenho que viver, tenho filhos, tenho netos", afirma.
Ela cobra mais policiamento, mas também critica violências praticadas pelos próprios policiais contra a população. "Eu espero que o Cabo mude, mas eu acho que não muda, não".
Políticas públicas
Cientista social e membro do Fórum da Juventude do Cabo, Matheus Mariano afirma que a situação de vulnerabilidade da cidade remonta à década de 1980, mais ligada à questão do campo, e que passou por reconfiguração nos anos 2000 a partir do desenvolvimento do Complexo Industrial Portuário de Suape.
"O Porto de Suape dobra a população da cidade. Além disso e de aumentar a circulação de dinheiro, isso também faz com que o mercado de drogas se aqueça e se organize. O porto também é uma porta de rotas do tráfico internacional", explica o pesquisador, que analisou o cenário do município sem ter acesso aos dados do anuário.
Para Mariano, o crescimento populacional desorganizado também não veio acompanhado de políticas públicas voltadas à segurança, juventude e urbanismo. "Você vê as vítimas e quem comete esses delitos, e são jovens. Enquanto a gente não resolver o problema de uma política voltada para a juventude no município, dificilmente a gente vai conseguir reverter isso", diz.
Ele cita também a presença de grupos criminosos como Comando Litoral Sul. "A produção da própria violência letal se dá muito pela questão de estruturação desses grupos criminosos".
Segundo Mariano, a cidade ainda vive um processo de conflito entre esses grupos por controle do tráfico. "Estudos mostram que quando uma organização criminosa se estabelece há uma tendência de que diminua a violência. Mas quando existem vários grupos tentando tomar o poder, a gente acaba tendo uma produção mais intensa dessas violências".
Municípios
Todas as cidades que compõem a lista das 10 maiores taxas de MVI estão no Nordeste. O levantamento considerou apenas cidades com população igual ou superior a 100 mil habitantes.
O Nordeste é a região brasileira com a maior taxa desde 2020. A Bahia tem cinco municípios no ranking, enquanto Ceará tem três, e Pernambuco e Paraíba, um cada. "Em geral, estes municípios apresentam um padrão de disputas entre grupos criminosos pelo controle do tráfico de drogas", registra o Anuário.
A cidade de Maranguape, no Ceará, segue como a de maior taxa de MVI do Brasil. Em 2025, apresenta uma taxa mais de cinco vezes maior que a nacional, com 100,3 MVIs por 100 mil habitantes. O FBSP explica que o número é fortemente influenciado por disputas de facções criminosas pelo território.
Em segundo lugar está Eunápolis (BA), com 85,1 casos por 100 mil habitantes. "Vale destacar o salto no número de MVI desta cidade que em 2024 não figurava nem entre as 20 cidades com maior taxa nacional", diz trecho do documento.
Confira a lista das 10 cidades com maiores taxas de mortes violentas intencionais:
1 - Maranguape-CE
2 - Eunápolis-BA
3 - Maracanaú-CE
4 - Porto Seguro-BA
5 - Simões Filho-BA
6 - Jequié-BA
7 - Caucaia-CE
8 - Cabo de Santo Agostinho-PE
9 - Santa Rita-PB
10 - Juazeiro-BA