Derrubada de árvores para obras do Projeto Orla Parque revolta moradores de Boa Viagem
Plantas foram retiradas na manhã desta quarta (15), de uma área em frente à Praça de Boa Viagem, na Zona próximo ao quiosque de número 36.
Publicado: 15/07/2026 às 18:17
A retirada das árvores revoltou alguns moradores da localidade, que questionaram a ação. (Mauricio Ferry/DP Foto)
Pelo menos cinco árvores foram retiradas da orla da Praia de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, na manhã desta quarta-feira (15), na área em frente à tradicional praça do bairro. A medida revoltou alguns moradores da localidade, que questionaram a ação.
O Diario de Pernambuco esteve no local no início desta tarde e ouviu as críticas de alguns moradores que conversaram com a equipe de reportagem. É o caso da advogada Maria Tereza Monte, de 59 anos, que vive em Boa Viagem desde que nasceu.
Ela disse que escutou o som das serras elétricas e se assustou. “Conheço essas árvores desde a época em que minha avó morava aqui. São árvores centenárias. Em uma hora derrubaram quatro árvores, todas sadias”, afirmou.
A moradora comentou que desceu para tentar entender o que estava acontecendo e ouviu de uma funcionária que as plantas de grande porte serviam de abrigo para “bêbados e drogados”.
“A engenheira disse que era melhor sem árvore porque ficam os bêbados e os drogados aqui na frente, e, sem sombra, eles vão sair. Uma explicação absurda”, acrescentou.
Outra residente da região, a cientista Patrícia Marinho, de 58 anos, expressou ao Diario indignação pela situação. Segundo ela, os residentes do entorno não foram ouvidos sobre as mudanças promovidas pelas obras na orla.
“Estou incrédula, é um retrocesso, um desacato ao nosso bem-estar. Como cidadã recifense, estou indignada, consternada por assistir a essa cena deplorável, uma engenheira falando que isso vai ser melhor. Melhor para quem?”, indagou.
Além delas, a administradora Jorgeane Meriguette, de 53, mora na região há 9 anos. Ela destacou que o projeto poderia levar em conta a localização das plantas.
“O projeto é bonito, bacana, mas eu acho que o meio ambiente tem que ser preservado. Então, para que tirar árvores centenárias para fazer compensação? Eu acredito que poderia fazer algo bonito, sem tirar árvores centenárias. O dinheiro, sim, poderia ser investido para melhorar a orla, mas não dessa forma, acabando com o meio ambiente”, comentou.
Do ponto de vista ambiental
O Diario ouviu o biólogo Maurício Dália. Segundo ele, a retirada das casuarinas é positiva para essa fitofisionomia (vegetação de praias e restingas), já que a espécie provoca grandes danos ao ecossistema. Ele destaca que as restingas — frequentemente vistas pela população apenas como "mato" nas praias — têm grande importância para uma série de insetos benéficos, crustáceos, répteis e aves que dependem desse ambiente para sobreviver.
"Apesar de ser uma medida um tanto impactante, principalmente pelo impacto paisagístico, emocional e pela manutenção do microclima, as supressões geralmente fazem parte de um processo urbanístico planejado e com as compensações predefinidas", afirma.
De acordo com o especialista, outro ponto importante é compreender que todo o processo segue a legislação vigente. Segundo ele, outro ponto importante é que todo o processo segue a legislação vigente. Essas normas determinam que a compensação ambiental seja maior do que a vegetação suprimida, o que amplia a captura de carbono e, quando o replantio é feito com espécies nativas, contribui para recuperar as funções ecológicas das restingas.
O biólogo acrescenta que a casuarina é uma das espécies exóticas invasoras mais agressivas das restingas brasileiras. Suas folhas liberam substâncias químicas que impedem o crescimento de plantas nativas. "As agulhas caídas formam um tapete denso que sufoca o solo, bloqueia a germinação de sementes nativas e reduz drasticamente a biodiversidade local", explica.
Maurício Dália ressalta que, do ponto de vista ecológico, a ação é adequada. "Basta agora verificar e acompanhar, de fato, a compensação desse impacto. Acredito que ela deva ser revertida localmente, com o plantio de novas árvores nativas ou até mesmo com medidas de proteção da restinga que ainda resiste em Boa Viagem."
O que diz a Prefeitura
Em nota, a Prefeitura do Recife afirmou que a retirada das árvores foi “necessária” para a implantação de um mirante na Centralidade 6, na Pracinha de Boa Viagem, dentro da requalificação da Orla de Boa Viagem, o Projeto Orla Parque.
De acordo com as informações repassadas pela gestão municipal, os estudos do projeto identificaram que a localização de algumas árvores coincide com a área das fundações e das estruturas do mirante, o que inviabiliza a permanência das plantas.
A Prefeitura destacou, ainda, que o Projeto Orla Parque prevê o plantio de 600 árvores em toda a extensão, das quais 456 já foram plantadas. Ainda de acordo com a gestão, a orla passará a contar com 1.182 árvores, já que já existem 582 – o que representa um aumento de mais de 100% na cobertura arbórea.