Vendedores mantêm vivo tradicional comércio de fogueiras de São João no Recife
Com preços entre R$ 30 e 60, comerciantes apostam no aumento da procura das fogueiras às vésperas da principal noite junina que acontece na próxima quarta-feira (24)
Publicado: 22/06/2026 às 14:23
venda de fogueiras Av Agamenon Magalhães , Bairro de Santo Amaro (Foto: Mauricio Ferry / DP)
Enquanto as bandeirinhas enfeitam ruas e praças e o cheiro de milho cozido toma conta da cidade, outra tradição típica do período junino movimenta diferentes pontos do Recife: a venda de fogueiras. Em avenidas movimentadas e esquinas de bairros da capital, trabalhadores aproveitam a proximidade do São João para garantir uma renda extra e manter viva uma das manifestações mais antigas da cultura nordestina.
Nesta segunda-feira (22), na Avenida Agamenon Magalhães, bairro de Santo Amaro, em um dos principais corredores viários da cidade, o vendedor Bruno de Souza Tavares, de 23 anos, acompanha com expectativa a chegada dos clientes. Há três anos trabalhando com a venda de fogueiras, ele explica que a procura costuma aumentar nas últimas horas antes da festa.
Segundo Bruno, a maioria das pessoas evita comprar a madeira com antecedência. “A saída é mais no dia. Ninguém vai procurar guardar madeira em casa por causa de rato, insetos e outros animais. A partir de hoje já começa a sair”, conta.
As fogueiras vendidas por ele custam entre R$ 30 e R$ 50. Apesar da expectativa positiva para as vendas deste ano, o comerciante admite que a preparação foi mais complicada do que em anos anteriores.
“Normalmente eu começo a guardar lenha uns seis meses antes. Esse ano foi diferente porque eu estava trabalhando. Saí da empresa agora há pouco e fiquei totalmente atrasado. Foi na guerra e na raça”.
Para montar o estoque, Bruno compra parte da madeira e também aproveita troncos e galhos descartados após podas realizadas em diferentes pontos da cidade. “Quando cortam árvores, eu pago para uma pessoa pegar para mim e trazer. Aí vou guardando para o São João.”
Preparação antecipada
Já na tradicional Rua da Lama, no bairro do Cordeiro, Zona Oeste da capital, a venda de fogueiras faz parte da vida de Edivaldo Silva, de 54 anos. Embora comercialize fogueiras há cerca de 20 anos no local, ele conta que começou a trabalhar com a atividade ainda na juventude, aos 17 anos.
Hoje, Edivaldo já possui uma clientela consolidada que retorna todos os anos para comprar suas fogueiras. A experiência acumulada permite que ele faça uma avaliação positiva da temporada de 2026. “Esse ano está bom, graças a Deus. Não muda nada”.
As fogueiras comercializadas por ele custam, em média, R$ 50. Em alguns anos, o comerciante já vendeu mais de 50 unidades durante o período junino. Segundo ele, a demanda poderia ser ainda maior se houvesse mais matéria-prima disponível. “Se tivesse mais madeira, eu venderia umas 100 fogueiras. Já tenho freguês certo”.
Na comunidade de Roda de Fogo, também na Zona Oeste, o jovem Anderson Rodrigo da Silva, de 32 anos, encontrou na tradição junina uma oportunidade de complementar a renda. Diferentemente de muitos vendedores, ele oferece um serviço completo aos clientes: além de vender a fogueira, faz a entrega e até a montagem na casa de quem compra.
“Têm muitas pessoas idosas que não conseguem montar. Eu levo, armo e deixo tudo bonitinho. É só tocar fogo e dançar forró”, brinca.
Assim como os demais vendedores, ele afirma que os preços praticamente não sofreram alterações em relação aos anos anteriores. A diferença está no serviço oferecido. “A fogueira é R$50, mas para eu levar e deixar pronta é R$60.”
Apesar das diferenças de idade, a expectativa é de que a tradição das fogueiras continue reunindo famílias durante os festejos juninos e garantindo uma fonte de renda importante para quem trabalha com a atividade.
A reportagem do Diario de Pernambuco entrou em contato com a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) para obter informações sobre a comercialização de fogueiras neste período junino e se há fiscalização. Até a publicação desta matéria, não houve retorno.
Alerta para risco de queimaduras
O período de festejos juninos intensifica a necessidade de cuidados com materiais que podem provocar queimaduras nas crianças e adolescentes. O alerta foi feito nesta segunda-feira (22) pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
“As festas fazem parte da cultura brasileira e são momentos de celebração para muitas famílias, mas também exigem atenção redobrada, porque há maior exposição a fogueiras, fogos de artifício, churrasqueiras, recipientes com alimentos e bebidas quentes e outros materiais inflamáveis”, afirmou à Agência Brasil o presidente da SBP, Edson Liberal.
Conforme a entidade, menores de cinco anos concentram mais da metade das internações pediátricas por queimaduras no Brasil. Levantamento feito pela SBP revela que o grupo etário concentrou 53,8% das internações por queimaduras registradas no Sistema Único de Saúde (SUS), entre 2024 e 2025.
Apenas nos dois últimos anos, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 13,8 mil internações de crianças e adolescentes por queimaduras e outros acidentes térmicos graves. O número real de ocorrências, entretanto, deve ser muito maior, uma vez que a pesquisa considera somente os casos que exigiram hospitalização.
O presidente da SBP informa que não dispõe de uma estimativa específica para os casos de queimaduras que não resultam em internação. Os dados oficiais contemplam principalmente hospitalizações e óbitos.
"No entanto, sabemos que o número real de ocorrências é bastante superior ao registrado, já que muitos episódios leves e moderados são atendidos em unidades de pronto atendimento, consultórios ou mesmo tratados em casa, sem entrar nas estatísticas hospitalares.”
Segundo os especialistas, crianças não devem manusear fogos de artifício, fósforos, isqueiros ou qualquer artefato que envolva fogo ou explosão. A recomendação é que permaneçam sempre sob supervisão de um adulto e afastadas das fontes de calor.
*Com informações da Agência Brasil