Em ruínas, Teatro Valdemar de Oliveira vive o drama do abandono no Centro do Recife
Na manhã desta terça-feira (9), a equipe do Diario de Pernambuco esteve no local e encontrou um cenário marcado pela degradação; mais de um ano após o incêndio que destruiu parte da estrutura, antigo patrimônio segue com sinais de moradia irregular , consumo de drogas, lixo, pichações e sem perspectiva de recuperação
Publicado: 10/06/2026 às 06:00
Em ruínas, Teatro Valdemar de Oliveira vive o drama do abandono no Centro do Recife (Foto: Rafael Vieira/ DP)
As ruínas do antigo Teatro Valdemar de Oliveira, na Praça Oswaldo Cruz, no bairro da Boa Vista, área central do Recife, continuam evidenciando o abandono de um dos espaços culturais mais importantes da história de Pernambuco.
Mais de cinco anos após o encerramento definitivo das atividades e pouco mais de um ano depois do incêndio que destruiu parte da estrutura, o prédio permanece deteriorado, sem sinais visíveis de recuperação.
Além da degradação física, o imóvel vem sendo utilizado por pessoas em situação de rua e usuários de drogas, segundo relatos de trabalhadores da região feitas à equipe de reportagem do Diario de Pernambuco durante visita ao local na manhã desta terça-feira (9).
Logo na chegada, foi possível observar pontos de alagamento em frente ao casarão, paredes completamente pichadas, sinais de vandalismo, lixo espalhado, entulhos acumulados e um forte odor de esgoto.
A situação também sugere ocupação irregular do imóvel. Em uma das janelas da sacada externa, uma cortina improvisada chamou a atenção, indicando a possível presença de moradores no interior da estrutura.
Durante a visita, três pessoas, uma mulher e dois homens, um deles empurrando uma bicicleta, entraram no prédio abandonado. Um cachorro também circulava pelo local.
Para quem convive diariamente com a situação, o abandono já faz parte da paisagem. O comerciante Cláudio Teixeira, de 50 anos, afirma que a degradação não se restringe ao teatro.
“Está tudo abandonado. Tanto a praça quanto o teatro. Tocaram fogo no teatro, invadiram, tem gente morando lá dentro. Tem gente que faz um quartinho e vende para outras pessoas morarem. Isso já acontece há mais de anos”, relatou.
Segundo ele, a Praça Oswaldo Cruz também sofre com a falta de manutenção e segurança.
“Quando alguma empresa adota, fica tudo bonito, iluminado, com decoração de Natal e São João. Depois volta ao abandono. O que falta aqui é policiamento. À noite isso aqui vira uma loucura”, afirmou.
Moradia improvisada e uso de drogas
Um porteiro que trabalha nas proximidades há cerca de quatro anos e preferiu não se identificar relata que o teatro passou a ser utilizado por pessoas em situação de rua desde que deixou de funcionar.
“Desde que ficou abandonado, passou a ser utilizado pelos moradores de rua que ficam na praça. Tem gente que dorme lá dentro e até na parte de cima. Já fizeram cobertas improvisadas. Hoje o local serve como ponto de uso de drogas e prostituição”, contou.
Segundo ele, a movimentação é constante e ocorre à vista de quem passa pela região.
“Muita gente entra e sai dali todos os dias. Quem passa consegue ver a movimentação. Está entregue aos pedaços”, disse.
O trabalhador afirma ainda nunca ter presenciado qualquer tipo de fiscalização no imóvel durante o período em que trabalha nas imediações.
“Pelo tempo que estou aqui, nunca vi ninguém chegar para verificar a situação do prédio ou fazer alguma vistoria. Nunca vi fiscalização.”
O porteiro também guarda lembranças da época em que o teatro estava em funcionamento. Antes de trabalhar no edifício vizinho, ele atuou como porteiro de uma escola que funcionava ao lado do espaço cultural.
“Na época havia muitos eventos das crianças da escola dentro do teatro. Era tudo organizado. Era um espaço muito bom. Hoje ninguém mais olha para esse lugar. É triste ver um patrimônio desse jeito”, lamentou.
Praça repete cenário de degradação
Em frente ao teatro, a Praça Oswaldo Cruz apresenta problemas semelhantes. Parte do espaço estava completamente tomada pela água na manhã desta terça (9), consequência dos recentes alagamentos registrados na cidade.
Apesar da limpeza frequente realizada na área, a praça continua sendo utilizada como abrigo por pessoas em situação de rua. Durante a visita da reportagem, também foi possível observar vestígios de consumo de drogas e acúmulo de resíduos em diversos pontos do local.
Incêndio agravou destruição
O cenário atual foi agravado em 6 de fevereiro de 2024, quando um incêndio de grandes proporções atingiu o prédio já desativado.
As chamas destruíram parte significativa da estrutura e atingiram a histórica Biblioteca Samuel Campelo, que reunia um importante acervo sobre o teatro pernambucano. No local estavam guardados livros, textos dramáticos, revistas especializadas, coleções, correspondências, enciclopédias e documentos relacionados à história do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP) e da produção cultural do estado.
O incêndio consumiu uma parte importante da memória artística pernambucana e representou mais um capítulo de perdas para um equipamento que já enfrentava anos de abandono.
Um patrimônio da cultura pernambucana
Localizado na Praça Oswaldo Cruz, o espaço foi inaugurado em 1971 com o nome de Nosso Teatro, criado pelo Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), grupo fundado em 1941 pelo médico, escritor, ator e músico recifense Valdemar de Oliveira.
Reconhecido nacionalmente, o TAP desempenhou papel fundamental na formação de atores e no desenvolvimento das artes cênicas em Pernambuco. Após a morte de Valdemar de Oliveira, em abril de 1977, o equipamento cultural passou a receber o nome do fundador, tornando-se oficialmente Teatro Valdemar de Oliveira.
Em nota, a Prefeitura do Recife informou que a manutenção da Praça Oswaldo Cruz recebe manutenção diariamente com serviços de limpeza e conservação. Segundo a gestão, a água acumulada encontrada pela reportagem é consequência das chuvas ocorridas nos últimos dias.
Veja a íntegra:
"A Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb) informa que a manutenção da Praça Oswaldo Cruz é realizada diariamente, com serviços de limpeza, conservação e orientação da população quanto ao uso adequado do espaço. A Emlurb destaca, ainda, que o acúmulo temporário de água registrado no equipamento público ocorreu em razão do elevado volume de chuvas dos últimos dias e que o sistema de drenagem da praça está funcionando adequadamente, com a água escoando normalmente.
Em relação à presença de pessoas em situação de rua, a Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome (SAS) realiza abordagens sociais diárias na área central da cidade, incluindo a Praça Oswaldo Cruz, por meio do Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS). Durante as abordagens, são ofertados acolhimento institucional, cuja adesão não é obrigatória por parte da população, que possui direito constitucional de ir e vir.
As equipes também realizam encaminhamentos para a rede de saúde, apoio para emissão de documentação civil e inclusão em programas e benefícios sociais. Além disso, são desenvolvidas ações integradas nos territórios, em articulação com as políticas públicas de assistência social, saúde, atenção ao uso de álcool e outras drogas e segurança cidadã. O trabalho é contínuo e visa fortalecer vínculos, identificar demandas e ampliar o acesso dessa população aos serviços públicos".
Ao longo das décadas, o espaço foi palco de apresentações, festivais, encontros culturais e projetos de formação artística, consolidando-se como uma referência para gerações de artistas pernambucanos.
O teatro já havia enfrentado uma tragédia semelhante em outubro de 1980, quando um curto-circuito provocado na iluminação do palco causou um incêndio que destruiu parte da sala principal. Mesmo após aquele episódio, o equipamento foi recuperado e continuou funcionando por décadas.
Hoje, porém, o que resta é um prédio marcado por pichações, invasões, lixo e sinais de ocupação irregular.