PMs são filmados chutando torcedores do Sport após jogo no Recife
Entrevistados pelo Diario, torcedores afirmam que não participavam da confusão no momento da abordagem policial. Corporação diz que imagens estão "sob análise criteriosa"
Publicado: 05/05/2026 às 18:24
Torcedores dizem que não tiveram envolvimento com briga na saída do estádio. (Foto: Reprodução/Redes sociais)
Cinco torcedores do Sport afirmam que foram agredidos sem justificativas, com pontapés e tapas, por policiais militares após partida do clube contra o Ceará, no último domingo (3). Um vídeo mostra policiais chutando torcedores sentados no chão em uma parada de ônibus na Avenida Agamenon Magalhães, na área central da cidade.
As imagens foram registradas durante briga entre torcedores do Sport e do Ceará na saída do jogo. O grupo agredido afirma que não tinha relação com a confusão.
"Terminou o jogo e eu fui para a parada de ônibus. A gente estava esperando lá, tranquilo, quando do nada começou a turma correndo e depois as bombas", diz um dos torcedores agredidos, de 30 anos, que não quis se identificar.
Ele narra que correu procurando um lugar seguro e que tentava avisar aos policiais que não tinha participação na briga.
"A gente estava correndo e policiais estavam de moto. Vieram para perto de mim e de outros rapazes. Eu falava para eles 'Eu não estou na briga', mas eles se levantaram da moto e começaram a me agredir", relata.
O torcedor diz que o grupo sentou no chão e, nesse momento, recebeu soco e chutes, sofrendo escoriações leves. Parte dos torcedores teve a camisa arrancada.
"A gente não podia fazer nada. Aquela cena ali foi de terror mesmo. Eu só estava feliz, voltando do jogo, esperando o ônibus para ir pra casa, para no outro dia já ter que acordar cedo para trabalhar".
Ele continua: "A gente vai para um lugar para distrair a mente, se divertir, sorrir, e no final acontece uma situação desagradável dessa".
"Eles fizeram o que gostariam de fazer, entende? Porque dava para ver no rosto deles que estavam só querendo agredir as pessoas, não estavam distinguindo ninguém", lamenta. O homem afirma que não é membro da torcida organizada.
“Queremos responsabilização”
O advogado da Torcida Maior do Nordeste, antiga Torcida Jovem, Ivison Tavares, diz ter protocolado uma notícia-crime contra os policiais e que denunciará o caso na Corregedoria da Secretaria de Defesa Social (SDS).
Segundo ele, dois dos cinco agredidos se consideram integrantes da torcida organizada, mas não são membros de fato. Um deles também teria sido atingido na nádega por um tiro de bala de borracha.
"Eu não quero generalizar a Polícia Militar. Neste caso de má conduta, nós queremos a responsabilização individual e não do batalhão ao qual fazem parte", acrescenta o defensor. "Eu espero que os policiais sejam submetidos ao devido processo legal, que realizem suas defesas e que o rigor da lei pese em desfavor deles". Ele calcula que as agressões foram cometidas por três homens, com o acompanhamento de um quarto policial.
Tavares destaca que há grandes avanços no diálogo entre a torcida organizada e a Polícia Militar, o que estaria resultando em queda nas ocorrências relativas à intolerância esportiva.
O advogado reconhece que houve conduta ilegal de torcedores que se dizem simpatizantes da torcida organizada do Sport, entretanto responsabiliza a Polícia Militar (PM) por falha na organização de dispersão do público.
"A gente defende, inclusive, a estes torcedores o rigor da lei. O que a gente não pode ignorar é que há uma questão da violência enraizada no futebol", comenta. "Não precisamos ser especialistas em segurança pública para saber que, com duas torcidas rivais se encontrando, existirá a possiblidade de confronto entre elas".
O advogado afirma que o confronto começou após a torcida do Ceará deixar a Ilha do Retiro antes do que deveria e em um trajeto que os fez encontrar torcedores do Sport que ainda estavam no entorno do estádio.
Segundo Tavares, a Polícia Militar (PM) puniu a torcida com a proibição de exibir materiais e utilizar baterias nos próximos dois jogos do Sport em casa.
"É um sentimento de tristeza muito grande por parte da torcida. Ela não gerou, não participou e não organizou nada do que foi ocorrido. As festas nos estádios estão cada vez maiores, a Jovem canta o jogo todo. A torcida está realimente voltando à origem, ao que de fato sempre deveria ser", defende.
"Infelizmente, por conduta de terceiros e irresponsabilidade da Polícia Militar, recai um ônus sobre a torcida", conclui o advogado.
Em nota, a Polícia Militar de Pernambuco informa que as imagens estão sob análise criteriosa para identificação dos envolvidos e posterior apuração das condutas. "
A Polícia Militar de Pernambuco informa que as imagens já estão sob análise criteriosa para a identificação dos envolvidos e posterior apuração das condutas. "A corporação reitera seu compromisso com a ética e a legalidade, ressaltando que não tolera condutas que desviem dos protocolos técnicos e dos valores fundamentais que regem a atuação de seus integrantes", declara.