Comerciantes e moradores relatam medo da violência entre moradores em situação de rua na Praça Maciel Pinheiro
Consumo de drogas, constantes brigas e muita sujeira entre moradores em situação de rua na Praça Maciel Pinheiro, no centro do Recife, estão entre as maiores preocupações de comerciantes e moradores da região
Publicado: 30/04/2026 às 08:26
Pessoas em situação de rua na Praça Maciel Pinheiro (Foto: Marina Torres/DP Foto)
Comerciantes e moradores relatam medo constante diante da presença de pessoas em situação de rua, consumo de drogas e brigas frequentes na Praça Maciel Pinheiro, no bairro da Boa Vista, área central do Recife
“Eles ficam aí usando cola, droga, brigando entre eles. Já teve sangue aqui na praça.” O relato é de um segurança que trabalha no entorno do equipamento, no bairro da Boa Vista, área central do Recife, e resume a realidade enfrentada diariamente por quem circula nas imediações.
A cena se repete dia após dia. Pessoas em situação de rua permanecem alojadas na praça, ocupando diferentes pontos do espaço. Muitas são vistas deitadas em colchões improvisados ou diretamente no chão, enquanto roupas ficam estendidas nas grades de proteção e em estruturas públicas, caracterizando o uso do local como moradia improvisada.
Durante a apuração, foi possível observar a redução no fluxo de pedestres. Populares evitam atravessar a praça, sobretudo diante da presença constante de usuários e do consumo aberto de drogas.
Substâncias como cola e cigarros de maconha são utilizadas com frequência e a vista de quem passa, inclusive por menores, segundo relatos de trabalhadores. A insegurança é apontada como o principal problema por comerciantes e moradores.
“O cenário está bem sujo, bastante morador de rua aqui na porta da loja. A gente tem que acordar eles para abrir e ainda fazer a limpeza”, relata uma vendedora que não quis ser identificada por medo de represália.
Ela também descreve a rotina de violência presenciada no local. “É toda hora, todo instante. Eles usam droga direto, tem muito menor cheirando cola. E brigam entre si, já pegaram faca, já teve agressão, jogam pedra. A gente fica com medo de ser atingido sem ter nada a ver.”
A sensação de abandono é reforçada pela falta de policiamento contínuo. “A gente vê uma viatura passando, mas é só passando. Falta policiamento mais firme, de permanecer. Isso aqui é um grande centro comercial”, afirma.
Com 11 anos de atuação na região, a comerciante Maria da Conceição, 34 anos, afirma que o cenário se deteriorou com o tempo.
“Antigamente era muito melhor. Hoje está muito perigoso. É cheio de gente usando droga, briga toda hora, esfaqueamento. Isso é constante”, relata.
Apesar de apontar uma leve melhora recente, ela diz que o medo permanece. “Agora melhorou um pouco com mais polícia, mas ainda dá medo. Quando começa uma briga, é faca, é gargalo de garrafa. A gente fica com medo que sobre pra gente.”
Quem trabalha há mais tempo também observa impacto direto no movimento. Um flanelinha com 34 anos na área, e que não quis ser identificado, afirma que a mudança é evidente.
“O que mudou foi isso: aumentou o pessoal de rua e caiu o movimento. O povo tem medo de vir.”
Ele relata episódios graves presenciados ao longo dos anos. “Já teve muita briga, até morte. A gente fica com medo. Eles não mexem com a gente, mas brigam entre eles mesmos.”
O segurança Clécio José da Silva, de 55 anos, reforça que intervenções urbanas não foram suficientes para reverter o cenário.
“Quando reformaram, ficou bonito. Mas depois voltou à estaca zero. Hoje tem sujeira, violência, briga. Os clientes ficam com medo de passar aqui.”
Ele detalha o que encontra no dia a dia. “Tem colchão na frente das lojas, sujeira, às vezes até fezes. O pessoal reclama muito. Já encontraram faca várias vezes. Eles andam com faca.”
O uso e comércio de drogas é outro motivo preocupação. “Já vi muito. Tem gente que vem para vender. Entre eles tem quem comanda. E ficam aí usando cola, droga, brigando entre eles. Já teve sangue, aqui, na praça.”
A insegurança afeta diretamente trabalhadores e moradores, principalmente em momentos de menor movimento.
“É difícil, principalmente para as mulheres. Muitas vezes a gente precisa acompanhar até a parada de ônibus, porque fica perigoso”, relata Clécio.
Mesmo sem registros frequentes de agressões diretas contra comerciantes e moradores, o clima de tensão é permanente. “A gente trabalha com medo. Não sabe quando pode acontecer alguma coisa”, resume a vendedora.
Para comerciantes e moradores, o problema exige mais do que ações pontuais. Eles cobram medidas efetivas do poder público, tanto na área de segurança quanto na assistência social.
“Não é só tirar daqui. Precisa de política pública, de cuidado com essas pessoas, mas também de mais segurança. Do jeito que está, não pode continuar.”