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TRADIÇÃO

Por que bredo é tradição na Semana Santa em Pernambuco

Consumo do bredo na Semana Santa atravessa gerações em Pernambuco, embora não exista registro histórico preciso da sua origem

Cadu Silva

Publicado: 02/04/2026 às 14:04

Por que bredo é tradição na Semana Santa em Pernambuco
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Por que bredo é tradição na Semana Santa em Pernambuco (Divulgação)

Presença quase obrigatória nas mesas pernambucanas na Semana Santa, o bredo carrega uma tradição que resiste ao tempo, embora sua origem permaneça sem registro histórico preciso.

Apesar de amplamente consumido nesse período, não há documentação que indique quando ou como a planta passou a integrar o cardápio da Páscoa em Pernambuco. A ausência de registros, inclusive, desafia pesquisadores da área.

Segundo o jornalista e antropólogo Bruno Albertim, a dificuldade em rastrear essa origem é comum quando se trata de hábitos alimentares populares. “Não existe documentação precisa. Há apenas citações dispersas. Já procurei isso em várias fontes e nunca encontrei um ponto de partida claro”, afirma.

Nem mesmo obras clássicas de referência sobre a alimentação no Brasil, como as de Luís da Câmara Cascudo e Gilberto Freyre, trazem menções diretas ao bredo. Considerados pioneiros na análise da comida como elemento social e cultural, os autores ajudam a compreender o contexto, mas não registram especificamente o alimento.

A explicação, segundo Albertim, está no fato de que os hábitos alimentares só passaram a ser valorizados como patrimônio cultural há relativamente pouco tempo. “Essas práticas do cotidiano não eram vistas como algo digno de registro. Por isso, muitas tradições surgiram e se consolidaram sem documentação formal”, explica.

Entre a fé e o costume

A relação do bredo com a Semana Santa está ligada à tradição cristã de abstinência de carne. Durante o período, fiéis são orientados a abrir mão de alimentos considerados mais “fortes”, como forma de penitência e reflexão.

Esse contexto favorece o consumo de preparações mais simples, leves e acessíveis. É aí que o bredo ganha espaço.

“Ele é um alimento espontâneo, que nasce com facilidade, muitas vezes nos quintais. É simples, nutritivo e acessível a todas as classes sociais”, destaca Bruno Albertim.

Ao contrário do peixe, tradicional substituto da carne, mas que costuma ter preços elevados nesse período, o bredo aparece como uma alternativa viável e democrática. Sua presença nas mesas, portanto, também dialoga com questões econômicas.

Ainda assim, não há qualquer prescrição oficial da Igreja Católica que recomende o consumo da planta. A tradição foi construída, sobretudo, a partir dos costumes populares.

“Não existe uma orientação religiosa específica para o bredo. Ele foi incorporado ao cardápio por prática cotidiana, pela vivência das pessoas”, explica o antropólogo.

Registros indiretos ajudam a indicar a antiguidade do hábito. Segundo Bruno, antigos cadernos de receitas familiares de Gilberto Freyre, utilizados para transmitir saberes culinários entre gerações, já apontavam o uso do bredo durante a Semana Santa, ainda que sem detalhar sua origem.

Valor simbólico e identidade

Com o passar do tempo, o bredo deixou de ser apenas um alimento comum e passou a carregar um significado mais amplo.

Para além do valor nutricional, a planta representa simplicidade, partilha e pertencimento. Elementos que, segundo o especialista, ajudam a explicar sua permanência como tradição.

“Ele se torna um elemento simbólico. É consagrado pela cultura, ganha um valor que ultrapassa o alimento em si”, afirma Bruno Albertim.

Mesmo sem reconhecimento oficial, o bredo pode ser entendido como um patrimônio cultural imaterial no sentido amplo, aquele que é validado e mantido pela própria comunidade.

Essa lógica não é exclusiva do bredo. Outros alimentos típicos da culinária nordestina, como a carne de sol e a charque, também nasceram de necessidades práticas, como a conservação dos alimentos em períodos de seca, e, com o tempo, se transformaram em símbolos culturais valorizados.

“O gosto também é construído socialmente. As pessoas continuam consumindo esses alimentos não apenas por necessidade, mas porque aprenderam a gostar, porque isso faz parte da identidade”, pontua o antropólogo.

Tradição que resiste e se reinventa

A permanência do bredo como símbolo da Semana Santa em Pernambuco também reflete transformações mais amplas na sociedade contemporânea.

Em um cenário de globalização e padronização dos hábitos alimentares, cresce o interesse por elementos locais e tradicionais. Aquilo que antes era visto como simples ou comum passa a ser valorizado como expressão de identidade cultural.

“Hoje existe uma valorização maior das especificidades regionais. Ao mesmo tempo em que o mundo se torna mais uniforme, aumenta o interesse pelo que é único”, explica Bruno Albertim.

Ceasa-PE registra mais de 270 toneladas de bredo na Feira 2026

A força dessa tradição também se reflete nos números. A Feira do Bredo 2026, realizada na madrugada desta Quinta-feira Santa, já contabiliza a comercialização de aproximadamente 272 toneladas da hortaliça no Ceasa-PE.

Ao todo, foram registradas 73 entradas de veículos com o produto, sendo 30 permissionários fixos e 43 comerciantes da Área Livre, evidenciando a dimensão da feira.

A produção segue concentrada na Zona da Mata. Vitória de Santo Antão lidera com 67 cargas, seguida por Chã Grande, com seis.

Segundo o coordenador de mercado do Ceasa-PE, Luiz Otávio, o volume registrado nas primeiras horas já indica crescimento. “Houve aumento no volume transportado, com a entrada de caminhões de maior porte”, afirma. A expectativa é de ampliação ao longo do dia.

Além de refletir o consumo, os números evidenciam a articulação entre produção rural, logística e comércio, intensificada durante a Semana Santa e com impacto direto na economia local.

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