Mesmo com alta de preços, maioria dos moradores do Grande Recife pretende comprar chocolates na Páscoa, diz pesquisa
Segundo UniFafire, 66% dos recifenses pretende manter a tradição na Semana Santa. Estudo ouviu 814 moradores da Região Metropolitana
Publicado: 02/04/2026 às 10:09
Os ovos de Páscoa chegaram ao varejo com preços até 9 por cento mais caros neste ano, segundo os principais fabricantes de chocolate do país (Alcione Ferreira/DP/D.A Press)
Uma pesquisa realizada pela UniFafire Inteligência de Mercado aponta que a maioria dos moradores do Grande Recife pretende manter a tradição na Semana Santa e comprar ovos de Páscoa, apesar da alta de preços.
O levantamento, divulgado nesta quinta (2), mostra que 65,97% dos entrevistados pretendem comprar chocolates na Páscoa, em 2026.
O número é superior ao registrado em 2025 (63,36%).
Já 29,98% afirmaram que não irão comprar, enquanto 4,05% ainda não decidiram.
As entrevistas foram feitas entre os dias 10 e 26 de março.
Ao todo, o levantamento ouviu 814 pessoas, em diversos bairros do Recife e municípios da Região Metropolitana.
O trabalho aconteceu na Boa Vista, Casa Forte, Tamarineira, Boa Viagem, Cordeiro e Olinda.
O estudo possui nível de confiança de 95% e margem de erro de 3,5 pontos percentuais para mais ou para menos.
Análise
Para o professor e economista do Centro Universitário Frassinetti do Recife (UniFafire), Uranilson Carvalho, o aumento ocorre em um cenário contraditório.
Embora a pesquisa nacional da CNDL/SPC Brasil aponte que 65% dos brasileiros pretendem realizar compras para a data, os dados locais da Fecomércio-PE revelam que a economia pernambucana deve enfrentar uma leve retração de 2,9% na movimentação financeira em relação a 2025, totalizando R$ 410,9 milhões.
Para Carvalho, esse paradoxo se explica por dois fatores principais: a forte alta nos preços, com o chocolate acumulando aumento de 26,3% nos últimos 12 meses, e o alto nível de endividamento das famílias, que reduz a capacidade de consumo.
“Diante disso, o crescimento na intenção de compra, ainda que pequeno, representa mais o desejo de manter a tradição pascal do que um aumento real no volume de compras, com os consumidores locais adotando estratégias de substituição para produtos de chocolate mais acessíveis”, considera.
Ovos ou barras
A pesquisa revela também um empate técnico entre os que pretendem comprar chocolate: ovos e barras. 31,93% devem optar por ovos de Páscoa contra 29,30% que devem comprar barras de chocolate.
Seguidos de 23,33% que irão optar por produtos variados; 12,98% por caixas de chocolate; e 2,46% por outros itens. Segundo o coordenador da UniFafire Inteligência de Mercado, responsável pela pesquisa, João Paulo Nogueira, o empate técnico entre ovos e barras revela uma mudança de comportamento.
“O ovo continua simbólico, mas deixou de ser absoluto. A barra passou a ser estratégia de economia. O consumidor está priorizando custo-benefício sem abandonar o significado da data”, comenta.
Valores
Em relação ao valor que os que pretendem gastar com chocolates entre os segmentos estipulados, foram selecionadas faixas que atendessem as necessidades de todos os públicos.
A menor faixa correspondendo a até R$ 50 revela que 21,93% pretendem gastar com chocolates; uma faixa intermediária entre R$ 50 e R$ 100 mostra que 35,44% devem comprar chocolates; os que pretendem gastar entre R$100 e R$200 está na faixa de 23,86%; e a maior faixa para valores maiores que R$ 200 aponta que apenas 8,60% devem comprar o produto. O dado confirma predominância de gasto moderado, com polarização entre quem reduz drasticamente o orçamento e quem mantém um valor intermediário.
Nogueira observa que a maioria dos recifenses planeja um gasto moderado de até R$ 100, mas a dispersão das respostas mostra que a Páscoa de 2026 será marcada por estratégias heterogêneas de adequação do orçamento familiar.
Pescados
A pesquisa revela também que o pescado é prioridade absoluta entre as famílias recifenses. Se o chocolate passa por racionalização, o peixe permanece como item essencial da Semana Santa. O estudo aponta que 74,32% pretendem consumir pescados, número levemente superior ao de 2025 (73,79%).
Para Carvalho, os números revelam um crescimento pequeno, mas significativo porque mostra que a tradição religiosa e cultural continua forte – onde o consumidor pode até cortar o ovo de Páscoa, mas o peixe da semana santa ele não tira. Ele destaca que o percentual dos que não pretendem comprar caiu de 22,14% para 21,25%, indicando que parte daqueles que estavam indecisos ou resistentes acabou migrando para o consumo, possivelmente influenciada por campanhas de incentivo.
O estudo também buscou identificar quanto a população pretende gastar com o pescado e os resultados indicam que dos 814 entrevistados, 35,95% deve gastar entre R$ 100 e R$ 200; 29,49% entre R$ 50 e R$ 100; 14,66% acima de R$ 200; 9,60% até R$ 50 e 10,30% não sabem.
O valor médio predominante do pescado é superior ao do chocolate, indicando hierarquia clara de consumo. João Paulo Nogueira destaca que, a pesquisa do Procon-PE, divulgada nos últimos dias, identificou variações de até 217% em alguns produtos, reforçando a importância da pesquisa de preços pelo consumidor.
Em casa
A maioria dos entrevistados (72,73%) afirmou que não pretende viajar na Semana Santa, percentual superior ao de 2025 (69,21%). Apenas 22,11% pretendem viajar. Segundo Uranilson Carvalho, o recifense está priorizando manter a tradição dentro de casa e o orçamento está sendo direcionado para a ceia e para os itens típicos. “A Semana Santa na Região Metropolitana do Recife revela um cenário onde tradição e realidade econômica se entrelaçam”, reforça.
Para os que respoderam que vão viajar os destinos preferidos são praia, com 49,10%, seguido do campo do pouco mais de 30%. Quase 20% dos entrevistados disseram ainda não estarem decididos sobre se irão viajar no período. O dado revela predominância do turismo de proximidade e abre oportunidade para o setor hoteleiro regional captar os indecisos com promoções de última hora.
Tradição
A pesquisa da UniFafire aponta uma Semana Santa marcada por aquilo que os pesquisadores chamam de “racionalidade afetiva”: O consumidor mantém as tradições; Ajusta o orçamento; Substitui produtos mais caros; e prioriza itens culturalmente essenciais. Mesmo com inflação elevada e orçamento pressionado, o recifense demonstra que a tradição continua sendo um valor central — ainda que adaptado à realidade econômica de 2026