Rainhas de bateria mostram que o carnaval é feito por mulheres negras, mães e trabalhadoras
Rainhas de bateria conciliam trabalho, família e militância cultural no carnaval do Recife
Publicado: 07/02/2026 às 06:00
Kelly destaca que levar a coroa para as avenidas tem grande peso (Foto: Crysli Viana/DP Foto)
Poucos momentos antes do ensaio da escola de samba Mocidade dos Torrões, uma menina fala ao pai: “Quando eu crescer quero ser igual a ela e usar essa roupa”. Na frente dela estava a rainha de bateria Kelly Pereira, de 28 anos, que vive um sonho coletivo e serve de inspiração para mulheres negras de Pernambuco. O cargo é apresentado para o público apenas na noite de desfile, mas é sustentado por um ano inteiro de trabalho e rotina de maternidade, vida profissional e a realidade da periferia da Zona Oeste do Recife.
Kelly mora no bairro do Bongi e é rainha de bateria de uma escola de samba sediada na comunidade de Roda de Fogo, no bairro dos Torrões. Está há quatro anos no cargo, depois de ter ingressado na escola como musa da comunidade. Para o carnaval de 2026, teve o posto renovado mais uma vez.
Kelly diz que começou a frequentar ambientes de samba ainda na infância, aos 4 anos de idade. A memória desse primeiro contato é difusa, mas tem relação com a história familiar. A avó foi rainha de bateria da escola Lua de Prata, em Afogados, e outros parentes também integraram agremiações ao longo dos anos. “Vem de bem lá de trás. Da minha avó, da bisavó. Eu herdei esse amor pelo samba”, relembra.
Na adolescência, passou pelas alas e se tornou passista. Aos 15 anos, durante um desfile da Unidos de São Carlos, escola que já não existe, precisou ocupar o lugar da rainha de bateria após um imprevisto. A comunidade a incentivou a seguir na avenida e, naquele ano, a escola foi campeã.
A trajetória até o posto atual foi construída em diferentes escolas, até chegar à Mocidade dos Torrões, onde permanece há quatro anos. A escola integra o carnaval de escolas de samba do Recife, que conta com desfiles competitivos no grupo especial, organizados com apoio da Prefeitura do Recife, ao lado de agremiações tradicionais como a Gigante do Samba. A Mocidade atua na Zona Oeste da cidade e mantém sua base na comunidade onde foi fundada.
A estrutura da escola ainda é limitada. Os ensaios acontecem no barracão da comunidade ou na praça da Roda de Fogo. A bateria reúne cerca de 50 integrantes e, segundo ela, segue crescendo com a chegada de novos componentes. O casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mocidade também chega ao próximo carnaval como bicampeão do concurso da categoria.
O posto de rainha de bateria, para Kelly, exige constância. Ela destaca que a permanência no cargo está ligada à participação nos ensaios, às atividades da escola e à relação cotidiana com a comunidade. A rotina, no entanto, tem conciliações difíceis, já que Kelly é mãe e trabalha em dois empregos, além de atuar como empreendedora no ramo de personalizados para festas e também como gerente e decoradora de uma casa de eventos. O calendário do carnaval se soma às demandas do trabalho e da maternidade.
“É muito cansativo, mas é o lugar onde a gente se encontra. Quando a gente chega aqui, esquece tudo lá fora, o cansaço passa. Mas a rotina é pesada: o ano inteiro de preparação, dieta, academia. Isso ficou mais difícil depois que me tornei mãe, por causa da insegurança de voltar. Mas nada que me impedisse de voltar com tudo ao cargo”, conta.
A preparação para o carnaval ocorre ao longo de todo o ano e envolve ensaios regulares, cuidados físicos e organização pessoal. Após a maternidade, Kelly conta que o retorno ao posto foi acompanhado de inseguranças, mas não interrompeu o processo. “Voltei do jeito que dava. Depois vai melhorando.”
Ao falar do cargo, ela associa o protagonismo na avenida à representatividade de mulheres negras e periféricas, especialmente mães. “Eu voltei do jeito que dava para voltar, depois vai melhorando. É muito cansativo, mas é uma maravilha estar no cargo.”
Ela também menciona as cobranças relacionadas à imagem da rainha de bateria, frequentemente associadas a padrões corporais e estéticos. “A mãe periférica ocupar esse espaço, ter voz, é algo muito difícil no samba, principalmente pela questão financeira. Quando você vira mãe, a dificuldade triplica. É muito difícil segurar o cargo. A maior dificuldade é financeira, porque força de vontade a gente tem. Falta patrocínio, tudo é por conta da gente”, pontua.
Apesar das dificuldades, a rainha de bateria afirma que é na escola onde ela se encontra. A ligação com o samba também se projeta para a próxima geração, uma vez que a filha acompanha Kelly nos ensaios e apresentações e já se aproxima da bateria. O apoio da família também permite que Kelly continue no cargo.
Samba como meio de propagar equidade
Se, para muitas pessoas, a figura da rainha de bateria se resume ao momento do desfile, para Claudiana Barbosa Ferreira, mais conhecida como Cacau, o cargo é apenas a parte mais visível de um percurso longo, construído fora da avenida. Aos 28 anos, ela está há quatro carnavais à frente da bateria da Gigantes do Samba, uma das escolas mais tradicionais do Recife.
Cacau chegou à Gigantes no fim de 2023, após participar de um concurso interno. O reinado inicial previa dois anos, mas, no início do ano passado, foi convidada pela diretoria da bateria a permanecer por mais dois carnavais, totalizando quatro anos no posto. A permanência, segundo ela, está ligada à atuação junto à escola e aos projetos que orbitam o samba.
A relação com o ritmo começou ainda na infância, no bairro de San Martin, onde cresceu cercada por rodas de samba e por uma família descrita por ela como “festeira”.
A dança entrou de forma mais estruturada na adolescência. Aos 14 anos, passou a integrar um projeto social ligado a uma paróquia do bairro, onde teve acesso às aulas de dança de salão como bolsista. A experiência, inicialmente recreativa, ganhou contornos mais definidos com o tempo.
Em 2016, passou a frequentar a escola Bailar, em Santo Amaro, novamente como bolsista. No mesmo período, ingressou no curso de Educação Física da Universidade de Pernambuco (UPE). A partir daí, dança e formação acadêmica passaram a caminhar juntas. Na universidade, começou a ministrar aulas de samba no pé e dança de salão.
O interesse pela profissionalização levou Cacau a participar de competições locais e, posteriormente, a buscar formação no Rio de Janeiro, onde realizou processos de estudo e reciclagem voltados especificamente para o samba no pé.
No período final da pandemia, em 2022, nasceu o Recife Samba Show, seu primeiro grupo de samba no pé voltado para mulheres. O projeto surgiu dentro da escola onde já atuava como professora e tinha como objetivo criar um espaço de aprendizado que extrapolasse a técnica. Hoje, o grupo reúne 46 alunos e segue em expansão.
Quando soube do concurso para rainha de bateria da Gigantes, em 2023, Cacau diz que a motivação ia além da conquista do cargo. “Não era só sobre ser rainha. Era sobre o que eu poderia fazer através disso”, explica. Para ela, o posto tem prazo, mas o impacto construído a partir dele permanece.
A rainha de bateria destaca que essa visão molda a forma como ela atua junto aos alunos e à comunidade. A maioria das participantes do projeto são mulheres a partir dos 30 anos, embora o grupo seja heterogêneo e inclua também pessoas mais jovens, homens e integrantes do público LGBT. Muitas carregam histórias de interrupção de sonhos, provocadas por trabalho, maternidade ou falta de acesso a espaços culturais.
Nos relatos que escuta, Cacau vê suas alunas se sentirem pertencentes. “Elas sentem que é um espaço onde podem ser elas mesmas, sem se preocupar com julgamentos e com tantas coisas que limitam a gente numa sociedade tão patriarcal e machista. Então, se tem algo que realmente me orgulha no trabalho que venho construindo, é isso: conseguir dar voz para outras mulheres também”, observa.
O impacto social também se reflete em aspectos práticos. Dentro do grupo, há pessoas que atuam com costura, maquiagem e outros serviços ligados ao carnaval. A organização interna busca fortalecer essas iniciativas, divulgando trabalhos e gerando renda.
“O que mais me orgulha é conseguir não só enxergar, mas ser reconhecida como alguém que consegue inspirar outras pessoas, principalmente mulheres. Eu sou um exemplo de uma mulher que conseguiu descobrir ainda mais sua identidade, sua personalidade e sua autoestima através do samba”, afirma Cacau.