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Pragmata - Análise

Terceiro grande lançamento da Capcom em 2026, Pragmata consegue ser leve, inovador e muito divertido.

Antônio Gois

Publicado: 06/05/2026 às 20:13

Screenshot de 'Pragmata'/Divulgação/Capcom

Screenshot de 'Pragmata' (Divulgação/Capcom)

Ainda em fevereiro, na cobertura do lançamento do ‘Resident Evil Requiem’, nono capítulo da série principal da franquia, comentei na análise que o game escancarou um dos grandes problemas da indústria de games na atualidade, mas que sua solução parece estar em algum lugar na essência da Capcom, desenvolvedora dos ‘RE’ e do título abordado hoje.

Mas, se Resident Evil já é uma franquia com uma legião de fãs e considerada por muitos - eu incluso - o maior nome do horror nos videogames, não se pode falar o mesmo sobre a não tão nova IP do estúdio japonês: ‘Pragmata’, disponível em 17 de abril para PlayStation 5, Xbox Series X/S, Nintendo Switch 2 e PC, via Steam.

Não tão nova justamente por seu histórico inusitado: o game foi anunciado no meio de 2020, junto com o novo console da Sony à época, o PlayStation 5; com o lançamento marcado para 2022, foi adiado pela primeira vez e agora lançaria em 2023; em junho de 23, foi adiado indefinidamente, o que deixou muitos entusiastas do projeto desapontados, até vendo a situação preocupante que a indústria já estava tomando desde essa época. Porém, em 2025, ‘Pragmata’ voltou a aparecer num curioso anúncio que não confirmava exatamente se o game seria lançado em 2026. Meses depois, a data foi confirmada: 24 de abril de 2026. Para terminar essa odisseia, por fim, o game teve seu lançamento adiantado em uma semana, agora sim chegando aos jogadores de todo o mundo.

Durante uma missão na estação de pesquisa lunar, que investigava a perda de contato da Terra com o satélite, o agente Hugh é surpreendido por um evento que o separa de seus colegas. Enquanto percebe acontecimentos estranhos no local, Hugh conhece a pragmata Diana, um robô que tem a aparência e personalidade de uma criança. Tendo que unir forças para sobreviver, os dois acabam formando um laço enquanto buscam um objetivo em comum: viajar à Terra.

PRAGMATA

Screenshot de 'Pragmata' - Divulgação/Capcom
Screenshot de 'Pragmata' (crédito: Divulgação/Capcom)

Embora tenha passado por um lançamento conturbado, ‘Pragmata’ não deixa isso transparecer depois de começar o jogo. Trazendo um frescor necessário e uma diversão até inesperada, o game expõe a necessidade da indústria de videogames (e de entretenimento no geral) para algo que pode e deve ser sempre levado em conta quando um projeto for criado: inovação.

Não cheguei a jogar a demo do game, disponível logo após o The Game Awards de 2025 - não porque não estava animado para o lançamento, mas exatamente para me guardar para ter uma opinião sólida já na primeira vez que jogasse. Hoje, após terminar ‘Pragmata’ e ainda me divertir com alguns dos modos extras, gostaria de ter experimentado o jogo antes e poder ter tido uma experiência com maiores expectativas, já que ele supriu boa parte das que eu tinha, especialmente em relação ao seu combate.

O combate de ‘Pragmata’ é, certamente, um de seus maiores pontos positivos e onde está boa parte da inovação tão comentada aqui. Ele consiste em duas partes: primeiro, Diana tem que hackear os inimigos - todos robôs - para expor suas fraquezas; após isso, Hugh deve usar sua arma de fogo para, enfim, neutralizá-los.

Screenshot de 'Pragmata' - Divulgação/Capcom
Screenshot de 'Pragmata' (crédito: Divulgação/Capcom)

A parte do hackeamento é surpreendentemente divertida, quebrando a lógica, já que consiste em realizar um puzzle atrás do outro enquanto sofre ataques de inimigos, o que realmente não parece tão interessante assim. Para temperar essa mecânica, o jogo oferece alguns “nodos” que trazem efeitos extras ao ataque, como maior dano, lentidão dos inimigos e até um ataque especial, que faz Hugh os finalizarem, além de algumas adições que ajudam a renovar o interesse na mecânica, nunca a deixando cair na mesmice e sempre reforçando a intuitividade que faz o combate ser tão divertido. O ritmo também ajuda na combinação de hackeamento e tiro, já que nenhum dos dois é realmente complicado e evolui bem e junto ao jogador.

A gunplay, parte que cabe ao Hugh, também é divertida e satisfatória. O game oferece novas armas até o final e permite que o jogador as desenvolva conforme seu gosto pessoal. Aqui, quatro “unidades” estão presentes: primária, de ataque, de defesa ou tática, com o jogador começando com uma de cada e podendo trocar conforme seu gosto ou necessidade durante a gameplay. Os quatro estilos funcionam bem e se completam, permitindo que o player realize combinações interessantes durante os combates, além de oferecer opções suficientes para experimentações e adaptações de acordo com a fase. Ainda assim, um mínimo de combate corpo a corpo faz falta em alguns pontos, mas isso é amenizado pelo fato do jogo constantemente apresentar novas adições ao combate, o que sempre deixa o jogador curioso e entretido.

Aliás, é interessante como o game se organiza em relação ao loop de gameplay, que traz elementos de roguelite e plataforma. A presença de um abrigo à parte do mapa, de um sistema de moedas, da opção de ir para vários pontos anteriores e de evoluir itens que podem ser achados durante a ação, por exemplo, cria uma mistura autêntica em uma gameplay que nem sempre é focada na ação, mas também traz desafios que envolvem estratégia e movimentação. O mapa e as interações dos personagens com ele formam uma mistura interessante de elementos de ‘Dead Space’, da EA, e de ‘Portal’, da Valve, à medida que tecnologias visuais e pequenos quebra-cabeças estão presentes para serem explorados sob os passos pesados da armadura corpulenta de Hugh, imediatamente confrontada pela delicadeza da pequena Diana.

Screenshot de 'Pragmata' - Divulgação/Capcom
Screenshot de 'Pragmata' (crédito: Divulgação/Capcom)

A sobreposição dos dois vai além do aspecto visual. Diana é uma novata na existência e todas as suas experiências são novas, assim como seus gostos. Mesmo assim, ela já tem uma personalidade própria, na qual a interseção entre um robô avançado e uma criança coexiste de maneira harmoniosa. Ela questiona ao mesmo tempo que se frustra, e ela luta ao mesmo tempo que se deixa impressionar com qualquer coisa, desde o holograma de um gato até a simulação de uma praia, local onde acontece uma das melhores cenas aqui. Seu inegável carisma rouba a cena, mas não tira completamente o mistério que ela traz, junto com a sensação de que ela talvez não devesse estar ali.

Hugh, por sua vez, não se mostra tão durão quanto o arquétipo de ‘pai por acaso’, como o Joel (The Last of Us) ou o Sam (Death Stranding), mas sim revela ser um adulto equilibrado e leve, que abraça com bom grado o papel e nunca esconde o quão prazeroso é testemunhar as descobertas de uma criança-robô à medida que a conexão entre os dois se torna menos de sobrevivência e mais de afetuosidade. O game sabe valorizar seus protagonistas ao sempre disponibilizar interações entre os dois e trazer, em alguns itens de descoberta, por exemplo, uma forma de enriquecer a relação entre os dois e o ambiente que os cerca.

O bom desenvolvimento dos dois se torna a prioridade da história, e isso faz com que outros contextos que os envolvem sejam deixados de lado, não sendo tão bem equilibrados quanto. É perceptível que o roteiro aceita o sacrifício de focar quase exclusivamente nos dois por um bom tempo, o que prejudica a história em alguns pontos, só tratando esse fator com importância nas últimas horas. Mesmo assim, alguns trechos ainda conseguem render momentos emocionantes quando reagimos junto aos protagonistas às poucas surpresas que o roteiro nos esconde.

Screenshot de 'Pragmata' - Divulgação/Capcom
Screenshot de 'Pragmata' (crédito: Divulgação/Capcom)

Dessa forma, o roteiro consegue equilibrar bem os desafios e a progressão da gameplay com a evolução do enredo, criando uma experiência direta e fluida, mas que permite uma exploração cadenciada quando assim o jogador quiser.

Em relação aos seus aspectos técnicos, ‘Pragmata’ também se mostra satisfatório. No PS5 base, plataforma por onde pude jogar, comecei a gameplay no modo ‘desempenho’, como normalmente prefiro. Para testar, mudei para o ‘qualidade’, modo que permaneci até o final, já que a taxa de frames permaneceu a mesma, sem quedas aparentes, e os gráficos melhoraram, nos efeitos de reflexo e iluminação, por exemplo.

Aqui, esses dois aspectos até podem não se destacar, já que a maioria da iluminação é artificial - o que não impede que ‘Pragmata’ estabeleça uma atmosfera própria, baseada em futurismo e tecnologias avançadas. Por isso, cores vibrantes estão sempre presentes, contrastando com o branco hermético que marca a estranheza dos ambientes sem vida, mas não vazios. Por isso, existe o choque - notadamente valorizado pelo game -, de quando somos impactados por locais externos, a exemplo da superfície da Lua.

Tal momento também mostra o capricho dos desenvolvedores em trazer imersão para além da ambientação audiovisual. No contexto da gravidade zero, a movimentação é mais lenta e o impulso da armadura funciona de forma diferente, assim como os tiros. Essas mudanças, é claro, lembram novamente games de plataforma, mas, aplicadas em um AAA em terceira pessoa, parecem ainda mais interessantes, visto a repetição presente nesse setor da indústria atualmente.

Por fim, vale ainda pontuar que, embora não comprometam a experiência, as expressões faciais podem deixar um pouco a desejar em certos momentos. Isso acontece porque, já que a Diana é a única personagem que tem o rosto aparente a todo momento, o peso que ela carrega nesse aspecto é muito grande. O que vemos aqui ainda é ótimo em relação ao visto em outros games da RE Engine, mas todo esse peso, junto à variedade de situações em que ela é colocada, coloca essa característica à prova repetidas vezes.

A experiência com ‘Pragmata’ é mais do que satisfatória na grande maioria de seus aspectos. Particularmente, me deixa muito feliz pensar que alguém dentro da Capcom fez questão de que esse jogo não fosse esquecido apesar das dificuldades que ele provavelmente sofreu durante seu desenvolvimento. O resultado dessa persistência é um jogo leve, divertido e refrescante, que inova sem deixar de lado noções pré-estabelecidas, mas as mistura com inspirações que resultam em uma experiência autêntica e promissora.

Nota: 86
Plataforma: PS5
*Uma chave do jogo foi cedida para a produção desta análise.

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