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LANÇAMENTO

‘Crisol: Theater of Idols’: Análise

Game apresenta mecânica e visuais originais, mas não empolga em horror e diversão.

Antônio Gois

Publicado: 18/03/2026 às 20:18

Screenshot de 'Crisol: Theater of Idols'
/Vermila Studios/Divulgação

Screenshot de 'Crisol: Theater of Idols' (Vermila Studios/Divulgação)

Em alguns casos, filmes e jogos de horror podem se equiparar em alguns sentidos. Temática, visão e até execução podem trazer paralelos entre esses dois formatos, entre esses dois tipos de arte.

Aqui, a semelhança está em uma das telinhas da introdução. A Blumhouse Productions já é bem conhecida no mundo do cinema, especialmente pelos fãs de terror. Produzindo filmes desde 2000, a Blumhouse tem uma estratégia clara que permanece daqueles dias até hoje: buscar, com orçamento limitado, ideias que tragam criatividade e consigam fazer muito com pouco, valorizando especialmente criadores originais. Dessa forma, a produtora assinou filmes quase independentes, que por contarem com um custo relativamente baixo de produção tinham a chance de se tornarem fenômenos de lucro. Assim, filmes ‘baratos’ como ‘Atividade Paranormal’, ‘Sobrenatural’ e ‘A Entidade’, hoje já clássicos do horror, se tornaram sinônimos de rentabilidade, todos passando pela ideia de liberdade criativa que seus diretores tiveram.

Dessa forma, em 2023, foi anunciado que a já gigante produtora inauguraria um braço para jogos, a Blumhouse Games. Focada essencialmente em horror e em projetos que custariam menos de 10 milhões de dólares - valor razoável para games AA nos dias atuais -, a produtora anunciou, em 2024, seus primeiros projetos em um cronograma que pretendia lançar um ou dois títulos por ano até 2027. E agora, no último mês de fevereiro, um desses títulos foi lançado, o esperado ‘Crisol: Theather of Idols’ da Vermila Studios, disponível para PlayStation 5, Xbox Series X/S e PC, via Steam.

Soldado do poderoso deus Sol, Gabriel é enviado a Tormentosa para neutralizar uma ameaça ao seu senhor: um deus revoltado que amaldiçoou a cidade e busca sua destruição junto a um culto sinistro. Para completar sua missão, Gabriel precisa libertar a cidade desses inimigos enquanto descobre uma história que envolve amor e traição em uma escala divina.

CRISOL: THEATER OF IDOLS

Como já mencionado anteriormente, ‘Crisol’ nasce de uma ideia onde queria se fazer muito com pouco. Nesse caso, que marca a estreia da desenvolvedora espanhola, resolveu se fazer uma abordagem mais clássica de horror em primeira pessoa, diferente de outros games que nasceram sob o guarda-chuva da Blumhouse, como ‘Fear the Spotlight’ e ‘Sleep Awake’.

A abordagem aqui é mais segura do que nestes dois exemplos, tanto em questão de enredo, quanto em gameplay. A história se passa na estranha cidade de Tormentosa, que vive sob uma maldição, sendo praticamente desabitada. Quem a domina agora é o culto ao deus do Mar, cujos seguidores desprezam o Sol, a quem serve nosso protagonista, por questões que se revelarão a ele.

Ao chegar no local, Gabriel logo se depara com inimigos estranhos e perigosos e, assim, o Sol resolve presenteá-lo com poderes de sangue, banhando suas armas e o fortalecendo. Assim, o game nos mostra um de seus maiores destaques: a mecânica do sangue, que envolve toda a gameplay. Geralmente tratado apenas como um medidor de vida, o sangue aqui é também a munição usada pelo jogador contra os inimigos. Assim, a cada tiro que precisa ser recarregado, Gabriel perde vida, criando um paralelo interessante entre o dano que infligimos aos inimigos e a nossa própria sobrevivência.

Assim, o combate dota de uma tensão única e interessante, já que sua própria vida está à mercê da forma com que você lida com os inimigos. Ao longo do game, Gabriel vai obtendo mais armas, que têm gastos de sangue, dano e cadências de tiro diferentes, o que obriga o jogador a planejar seus ataques e administrar as seringas, itens que aumentam um pouco o medidor de vida. Além disso, outras formas de recarregar o ‘tanque’ estão disponíveis em certas áreas do mapa, o que ajuda na tarefa de balancear resistência e ataque.

Screenshot de 'Crisol: Theater of Idols' - Vermila Studios/Divulgação
Screenshot de 'Crisol: Theater of Idols' (crédito: Vermila Studios/Divulgação)

Essa característica do combate é a grande responsável pelo loop de gameplay envolvente que o jogo apresenta. Dessa forma, o jogo sempre incentiva o jogador a enfrentar os inimigos e explorar o que as armas e seus melhoramentos podem oferecer, atingindo uma forma de combate que se destaca muito bem entre outros títulos do gênero.

Isso é potencializado pelo level design do jogo, que funciona no estilo ‘bairro aberto’, mas com áreas diretas e objetivas, que permitem pouca mudança de rota e sempre orientam o jogador a ser direto. Frequentemente você se vê em espaços limitados, onde escapar do combate é impossível. Aqui, dá para considerar isso como algo positivo, pois a tensão do combate não consiste só em sobreviver aos ataques dos inimigos, mas também em dosar e criar uma estratégia para não ficar sem sangue enquanto luta.

Espaços, armas e inimigos são bem modelados e desenhados, o que faz ser marcante a direção de arte de ‘Crisol’. Lembrando até um pouco da estética dos títulos ‘Bioshock’, o game traz esse estilo quase cartunizado para os personagens e inimigos, enquanto busca afundar o jogador em uma ambientação estranha e misteriosa, se aproveitando das bizarrices criadas pela história para impressionar e criar uma imersão bem interessante, mas que passa longe o seu objetivo de criar medo, mas que funciona como uma ação em primeira pessoa com elementos de horror. Ainda na estética, vale pontuar que as armas e objetos são um grande destaque nesse sentido, trazendo cores fortes e designs detalhados, impossíveis de não se admirar.

O game ganha muito quando aposta em trazer inimigos no estilo de marionetes, mas cai no comum quando busca fazer criaturas monstruosas, o que expõe a pouca variedade de ameaças. O maior exemplo aqui é a Dolores, maior chefe/stalker do jogo, que tem a forma de uma boneca horrenda que faz o chão tremer a cada passo e esconde um coração sob um corpo de porcelana. A personagem é a suma de onde ‘Crisol’ acerta visualmente, unindo a beleza chocante dessas marionetes com a tensão que o combate traz, mas também expõe uma grande falha aqui, que é o anticlímax do momentos que deveriam ser grandiosos, como as lutas contra os chefes, cujas mecânicas são pouco desenvolvidas e criativas, reduzindo o que poderia ser uma grande sequência a uma luta fácil e esquecível.

A exploração dos mapas junto à tensão dos ambientes passa muito também pelos efeitos sonoros imersivos, que valorizam as engrenagens enferrujadas dos inimigos e até chegam a complementar a história em certas mecânicas.

Os pontos de destaque da história são seus personagens e sua temática. Ao chegar a Tormentosa, Gabriel é ajudado por uma aliada que é quase seu oposto, uma ‘guerrilheira’ chamada Mediodía. Animada e expansiva, seu papel de companheira é importante para Gabriel se desenvolver, com o roteiro sabendo limitar bem, na maioria das vezes, onde termina seu carisma e sua ajuda em relação ao desenvolvimento do nosso protagonista. Além dela, a própria Dolores, que esconde um passado trágico, tem um papel importante nas revelações que o enredo segura até seus últimos momentos, sendo também uma personagem memorável de ‘Crisol’ para além de seu visual graciosamente grotesco. De um modo interessante, a história melhora depois que o jogo termina, mostrando que algumas escolhas de texto e momentos de exposição não foram tão bem escolhidos, mas que o enredo propõe questões interessantes como religião, devoção e até pinceladas de papéis sociais que permanecem com o jogador.

Para isso, é bom que a história não depende das clássicas cartas para serem entendidas, sendo tão expositiva e linear quanto um filme de fórmula seria, mesmo que, para quem quer entender todas as tramas paralelas das fases, seja obrigado a ver flashbacks que se dividem entre inserções curiosas e exposições pouco interessantes.

Apesar de ser um jogo sólido e um bom começo para a Vermila Studios, ‘Crisol: Theather of Idols’ ainda não é o que a Blumhouse espera com a sua estratégia de mercado, embora tenha criado um game com características autênticas e consideravelmente marcantes. ‘Crisol’ traz ideias boas e criativas, mas está longe de ser algo que vá marcar 2026, especialmente na fase crescente de horror que estamos vivenciando nos últimos anos e meses.

Nota: 68

Plataforma: PS5

*Uma chave do jogo foi cedida para a produção deste texto.

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