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Escritório de Flávio Bolsonaro recebeu R$ 13,7 milhões de outros advogados, aponta site

Sociedade individual do candidato do PL tem uma funcionária e emitiu 62 notas fiscais entre 2023 e 2026

Guto Moraes

Publicado: 20/10/2026 às 22:55

Candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) e aliados. /Charles Vieira

Candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) e aliados. (Charles Vieira)

Em menos de três anos, o escritório de advocacia do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) recebeu R$ 13,7 milhões por serviços prestados a outros advogados. O valor foi declarado em notas fiscais emitidas entre janeiro de 2023 e julho de 2026, em meio à atuação do candidato à Presidência no Senado Federal, e foi revelado pelo portal UOL, nesta terça-feira (20), que teve acesso aos dados de transações comerciais.

Com endereço registrado em sua casa — uma mansão no Lago Sul, em Brasília (DF) —, a Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia tem apenas uma funcionária, a administradora Letícia Caetano dos Reis. No entanto, das 62 notas fiscais analisadas pelo UOL, o senador só teve a atuação descrita em uma. A maioria, assinala a apuração, tem a breve descrição de “assessoria jurídica”.

O escritório voltou à evidência, na última semana, com a abertura de um novo inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) envolvendo Flávio e que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, após uma quebra de sigilo de e-mails do advogado e amigo Willer Tomaz, dono de uma empresa sediada em Portugal, a Alcazar Holdings, apontar Flávio como “usuário master” da conta bancária da empresa.

Na esteira do caso, o presidente e candidato à reeleição Lula (PT) desafiou Flávio a abrir o sigilo de suas contas bancárias, em meio às trocas de acusações de corrupção e mentiras. Lula protocolou o pedido de abertura de seus sigilos bancário, telefônico e fiscal, nesta terça-feira (20), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), condicionado à aceitação do adversário.

A Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia foi aberta em 16 de abril de 2021 e é administrada por Letícia Caetano dos Reis, irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis. Alexandre, que atuava como contador da firma do filho do ex-presidente, foi preso em 2025. Ele também era responsável técnico da principal empresa de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o “Careca do INSS”.

Clientes e pagamentos

O maior cliente da firma de Flávio foi o escritório Nilo & Almeida Advogados Associados, que tem como sócio o advogado Edvaldo Nilo de Almeida, nomeado por Jair Bolsonaro para a Comissão de Ética Pública da Presidência, em 2022. Ao todo, R$ 4 milhões foram declarados, divididos em duas notas, em agosto e outubro de 2025. O total representa 29% do faturamento da firma do filho do ex-presidente.

Outros R$ 2,1 milhões que compõem a receita da empresa foram pagos por duas sociedades de advocacia de Otto Medeiros, amigo do atual presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques. Nomeado ao STF por Bolsonaro, Nunes Marques se declara impedido de atuar nos casos envolvendo Otto, que chegou assumir processos com a irmã do membro da Alta Corte, Karine Nunes Marques.

Já o escritório de Daniel Bettamio Tesser, que integra a defesa de Jair Bolsonaro, efetuou R$ 970 mil em pagamentos registrados entre dezembro de 2025 e março de 2026. Os registros ligam ainda a banca advocatícia do presidenciável a uma empresa que atendia ao Banco Master, a Copenhagen Assessoria e Consultoria, para quem foram emitidas notas de R$ 500 mil, no dia 7 de abril de 2025. As notas foram canceladas e, em 9 de abril, o escritório emitiu nova nota de R$ 500 mil para a Contábil Correa Contabilidade & Auditoria.

A Contábil Correa tem como sócio-administrador Rogério Lourenço Novo, diretor da Copenhagen.

O empresário Marcos Antonio Grecco também aparece entre os clientes de Flávio Bolsonaro. Ele é fundador da GNPW Group, parceria empresarial da Evolution Power Partners, que arrematou R$ 17 bilhões em contratos no leilão emergencial de energia realizado no governo Bolsonaro, em 2021. No ano seguinte, Grecco foi alvo de uma ação de improbidade administrativa no Amapá. O caso foi arquivado.

À reportagem do UOL, o escritório de Otto Medeiros informou que a contratação da firma de Flávio ocorreu para consultoria privada e que as contratações levam em consideração “experiência e competência profissional de cada escritório”. Marcos Antonio Grecco afirmou que contratou “o advogado Flávio Bolsonaro no ano de 2024” e que a atuação “ocorreu formalmente, com procuração juntada aos atos”.

A reportagem reitera que “parlamentares podem ter profissões paralelas ao mandato” com o cumprimento de requisitos como não compor a Mesa Diretora do Senado ou atuar em causas envolvendo órgãos públicos, estatais e autarquias. De acordo com as notas fiscais, os pagamentos foram feitos em contas do escritório no Santander e no BRB. Na conta do Santander, segundo a Polícia Federal (PF), Flávio divide a titularidade com Willer Tomaz, do inquérito recém-aberto pelo STF que apura lavagem de dinheiro.

Flávio Bolsonaro já é alvo de apuração sobre o financiamento ao filme 'Dark Horse', que investiga transferências do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o envio de emendas parlamentares. Nesta terça-feira, aliados do presidenciável afirmaram que ele não deve atender ao desafio de Lula de abrir o sigilo de sua conta bancária, telefônica e fiscal. A campanha do candidato do PL à Presidência da República foi procurada pelo UOL, mas até o fechamento deste texto não havia retornado.

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