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Política
ELEIÇÕES 2026

Além de Flávio: os envolvidos com Vorcaro que se elegeram no primeiro turno das eleições

O Presidente da Câmara, líderes de partido e o deputado mais votado da história do Brasil foram reeleitos ou eleitos mesmo após as revelações recentes

Nilton Vilanova

Publicado: 05/10/2026 às 15:31

O ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro/Divulgação/Banco Master

O ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro (Divulgação/Banco Master)

O senador e candidato do PL à presidência, Flávio Bolsonaro, surpreendeu analistas e institutos de pesquisa e chegou ao segundo turno da disputa à frente do presidente Lula (PT), com 47,27% dos votos válidos contra 44,88% do petista. Mas, Flávio, porém, não foi o único político ligado a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, a sair vitorioso - ou pelo menos parcialmente - das urnas no domingo (4).

Os resultados das urnas revelam que o escândalo, o maior da história do sistema financeiro brasileiro que desencadeou a maior crise institucional já vista no País -, teve um efeito abaixo do esperado para a sua magnitude. De uma relação de 20 políticos relacionados em algum grau com Vorcaro, 13 foram eleitos neste domingo, sendo oito deputados federais, quatro senadores e um governador. Nenhum dos citados foi condenado, e todos negam irregularidades.

O desempenho contrasta com o que o eleitor dizia no mês de março, quando 38% afirmaram na pesquisa Genial/Quaest que evitariam votar em candidatos envolvidos no escândalo. Em entrevista à GloboNews, Felipe Nunes, diretor-executivo do instituto, afirmou que a ida de Flávio ao segundo turno reflete um movimento de voto útil da direita. Nas urnas, a rejeição se concentrou em poucos nomes, sem garantia de que o motivo tenha sido o envolvimento com o banqueiro.

Na Bahia, onde as relações com o Master atravessam partidos de campos opostos, da direita e da esquerda, chegou-se a especular sobre um “pacto de não-agressão” entre os candidatos. Não funcionou.

O governador Jerônimo Rodrigues (PT) disse durante a campanha que ACM Neto "estava prestando consultoria ao banco de Vorcaro", enquanto minimizou os contratos firmados por antecessores do próprio partido com o entorno do banqueiro. Jerônimo se reelegeu e dois ex-governadores petistas ganharam vagas no Senado.

Confira o desempenho dos principais envolvidos com Vorcaro

Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência

Senador pelo Rio de Janeiro, Flávio é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF), a mais alta corte do país, em inquérito aberto a pedido da Polícia Federal (PF) sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Segundo as investigações, Vorcaro pagou parte do valor que Flávio pediu para a produção. Em mensagem ao banqueiro, um dia antes de ele ser preso, escreveu: "Irmão, estou e estarei contigo sempre". O senador nega ter oferecido contrapartida e afirma que o acordo foi privado. Um levantamento de checagem de fatos apontou ao menos 43 declarações inverídicas dele sobre o caso.

Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo

Tarcísio foi reeleito no primeiro turno com uma votação expressiva: 62,65% dos votos, contra 37,35% do ex-ministro Fernando Haddad (PT).

O maior doador individual da campanha de 2022 do governador foi Fabiano Zettel, pastor da Igreja da Lagoinha e cunhado de Vorcaro, que transferiu R$ 2 milhões em 13 de outubro daquele ano, segundo registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A doação consta nos registros oficiais.

ACM Neto (União Brasil), candidato ao governo da Bahia

Ex-prefeito de Salvador e vice-presidente nacional do União Brasil, ACM Neto perdeu a eleição no primeiro turno para Jerônimo Rodrigues.

Registros do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão que monitora movimentações suspeitas, apontam pagamentos de milhões de reais do Master e da gestora Reag a ele entre 2023 e 2024. Mensagens obtidas pela PF mostram encontros com Vorcaro.

Em proposta de delação premiada, o banqueiro o citou, mas a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR) recusaram o acordo. ACM Neto diz que os serviços foram profissionais e sem irregularidade.

Jaques Wagner (PT-BA), senador

Jaques Wagner foi reeleito senador com 3,88 milhões de votos. Foi alvo de busca e apreensão da PF na Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de vantagens ligadas ao Master, entre elas um apartamento em Salvador avaliado em cerca de R$ 2,5 milhões e pagamentos a uma empresa ligada a um familiar.

Ele indicou o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski como consultor do banco e deixou a liderança do governo no Senado sob pressão. A defesa nega que ele tenha obtido vantagens e diz que ele não é dono do imóvel.

Rui Costa (PT-BA), senador

Rui Costa foi eleito para o Senado com 30,03% dos votos. Como governador da Bahia, privatizou em 2018 a Empresa Baiana de Alimentos e autorizou o comprador a oferecer crédito consignado a servidores com exclusividade de 15 anos.

O negócio, o Credcesta, foi levado ao Master pelo ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima. Vorcaro o apontou como integrante da ala favorável ao banco dentro do governo Lula.

Guilherme Derrite (PP-SP), senador

Ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite foi eleito senador com 30,59% dos votos, com apoio de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

Como relator do projeto de lei antifacção na Câmara, aprovou um parecer que, segundo o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, limitava a atuação da corporação em investigações como a do Master. A votação ocorreu um dia depois da prisão de Vorcaro.

Filipe Barros (PL-PR), senador

Felipe Barros foi eleito para o Senado com 27,25%, com apoio de Flávio Bolsonaro.

Em novembro de 2024, apresentou projeto idêntico à chamada "emenda Master", que elevava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC, que protege clientes de bancos em caso de quebra) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

Integrantes do mercado financeiro consideram a proposta uma das primeiras tentativas de favorecer o banco no Congresso.

Ciro Nogueira (PP-PI), senador

Presidente nacional do PP e ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, Ciro Nogueira ficou em terceiro lugar na disputa ao Senado e não se reelegeu. Vorcaro o chamava de "grande amigo de vida".

A PF aponta "elevado grau de intimidade, confiança e proximidade" entre os dois e diz que a emenda do FGC, de autoria dele, teria sido redigida pela assessoria do Master.

A corporação também investiga repasses mensais de R$ 300 mil, depois ampliados para R$ 500 mil, operacionalizados por um primo do banqueiro. Ciro diz que nunca teve conduta inadequada e despediu-se com a frase "o povo é soberano em suas escolhas".

Weverton Rocha (PDT-MA), candidato ao Senado

Weverton Rocha ficou em quarto lugar no Maranhão. Seu nome foi associado a Vorcaro, mas o inquérito que mais pesa contra ele trata de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Hugo Motta (Republicanos-PB), deputado federal

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, foi reeleito com 124.284 votos, menos que os 158.171 de 2022, mas não conseguiu eleger o pai, Nabor Wanderley, ao Senado.

Mensagens extraídas pela PF mostram que ele pediu a Vorcaro a liberação de empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões a uma empresa da cunhada. Também há registros de viagem em jatinho e de eventos bancados pelo banco. Motta diz que não há ilícito nos diálogos e afirma ter "uma vida limpa".

Antonio Rueda (União Brasil-RJ), deputado federal

Advogado pernambucano de 51 anos e presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda foi eleito pelo Rio de Janeiro com 155.836 votos, na primeira vez em que disputou cargo eletivo.

A PF diz que seu escritório recebeu R$ 6,4 milhões do Master. Ele admite ter advogado para o banco e diz que a atuação foi técnica e legítima. Também usou jatinho do banqueiro e recebeu carona de helicóptero em corrida de Fórmula 1 em Interlagos, em 2024.

O Ministério Público Eleitoral pediu a impugnação da candidatura, sob o argumento de que ela se beneficiou de estrutura política ligada a milícias. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) liberou o registro em 22 de setembro. Rueda nega irregularidades.

Nikolas Ferreira (PL-MG), deputado federal

Nikolas Ferreira foi reeleito com mais de 3,1 milhões de votos, a maior votação da história para deputado federal.

O parlamentar usou o jatinho de Vorcaro por dez dias na campanha de 2022 e, em áudios enviados ao banqueiro em 2025, pediu ajuda para liberar um ativo de mineração de seu advogado e ex-assessor. Confirmou os áudios, disse conhecer o banqueiro como "Dani" e nega ter recebido dinheiro dele.

Dr. Luizinho (PP-RJ), deputado federal

Eleito com 213,9 mil votos, Dr. Luizinho foi o deputado federal mais votado do PP no Rio de Janeiro.

Ele assinou requerimento para acelerar projeto que permitia ao Congresso destituir dirigentes do Banco Central, que saiu da gaveta dois dias antes de o BC barrar a compra do Master pelo BRB, o banco público do Distrito Federal. Também esteve em degustação de uísque em Nova York e em jantar em Lisboa pagos por Vorcaro.

Marcos Pereira (Republicanos-SP), deputado federal

Marcos Pereira foi reeleito deputado federal por São Paulo com 196,6 mil votos. Esteve em degustação de uísque e charutos bancada por Vorcaro em Londres, em abril de 2024.

Isnaldo Bulhões (MDB-AL), deputado federal

Isnaldo Bulhões foi reeleito deputado federal por Alagoas com 112,2 mil votos. O parlamentar assinou o mesmo requerimento sobre o Banco Central e viajou de jatinho com Vorcaro entre Brasília e São Paulo.

Rodrigo Gambale (Podemos-SP), deputado federal

Rodrigo Gambale foi reeleito deputado federal por São Paulo com 106,9 mil votos. Ele voou com o banqueiro e outros políticos de Brasília a São Paulo em agosto de 2025.

Mario Frias (PL-SP), deputado federal

Ex-secretário especial da Cultura de Jair Bolsonaro e produtor-executivo de Dark Horse, Mario Frias foi reeleito deputado federal com cerca de 91 mil votos. Em setembro, foi alvo de buscas da PF por suspeita de desvio de cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil, dirigido por outra produtora do filme. Diz que apenas produziu um filme.

Claudio Cajado (PP-BA), deputado federal

Autor do requerimento sobre o Banco Central, Claudio Cajado foi reeleito deputado federal pela Bahia com 110.384 votos.

Thiago Manzoni (PL-DF), deputado federal

Thiago Manzoni era um dos 15 deputados distritais que aprovaram, em 2025, a compra do Master pelo BRB. Ele foi eleito para a Câmara dos Deputados com 90.418 votos. Outros 11 dos 15 distritais foram reconduzidos à Câmara Legislativa.

João Roma (PL-BA), candidato ao Senado

Convocado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado para explicar mudanças no consignado do Auxílio Brasil, João Roma ficou fora do Senado.

Quem nem chegou à urna

Ibaneis Rocha (MDB), único político citado nominalmente por Vorcaro em depoimento ao STF, deixou o governo do Distrito Federal para disputar o Senado e desistiu em julho.

Cláudio Castro (PL) abandonou a disputa pelo Senado em maio, após buscas da PF ligadas a aplicações do Rioprevidência no Master.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), citado entre frequentadores das festas de Vorcaro, não disputava cargo, mas viu aliados derrotados no Amapá.


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