Eduardo atuou na articulação de R$ 122 milhões para filme sobre o pai, segundo a PF
Investigação aponta que Eduardo Bolsonaro orientou operação nos EUA e colocou integrante de fundo financeiro à disposição para administrar recursos de Vorcaro
Publicado: 11/09/2026 às 12:09
Eduardo Bolsonaro atuou na estruturação da operação financeira destinada a bancar "Dark Horse", segundo a PF (MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL)
O ex-deputado Eduardo Bolsonaro atuou na estruturação da operação financeira destinada a bancar Dark Horse, filme sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, de acordo com a Polícia Federal (PF). Segundo a investigação, o ex-deputado orientou como os recursos seriam movimentados nos Estados Unidos e indicou Altieris Chaves Santana, ligado ao fundo Havengate, para participar da operação.
O fundo, sediado no Texas, poderia receber até US$ 24 milhões de Daniel Vorcaro, o equivalente a cerca de R$ 122 milhões. Parte do dinheiro chegou a ser enviada, mas os repasses foram interrompidos após a prisão do ex-banqueiro.
As informações estão em documentos da investigação do caso Master que foram tornados públicos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na noite de quinta-feira (10). O ministro André Mendonça retirou o sigilo de parte do material a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin.
Fundo ficou inativo por quase quatro anos
De acordo com a PF, o Havengate Development Fund foi criado originalmente em 2020 para um empreendimento imobiliário estimado em US$ 21 milhões. A corporação afirma, porém, que o fundo não possuía propriedades registradas em seu nome e permaneceu praticamente inativo por quase quatro anos.
A investigação também aponta que a Calixsan Capital Management LLC, gestora ligada a Paulo Calixto e Altieris Santana, cancelou seus registros como gestora regulada de investimentos no Texas, em maio de 2021, e na Flórida, em setembro daquele ano.
Segundo a PF, a primeira remessa relacionada ao financiamento de Dark Horse ocorreu em 13 de fevereiro de 2025, quando o Havengate recebeu US$ 2 milhões da Entre Investimentos. A empresa pertence ao empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Ele firmou um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), homologado nesta semana pelo ministro André Mendonça.
Para a Polícia Federal, a reativação de um fundo originalmente criado para uma operação imobiliária, depois de anos sem atividade pública registrada, para receber recursos destinados a uma produção cinematográfica é uma circunstância que justifica a investigação sobre a compatibilidade entre a estrutura financeira utilizada e a finalidade declarada.
Mensagem de Eduardo Bolsonaro
A PF também cita mensagens trocadas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL), Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda.
Segundo o relatório, em março de 2025, Miranda informou a Vorcaro que Flávio e Eduardo Bolsonaro pretendiam se reunir com ele para tratar do filme. Na sequência, teria sido encaminhada uma captura de tela de uma conversa atribuída a Eduardo, na qual o ex-deputado orientava sobre a movimentação dos recursos nos Estados Unidos.
Na mensagem, Eduardo afirma que o ideal seria que o dinheiro já estivesse nos EUA, porque transferências entre contas naquele país seriam mais simples. Ele também demonstra preocupação com a possibilidade de a empresa brasileira responsável pelo envio não ter recursos suficientes para realizar uma grande transferência de uma só vez.
Nesse cenário, segundo a mensagem, os valores precisariam ser enviados gradualmente, o que poderia levar cerca de seis meses. Eduardo então sugere o envio do “máximo possível” pelo sistema que já estava sendo utilizado e pede retorno sobre uma reunião.
Na mesma conversa, cita Altieris Santana: “O Altieris Santana está à disposição, inclusive voa para fazer reunião pessoal com quem quer que seja.” Altieris é um dos integrantes da estrutura do Havengate.
PGR endossou investigação
Ao analisar o pedido da Polícia Federal para investigar o financiamento de “Dark Horse”, a Procuradoria-Geral da República endossou a abertura do procedimento.
No documento, a PGR afirma que Eduardo Bolsonaro teria colocado a estrutura do fundo à disposição para a operação financeira relacionada ao filme. A manifestação cita a conversa atribuída ao ex-deputado e as orientações sobre a administração dos recursos nos Estados Unidos.
A PF também considera relevantes as mensagens envolvendo Flávio Bolsonaro, Vorcaro e Thiago Miranda. O conteúdo já havia sido revelado anteriormente pelo Intercept Brasil e passou a integrar os elementos analisados formalmente pela investigação.
Até R$ 122 milhões
Segundo a PF, o valor negociado entre Vorcaro e os responsáveis pela operação poderia chegar a US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 122 milhões. Os repasses, contudo, não teriam sido concluídos. A prisão de Vorcaro interrompeu o fluxo de recursos investigado pela Polícia Federal.
A investigação busca esclarecer a origem, a movimentação e a destinação dos valores relacionados ao filme e verificar se a estrutura utilizada para transferir o dinheiro aos Estados Unidos era compatível com a finalidade declarada.
Documentos da investigação também levantam dúvidas sobre a utilização do Havengate, criado originalmente para um projeto imobiliário e posteriormente empregado para receber recursos vinculados à produção cinematográfica.
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