Prefeito de Surubim, que chamou Gusttavo Lima de "ladrão", é réu por compra de votos
Cléber José de Aguiar da Silva, conhecido como Chaparral, é denunciado pelo Ministério Público Eleitoral por compra de votos para a eleição de 2024
Publicado: 01/07/2026 às 18:56
Prefeito de Surubim, Cléber Chaparral (Reprodução/Facebook)
O prefeito de Surubim, Cléber José de Aguiar da Silva (União), conhecido como Chaparral, que chamou o cantor Gusttavo Lima de "ladrão" após o cancelamento de um show na cidade, é réu na Justiça Eleitoral pelo crime de compra de votos para a eleição de 2024. A esposa dele, Juliana Barbosa da Silva Aguiar, que é prefeita de Casinhas, também é ré no caso.
Segundo a denúncia oferecida pelo Ministério Público Eleitoral no último dia 29 de março deste ano e aceita no dia 4 de maio, à qual o Diario de Pernambuco teve acesso, entre julho e outubro de 2024, Chaparral, a esposa dele, e um homem identificado como Jonas Luiz do Nascimento exerceram compra de votos intencional.
No documento, o Ministério Público Eleitoral afirma que os três denunciados “deram, ofereceram e prometeram dinheiro em espécie, dádivas e vantagens indevidas” em troca de votos. A permuta envolvia até materiais de construção, exames e cirurgias de saúde, detalhou o Promotor de Justiça da 34ª Zona Eleitoral, Bruno Santacatharina Carvalho de Lima.
Plano
De acordo com o Ministério Público Eleitoral, Jonas Luiz do Nascimento seria o executor e tesoureiro de um plano de compras de voto, composto por ele, Chaparral e Juliana. Na denúncia, Jonas é descrito como “braço operacional e elo logístico” do esquema.
Já Juliana de Chaparral seria a coordenadora operacional do esquema. Atuando como “face política”, ela realizava visitas domiciliares, nas quais recolhia as demandas (quem precisava de cimento ou cirurgia) e firmava as promessas de “derrame de dinheiro”, confirmadas por testemunhas.
Além disso, ela é apontada como a responsável direta pelo contato com os eleitores beneficiados pela estrutura de Jonas.
Por fim, Cléber Chaparral seria o autor intelectual e financiador, de acordo com o MP Eleitoral. Ele teria submetido patrimônio e crédito comercial ao serviço do crime. Ele detinha o “controle final sobre ‘se’ e ‘quanto’ seria gasto no aliciamento, sendo o destinatário exclusivo do proveito do crime (o voto)”, descreveu o promotor.
Esquema
Durante a investigação, conduzida pela Polícia Federal, foi encontrado todo um esquema de compras de voto. Naquela ocasião, uma equipe policial flagrou Jonas Luiz do Nascimento em atitude concretamente suspeita, dando suporte a uma comitiva da candidata Juliana De Chaparral.
“Ao avistar a viatura, JONAS evadiu-se a pé, simplesmente abandonando um carro trancado, o qual, após ser guinchado e aberto mediante autorização de seu patrono, revelou o que a doutrina denomina de ‘kit de corrupção eleitoral profissionalizada’”, escreveu o promotor Bruno Lima.
No interior do automóvel, foram apreendidos R$ 23.700 em notas fracionadas, indicando prontidão para distribuição capilarizada. No entanto, outras coisas encontradas revelaram um “esquema sistêmico operado há meses”, destacou o órgão eleitoral.
Dentro do veículo tinha um “Diário de Corrupção” contendo listagens minuciosas de eleitores por localidade, com anotações de telefones e valores atribuídos a cada seção eleitoral, além de compromissos explícitos com a frase “falar com Chaparral”.
Uma análise técnica da Polícia Federal (PF) identificou, também, mais de 200 recibos e notas de compras efetuadas no “Comercial Lopes” entre julho e agosto de 2024. Os papéis eram marcados com rubricas de Jonas ou com o aviso de liberação dele. Tudo era relativo ao fornecimento de cimento, telhas e ferro a eleitores, cujas contas eram vinculadas à fazenda pessoal de Cléber Chaparral.
Além disso, também foram encontrados prontuários médicos, pedidos de cirurgia de catarata e encaminhamentos de exames para eleitores específicos, utilizados como moeda de troca. O promotor destaca esse ponto como “exploração da vulnerabilidade física da população em período crítico de campanha”.
Denúncia
Na denúncia, o promotor Bruno Santacatharina Carvalho de Lima pediu a condenação dos três denunciados por compra de votos. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a prática é punida com reclusão de um a quatro anos, além do pagamento de multa que pode variar de cinco a quinze dias-multa.
O promotor também solicitou uma indenização de no mínimo R$ 100 mil para reparação de danos morais coletivos. Além disso, também foi requerida a aplicação de efeitos extrapenais em caso de condenação, destacando a perda do cargo público e a inelegibilidade dos envolvidos.
O que diz a defesa
O Diario de Pernambuco procurou o advogado de Cléber Chaparral e Juliana Chapparal. Em nota, a defesa deles afirmou que “não existe qualquer elemento de prova que vincule Cléber Chaparral à suposta compra de votos”. Confira na íntegra:
“Cléber Chaparral possui uma história de vida marcada pelo trabalho e pela dedicação ao povo pernambucano. Sua trajetória política se iniciou como vereador em Orobó (20092012), município que posteriormente administrou como prefeito por dois mandatos (20132020), período em que teve todas as suas contas aprovadas pelos órgãos de controle, atestando a responsabilidade de sua gestão. Sua atuação foi expandida para a esfera estadual, onde exerceu o cargo de Deputado Estadual, sendo um dos parlamentares mais votados de Pernambuco em 2022, e, atualmente, exerce o mandato de Prefeito de Surubim, cargo para o qual foi eleito com amplo apoio popular. São aproximadamente 20 anos de vida pública pautada pela transparência, seriedade e sem qualquer mácula que desabone sua conduta perante a sociedade. Em relação ao Processo citado na matéria, a Defesa esclarece que os fatos narrados na denúncia criminal já foram amplamente analisados na Justiça Eleitoral através de Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), que tratou do mesmo núcleo fático e, após extensa instrução processual, FOI JULGADA TOTALMENTE IMPROCEDENTE, afastando a existência de abuso de poder, compra de votos, distribuição de dinheiro, materiais de construção, consultas médicas ou qualquer outra irregularidade eleitoral. O Ministério Público Eleitoral participou de toda a instrução da Ação e, mesmo assim, não interpôs recurso contra a sentença absolutória, circunstância que reforça a inexistência de novos elementos probatórios capazes de modificar as conclusões já alcançadas pelo Poder Judiciário.
Já no processo criminal em trâmite, apresentamos nova defesa à Justiça Eleitoral de Surubim e afirmamos categoricamente que não existe qualquer elemento de prova que vincule Cléber Chaparral à suposta compra de votos. A denúncia não identifica um único eleitor que tenha recebido vantagem em troca de voto, não individualiza qualquer conduta atribuída ao prefeito e se apoia em inferências já afastadas pela prova produzida na AIJE. Tudo isso se aplica a Juliana de Chaparral, que naquela oportunidade (campanha de 2024) estava concorrendo ao Cargo de Prefeita de Casinhas. A defesa reafirma sua plena confiança na Justiça Eleitoral e está convicta de que a ação penal terá o mesmo desfecho da AIJE, com o reconhecimento da absoluta inexistência de prática de corrupção eleitoral ou compra de votos”.
A reportagem não conseguiu localizar a defesa de Jonas do Nascimento.
Gusttavo Lima
Chaparral se envolveu na polêmica com o cantor na noite do último sábado (27), quando subiu ao palco principal do São João de Surubim, no Agreste, e comunicou ao público que o sertanejo Gusttavo Lima não iria se apresentar. O cantor já havia remarcado o show, inicialmente fechado para o dia 18 de junho.
Do palco, o gestor chamou Gusttavo Lima de “ladrão”, cobrou a devolução do cachê de R$ 1.353.000. Ele também pediu desculpas ao público que aguardava a apresentação.
Durante a fala, Chaparral afirmou que o artista descumpriu o compromisso firmado com o município e chegou a dizer que os equipamentos da equipe do cantor não deixariam a cidade enquanto o valor pago pela prefeitura não fosse devolvido.
“E o recado vai pra tu, viu? O teu caminhão, que está ali com teus equipamentos, não vão sair de Surubim enquanto tu não devolver. Tá aqui, tá na minha responsabilidade. Agora só sai daqui quando tu se retratar”, disse.
Gusttavo Lima se pronunciou após a repercussão do caso. Nas redes sociais, o cantor afirmou que sofreu uma intoxicação alimentar e explicou que estava com uma forte diarreia, o que o impediu de realizar a apresentação.
Posteriormente, o sertanejo afirmou que integrantes da banda dele e equipe foram impedidos de deixar o local após o cancelamento da apresentação.
Segundo Gusttavo, os profissionais só conseguiram sair da cidade horas depois. O cantor disse também que pretende adotar medidas judiciais contra Cleber Chaparral e afirmou que as acusações feitas pelo prefeito desconsideram sua trajetória e o trabalho social que desenvolve.
Quem é Chaparral
Natural de Orobó, no Sertão, Cléber José de Aguiar da Silva, conhecido como Chaparral, foi eleito prefeito de Surubim, no Agreste Setentrional, em 2024, pelo Partido União.
No site da Prefeitura de Surubim, o perfil do prefeito afirma que ele “tem uma trajetória política marcada pela dedicação ao povo e compromisso com o desenvolvimento”.
Chaparral tem carreira política desde 2008, quando foi eleito vereador de Orobó pelo PSB. Em 2012, ele foi eleito prefeito de Orobó pelo PSD e foi reeleito em 2016.
Nas eleições de 2022, ele foi eleito deputado estadual já pelo União.