Eleitores com mais de 60 anos podem decidir as próximas eleições do Brasil
A "geração prateada" cresceu cinco vezes mais que o eleitorado brasileiro nos últimos 16 anos e já soma mais de 36 milhões de pessoas para as eleições deste ano
Publicado: 01/06/2026 às 06:00
Pesquisa revela que número de eleitores 60+ cresceu cinco vezes mais do que o eleitorado geral nos últimos 16 anos (Paulo Pinto/Agência Brasil)
Túlio Vasconcelos
Especial para o Diario
As eleições deste ano podem registrar um novo recorde de eleitores idosos no Brasil. De acordo com um levantamento realizado pela Nexus-Pesquisa e Inteligência de Dados a partir do Portal de Dados Abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela que a chamada “geração prateada”, de pessoas 60+ aptas a votar, cresceu cinco vezes mais do que o eleitorado geral nos últimos 16 anos. Enquanto o número de eleitores de todas as faixas etárias cresceu 15% entre 2010 e 2026, o eleitorado 60+ aumentou 74% no período, o que revela expansão de 20,8 milhões em 2010 para 36,2 milhões em março deste ano.
Em 2022, a abstenção das pessoas com mais de 70 anos foi de 60%, com um número ainda maior entre as mulheres da mesma faixa etária, de acordo com dados divulgados pela campanha Voto 70+. O levantamento considerou o período de 2012 a 2024, incluindo, inclusive, primeiro e segundo turno das eleições. Segundo a Constituição Federal, quem está nessa faixa etária não é mais obrigado a votar.
A “geração prateada” pode, portanto, definir o resultado do próximo pleito no país. “O envelhecimento da população tem um impacto no processo eleitoral e é preciso aprofundar pesquisas a respeito”, ressalta a cientista política Priscila Lapa.
“O Brasil é um país que envelhece rapidamente, a curva de envelhecimento é muito acentuada. Estar atento para a participação do voto 70+ é cada vez mais importante, porque percebemos uma invisibilidade dessa população. Eles não são olhados pelos candidatos e não se sentem participativos”, completa Clea Klouri, cofundadora do data8, hub especializado em economia da longevidade, que lidera a campanha Voto 70+.
Cada faixa etária tende a se comportar de maneira distinta e a ter percepções diferentes sobre a política. Na última eleição presidencial, a diferença entre os candidatos foi inferior a 2 milhões de votos, o que torna essa parcela eleitoral altamente estratégica. Numericamente, a geração 60+ passa a ter um peso relevante, constituindo um em cada quatro eleitores do Brasil e, assim, capaz de influenciar cenários equilibrados.
“Há diferenças de comportamento eleitoral do jovem e da pessoa mais velha, sobretudo relacionada aos meios de informação. Existem pesquisas no Brasil que apontam que o tempo de tela dos idosos hoje é maior do que o tempo de tela de pessoas mais jovens”, analisa Priscila. “Os idosos são mais suscetíveis a notícias falsas. Então é possível que o envelhecimento da população gere uma cristalização maior do comportamento eleitoral do que a gente possa imaginar em relação ao jovem”, acrescenta.
Pernambuco segue tendência
Segundo dados do TSE, Pernambuco tem mais de 7,2 milhões de eleitores aptos a votar. Para Priscila Lapa, o cenário local deve seguir a tendência nacional. “De uma forma geral, Pernambuco não é diferente do Brasil. Nas últimas eleições, houve índices de abstenção muito altos em todos os segmentos do eleitorado e uma eleição extremamente disputada. É importante observar o quanto a abstenção dessa população pode definir o resultado final”, pondera.
Candidaturas 60+
O número de candidatos maiores de 60 anos também tem aumentado anualmente no Brasil, tanto nas eleições gerais quanto nas municipais. Nas últimas eleições, em 2024, mais de 70 mil brasileiros com 60+ se candidataram, o que representa 15% de todas as postulações. Esse é o maior desde o início da série histórica, em 1998. O pleito anterior, em 2022, também registrou recorde para eleições gerais. Foram 4.873 candidatos com 60 anos ou mais, o que equivale a 17% das candidaturas.
Abstenção ainda é elevada
Outro dado a ser observado pela cientista política é o número de eleitores que deixaram de votar em todo o país no segundo turno nas eleições de 2024: cerca de 9,9 milhões de brasileiros, o equivalente a 29,26% do total de eleitores. “As disputas estão cada vez mais acirradas no Brasil, tanto eleições gerais quanto eleições locais. Os placares estão cada vez mais apertados, principalmente nas eleições presidenciais. A última foi dessa forma e a tendência é que esse ano também seja”, analisa Priscila.
“A abstenção tem um fator muito decisivo no processo eleitoral. Além disso, a abstenção tem gerado uma distorção entre o que as pesquisas eleitorais mostram e o resultado final, porque na pesquisa de intenção de voto é considerando todo mundo que declara que vai votar, mas muitas dessas pessoas que declaram que vão votar acabam não indo. O que resulta numa discrepância entre o resultado aferido pelas pesquisas de opinião e o resultado efetivamente final da eleição”, conclui.
*Com Agência Brasil