Aos quatro anos, Pandora cantarolava boleros de Nelson Gonçalves para quem visitasse a casa dos pais. Aos sete, Karoline aprimorava o talento com a sanfona em aulas com o Mestre Camarão, principal mentor. Também na infância, Sofia aproveitava o teclado da irmã para treinar as primeiras notas musicais, enquanto Luiza participava de serestas, Yuri frequentava cineclubes e Guilherme, museus. Em comum, o contato prematuro com a arte e o “chamado” para segui-la como profissão. Hoje, todos têm menos de 20 anos e são jovens promessas da música, do cinema e das artes plásticas locais .
O primeiro disco, o primeiro show, a primeira exposição e os primeiros contratos vieram cedo, junto com cobranças, riscos e reconhecimento. Salvas as devidas proporções, as histórias remetem a figuras simbólicas quando o tema é talento precoce, como Michael Jackson, Justin Bieber, Britney Spears e os brasileiros Fernanda Souza, Cecília Dassi e a dupla Sandy e Júnior. Alguns se mantiveram ativos nos palcos até a fase adulta, enquanto outros se recolheram à discrição, como Macaulay Culkin (da saga Esqueceram de mim), ou tiveram todas as crises e os dramas pessoais expostos ao mundo, como ocorreu a Britney Spears e Justin Bieber.

É que, não bastassem os dilemas inerentes à passagem da infância para a adolescência, e dessa à vida adulta, os holofotes não poupam a intimidade de ninguém. “O mais complicado é a ausência de maturidade, de vivência, de traquejo para lidar com a imprensa, com os fãs, com a vida pública. E maior fragilidade diante do sucesso e do fracasso, bem como da repercussão”, adverte a produtora cultural Melina Hickson. Ela acredita que a principal vantagem em começar cedo é a possibilidade de crescer junto com os fãs, como fizeram Sandy e Júnior, construindo laços de identificação. E aponta a dependência de um mentor (pai, mãe, empresário ou padrinho profissional) como possível dificuldade. “Essa figura do guia é fundamental quando se é muito novo, mas a independência sai prejudicada.”
Kátia Calheiros é mentora da filha Pandora, de 11 anos. Tenta cercar a filha - pianista, violinista e cantora desde os sete anos - de cuidados, sem desencorajar a autonomia. “Minha grande preocupação é que ela entenda que é uma criança e leve uma vida de criança, apesar da carreira”, explica. A cautela é a mesma declarada por Floriano Maciel, pai de Karoline (14 anos), que agenda os compromissos da filha - cantora e acordeonista há sete - enquanto tenta promover eventos de arrecadação para custear viagens a competições. “Eu não entendia nada desse universo da música. Eu não a ensino a lidar com a carreira, eu aprendo com ela”, diz.

Para o educador e palestrante escocês Charles Watson, especializado no Processo Criativo, o grande desafio para esses jovens é, na verdade, manter-se criativos com o passar da idade. “Se é que talento existe (entendendo talento como uma habilidade inata em fazer algo), não parece ser importante na evolução de uma carreira criativa. Frequentemente, o oposto parece ser o caso. Muitas vezes, pessoas apontadas como talentosas, relutando em perder esse prestígio, tendem a ser menos aventureiras em suas áreas”, aponta o pesquisador .
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>> PERFIS
Enquanto Karoline, Pandora, Luiza, Sofia, Yuri e Guilherme comemoram as primeiras conquistas - show, prêmios, financiamento público de um projeto, exposição -, o Viver traçou o perfil dos seis jovens e mensurou os passos iniciais (e os receios) da carreira artística deles em meio às descobertas gradativa como seres humanos.
Karoline Maciel, 14 anos, sanfoneira
Karoline decorava e repetia poemas aos três anos, o que encorajou o pai a matricular a garota numa escolinha de arte do bairro. Foi lá que, aos sete, começou a desenhar sanfonas. No mesmo ano, passou a tocar o instrumento em aulas com o Mestre Camarão, com quem estudou até os 12. Camarão encorajou o pai da menina a levá-la ao Conservatório Pernambucano de Música, onde ela estuda até hoje. Participou de cinco festivais e foi finalista em quatro deles. “Batemos às portas e procuramos oportunidades”, conta o pai. Karoline pretende cursar jornalismo ou física (com especialização em astronomia) e, em paralelo, continuar a tocar. Tem participado de eventos solidários para arrecadar fundos e custear a viagem ao Espírito Santo, onde participa, a partir do dia 18 deste mês, do 15º FENFIT (Festival Nacional Forró de Itaúnas). Na última edição do evento, foi uma das únicas finalistas menores de idade e recebeu troféu como revelação. “As pessoas dizem que sou um caso raro e que isso é bom pra mim. Mas, às vezes, me sinto deslocada. Toco um instrumento que amigos da minha idade não apreciam”, diz a jovem.

Pandora Calheiros, 11 anos, pianista, violinista e cantora
O avô de Pandora era um apreciador de boleros. De tanto escutá-los, ela cantarolava sucessos de Maysa e Nelson Gonçalves aos quatro anos. Aos sete, foi descoberta pela cantora Nádia Maia em reportagem sobre jovens escoteiros. Ela cantarolou nas filmagens e Nádia entrou em contato com a família para levá-la ao Conservatório Pernambucano de Música. A mãe, Kátia, consentiu, e Pandora passou a chamar Nádia de madrinha. Hoje, a garota integra o coro fixo do Baile do Menino Deus e tem três CDs lançados (dois custeados pela família e um a convite do compositor Adilson Cordeiro). O repertório abrange do frevo ao forró, com algumas faixas autorais, escritas com ajuda da mãe. Uma delas, Flores para Clarice, é homenagem à escritora Clarice Lispector. O primeiro show, aos sete anos, foi na Sala de Reboco, a convite de Nádia Maia. A família tenta garantir que, além dos trabalhos, ela continue a brincar e frequentar a escola regularmente. “A música é tudo pra mim. Tantos têm oportunidades e não aproveitam, não querem aprender. Eu tive a minha e sou feliz porque a aproveitei”, conclui Pandora.

Luiza Raboni, 18 anos, cantora e instrumentista
Os avós de Luiza organizavam serestas no interior de Pernambuco e, nessas ocasiões, a menina teve o primeiro contato com o violão e a sanfona. Aos 11 anos, começou a estudar teoria musical por conta própria, a partir de uma cartilha emprestada pelo tio. Aos 13, já se reunia com amigos em praias e parques públicos para se apresentar. E, aos 15, durante pocket show do cantor Tibério Azul no Recife, pediu ao músico para tocar um pouco. Foi quando ele a incentivou a se engajar no meio artístico. Com apoio dele, se inscreveu no concurso Novas Joias, promovido pela Joinha Records, e saiu vitoriosa. Está produzindo o primeiro álbum - com título provisório Aura. Luiza mistura poemas, elementos regionais (do coco, do maracatu e da ciranda) e sons não-convencionais (com utensílios domésticos, como baldes). Espaços públicos, como o Parque da Jaqueira e o Pátio de Santa Cruz, são os preferidos dela. Estudante de engenharia florestal, terá participações especiais no álbum de estreia, como Clarice Freire e Tibério Azul. “Pesco influências em tudo. Siba, Graveola e o Lixo Polifônico, Tim Maia, Nara Leão, Maná…”, lista a jovem.

Guilherme Moraes, 17 anos, artista plástico
Sempre que podia escolher entre video games, futebol e papéis para desenhar, Guilherme ficava com a última opção. Frequentava museus de arte no Brasil e no exterior, junto com os pais, e não queria voltar para casa na hora combinada. No mês passado, fez sua primeira exposição como artista plástico, exibindo 30 obras em restaurante da Zona Norte do Recife. Vendeu 27. Na primeira semana do evento, 250 pessoas passaram pelo local. Guilherme presta vestibular neste ano e pretende ingressar na área de artes visuais ou publicidade. As vésperas de provas das ciências exatas são as noites mais produtivas. Quanto mais cobrado, o jovem se sente, mais produz. Ele considera a arte um escape. Está produzindo os encartes do disco de uma amiga e, em paralelo, acumula trabalhos para mais exposições. Produz, em média, três por mês. O acervo é predominantemente feito de aquarelas, mas também inclui algumas pinturas a óleo. “Quando eu era pequeno, elogiavam meu vocabulário. Uma vez disseram que eu ria pouco. Sempre me senti muito velho por dentro”, confessa.

Sofia Freire, 18 anos, cantora e instrumentista
Depois de dividir o palco com destaques da música pernambucana, como Tibério Azul e Silvério Pessoa, Sofia se prepara para lançar o primeiro álbum da carreira, intitulado Garimpo. Na semana passada, teve a notícia de que havia alcançado a quantia pretendida (R$ 6 mil) em site de financiamento colaborativo. Cantora, compositora e pianista, começou a se envolver com a música na infância. Acompanhou a parceria do pai, Wilson Freire, com Antônio Carlos Nóbrega, e tomou gosto pela poesia. Aos dez anos, começou a estudar piano. Venceu o concurso Novas Joias aos 13, com a primeira canção autoral, intitulada Passagem (com melodia dela e letra do pai) e passou a construir o primeiro álbum. São 12 faixas, que reúnem poemas do pai, da irmã (Clarice Freire, autora do livro Pó de lua) e de amigos. Estuda produção fonográfica, que a ajuda a gerenciar a carreira. “Mexo com softwares, gosto de misturar muitas camadas de voz. Sou pianista erudita por formação, então misturo muitas referências [eruditas] com a música eletrônica”, conta.
Yuri Lins, 19 anos, cineasta
O primeiro cineclube formado por Yuri funcionava no Cabo de Santo Agostinho, Região Metropolitana do Recife, mas não existe mais. Aos 17 anos, o jovem foi curador do cineclube do Mamam (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães), enquanto frequentava o Cineclube Dissenso, onde fez boa parte dos contatos fundamentais à carreira. Hoje, faz curadoria do cineclube Moscouzinho, em Jaboatão dos Guararapes, dedicado a questões sociais. Já participou da produção de vídeos do coletivo Surto e Deslumbramento, a exemplo de Como era gostoso meu cafuçu, a ser lançado em breve. A grande conquista de Yuri veio neste ano. Foi contemplado no último edital do Funcultura para a produção do primeiro curta-metragem. Será chamado de Peito vazio. Yuri divide a direção com dois amigos e já planeja roteiros para os próximos editais. Em paralelo, faz faculdade de filosofia - “Precisava de uma base teórica que transcendesse o cinema.” E reforça: “As pessoas podem considerar precoce, mas, para mim, é natural. Isso nunca me impediu de me relacionar com pessoas da minha idade, mesmo que meu círculo social tenha muita gente mais velha.”
>> MANDAMENTOS
1) Instrução. Matricular-se num curso regular, contratar professor particular ou ingressar em grupos independentes de treinos ou ensaios. Absorver experiência.
2) Prática. Segundo Charles Watson, pesquisas de Anders K. Ericcsson apontam que são necessários dez anos (ou dez mil horas) de atuação para contribuir de verdade numa área.
3) Estudo. A teoria é tão importante quanto a prática. Pesquisar em livros, navegar em sites especializados, aprender sobre ícones do campo de atuação e seus legados.
4) Gerenciamento. Aprender a administrar pontos básicos acerca da carreira, como custos de produção e valor dos objetos ou serviços, ajuda a transformá-la em fonte de renda.
5) Persistência. Começar a carreira cedo requer força de vontade para lidar com a resistência do mercado de trabalho diante da curta experiência. O segredo é não desistir.
>> ONDE COMEÇAR
Conservatório Pernambucano de Música (Av. João de Barros, 594, Santo Amaro). Informações: 3423-0718. A partir dos 7 anos.
Escolinha de Arte do Recife (R. do Cupim, 124, Graças). Informações: 3222-0050. A partir dos 2 anos.
Marília Parente