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Opinião
Eu acho é pouco

Sylvio Belém
Procurador autárquico aposentado

Publicado em: 27/02/2020 03:00 Atualizado em: 27/02/2020 09:06

Em 1977, reunidos em Olinda, na casa da arquiteta Alice, a saudosa Baixinha, um grupo de amigos fundou o bloco carnavalesco lítero recreativo Eu acho é pouco que, inicialmente, tinha como única exigência para participação o uso de roupas nas cores vermelha e amarela.

A escolha do nome surgiu como significado de um alerta para a nossa passiva classe média diante dos males trazidos pela ditadura militar. Seu primeiro estandarte foi bordado por Sonia Coutinho, Baixinha e Beth Nery, desfilando o novo bloco sob a presidência do arquiteto Ivaldevan Calheiros que, além de ceder sua residência ao lado do Mercado da Ribeira para sede até os dias de hoje, se tornou uma espécie de presidente vitalício. No seu primeiro desfile, tinha como orquestra um morgado trio de músicos, cuja composição mais vibrante e animada era a nostálgica Oh jardineira por estás tão triste?

Com o passar dos anos, o  Eu acho é pouco foi crescendo com a incorporação de novos foliões a cada carnaval, passando a integrar com destaque o calendário da folia olindense, sendo aguardado com grande expectativa nas ladeiras e ruas da Cidade Alta juntamente com os tradiciontais Elefante, Pitombeira, Marim dos Caetés, Vassourinhas e Ceroula.

Olinda se tornou pequena para o bloco, que passou também a desfilar no Recife Antigo, já com seu famoso dragão, que também foi presença obrigatória até os dias atuais em manifestações em defesa da democracia, como no golpe contra a presidenta Dilma e no movimento Lula livre. Segundo testemunhas, sob o manto do dragão muita coisa acontecia, desde início de namoro a término de casamentos.

A cada ano surgiam novos modelos de camisas, desenhados por artistas e designers, servindo as vendas  para obter recursos para o custeio das despesas.

Criou-se também a ala infantil com o Eu acho é pouquinho, cujo espaço era ocupado pelas crianças, na sua maioria filhos dos participantes que, na segunda-feira, às 11h da manhã, sob o sol escaldante do verão, subiam e desciam as ladeiras, ganhando internamente o apelido de Churrasco de bebês.

Com o decorrer do tempo, esses bebês tornaram-se adultos e substiuiram seus pais na véspera de se tornarem avós, mantendo o brilho e a alegria do bloco, enquanto seus criadores se limitavam ao esquente e aos passos iniciais, relembrando suas antigas façanhas.

Ainda por ocasião do crepúsculo da ditadura, os desfiles aconteciam entoando gritos de protesto e apelos pelo retorno do regime democrático.

Eu acho é pouco foi um grande exemplo de adesão espontânea, retratando ao longo de sua história com muita fidelidade o que se passava no tranquilo e familiar carnaval de rua  de Olinda, ultrapassando as fronteiras pernambucanas, uma vez que tinha a preferência dos turistas brasileiros  e estrangeiros que aqui vinham participar de nossa maior festa.

Por tudo isso e na condição de um de seus fundadores, quarenta e três depois, sem nenhuma dúvida, afirmo: a contribuição do bloco para o carnaval de Pernambuco não  foi pouca mas muito grande e expressiva.

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