OMS pede transparência à Rússia sobre suposta morte por peste pneumônica
Moscou rejeita hipótese de acidente de trabalho em laboratório e descarta risco de surto, mas OMS pede dados completos para avaliar possíveis riscos à saúde pública
Publicado: 08/10/2026 às 16:23
Entrada do Instituto de Combate à Peste da Sibéria e do Extremo Oriente em Irkutsk, na Rússia. (Foto: AFP)
OMS pede transparência à Rússia sobre suposta morte por peste pneumônica
A Organização Mundial da Saúde (OMS) comunicou que ainda não dispõe de toda a informação do governo russo sobre a morte suspeita de Darya Shipilova, uma investigadora do Instituto de Combate à Peste da Sibéria e do Extremo Oriente em Irkutsk, na Rússia. Relatos da imprensa sugerem que ela foi infectada após um acidente de trabalho.
A versão oficial do governo russo, divulgada pela agência sanitária estatal Rospotrebnadzor e pelo Kremlin, é que a técnica de laboratório Darya Shipilova, de 28 anos, faleceu em 2 de outubro em decorrência de uma pneumonia de etiologia (causa) não estabelecida ou desconhecida. As autoridades russas negam oficialmente que a morte tenha sido provocada pela peste (bubônica ou pneumônica), rejeitando os boatos e relatos da imprensa independente sobre uma possível infecção contraída no ambiente de trabalho.
A causa do óbito foi registrada oficialmente como pneumonia de origem não identificada, e não por Yersinia pestis (bactéria da peste). A Rospotrebnadzor afirmou que os exames realizados após o óbito não detectaram vestígios de peste ou de microrganismos relacionados à atividade profissional da pesquisadora
Contudo, a agência das Nações Unidas defende a necessidade de haver um compartilhamento transparente de informações por parte de Moscou para fazer uma avaliação completa do risco, afirmando que as circunstâncias e a morte não foram totalmente esclarecidas. “A partilha de informação dentro do prazo adequado, completa e transparente é essencial para esclarecer relatos contraditórios e permitir uma avaliação precisa dos potenciais riscos para a saúde pública”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.
O chefe da OMS também disse que já buscou por mais esclarecimentos da Rússia, após relatos não confirmados nos meios de comunicação social sobre um segundo funcionário com pneumonia de causa indeterminada. Porém, a diretora de gestão de epidemias e pandemias da OMS, Maria Van Kerkhove, admite que a agência ainda não obteve informações sobre como a investigadora foi realmente infectada, nem com que doença viral. “No entanto, se a peste pneumônica foi descartada, de que é que ela morreu realmente?”, questionou Van Kerkhove.
A mãe da jovem vítima mortal, em entrevista a um jornal local, afastou a teoria de que a filha teria sido infectada depois de ter partido um tubo de ensaio. "Eu sei a verdade. Tenho de lidar com amigos tolos que acreditam nisto. Um tubo de ensaio é inquebrável, mesmo que o atiremos contra a parede", disse. O mesmo afirmam antigos colegas, que duvidam de uma infecção no local de trabalho.
As autoridades russas, por sua vez, rejeitam qualquer ligação ao instituto e insistem que não há risco de surto de peste. Moscou assegura que a situação "sanitária e epidemiológica" da região é estável. Mas, ainda assim, as autoridades russas colocaram cerca de 200 pessoas em quarentena durante três dias. Além disso, também foram impostas restrições de quarentena nos hospitais próximos do laboratório onde a investigadora trabalhava.
O porta-voz do Kremilin, Dmitry Peskov, pediu à população e à imprensa que não dêem ouvidos a rumores e acompanhem apenas os dados oficiais do governo russo.
O Kremlin desvaloriza o incidente e descartou uma oferta de assistência feita no início desta semana pelo presidente norte-americano Donald Trump.