Sucessão de milagres comove a cidade de Pereira após terremoto
Número de mortos chega a 265, dos quais 164 foram identificados; mais de 3.490 pessoas ficaram feridas, 9.215 casas foram destruídas e 140 prédios desabaram
Publicado: 13/08/2026 às 10:03
O médico German Andres Somoyar carrega recém-nascidos removidos durante terremoto (Arquivo pessoal)
Moradora de Pereira, no oeste do país, Daniela Largo foi resgatada após 35 horas sob os escombros. No hospital, enfartou e passou 18 minutos na reanimação. Madrasta fala ao Correio. Médico e bancário que salvaram bebês rejeitam título de heróis
Daniela Andrea Largo Sánchez, 31 anos, mãe de um menino de 12, permaneceu presa sob os escombros de um hotel da cidade de Pereira, no oeste da Colômbia, durante 35 horas. Funcionária de um armazém de móveis situado ao lado do prédio de quatro andares, ela foi resgatada com vida, na noite de terça-feira (11). Sandra Milena Pérez, 48, madrasta de Daniela, disse ao Correio que a enteada viveu três milagres em poucas horas, depois do terremoto de magnitude 7.4 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9) que atingiu parte do território colombiano.
"Primeiro, dois rapazes que moram perto do hotel começaram a remover os escombros e escutaram um gemido. Até então desaparecida, Daniela estava ali. Então, mais socorristas chegaram e a retiraram às 20h20 (22h20 em Brasília). Depois, o segundo milagre aconteceu durante o traslado até o hospital. Dentro da ambulância, Daniela teve o quadro de saúde agravado. Ela sofreu um enfarte e os médicos demoraram 17 minutos para ressuscitá-la", contou, por telefone. "Também teve um pneumotórax e, às 11h30 de hoje, precisou amputar um dos braços, que foi pressionado por uma porta metálica. Seu estado de saúde é delicado, ela está na unidade de terapia intensiva. Nós, a família e os amigos, estamos em oração. É uma guerreira, temos muita fé de que ela sairá desta."
Ainda segundo Sandra, Ángel David, filho de Daniela, completou 12 anos na última segunda-feira, dia do terremoto. "Nós esperávamos comemorar o aniversário dele naquele dia, mas aconteceu o que aconteceu. Agora, estamos na luta", desabafou. A madrasta de Daniela e o marido chegaram a Pereira na manhã desta quarta-feira (12) e acompanharam o resgate. "Quando a encontraram, sentimos felicidade. Daniela falava. Os socorristas perguntaram-lhe como estava e ela respondeu: 'Muito bem'. Imaginava que ela fosse para casa, ao encontro de seu papai e de seu filho. Mas, aqui estamos."
Até o fechamento desta edição, o número de mortos chegava a 265, dos quais 164 foram identificados. Mais de 3.490 pessoas ficaram feridas; 9.215 casas foram destruídas e 140 prédios desabaram. O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, recusou as ofertas de ajuda da comunidade internacional e anunciou que somente aceitará equipes de socorristas de nações aliadas, como Israel, Equador, El Salvador e Estados Unidos. As primeiras brigadas de salvamento desembarcaram ontem no oeste da Colômbia.
Durante toda a madrugada, os socorristas usaram guindastes, drones, cães farejadores e máquinas pesadas na busca por sobreviventes, em Cali e em Pereira. "Estamos entrando na fase final das primeiras 72 horas (de buscas)", declarou o prefeito de Cali, Alejandro Eder. A partir do quarto dia após o terremoto, as chances de encontrar alguém com vida diminuem bastante. Desde segunda-feira (10), mais de 130 réplicas foram registradas.
Heróis anônimos
Às 7h34 de segunda-feira pelo horário local (9h34 em Brasília), Brayan Osorio Zuluaga, 35 anos, analista de crédito do banco W, se preparava para mais uma jornada de trabalho quando a terra tremeu forte, em Cali. A primeira reação dele foi telefonar para a avó, com quem vive, em busca de notícias. Como não conseguiu resposta, subiu na motocicleta e partiu para casa. No caminho, deparou-se com um complexo residencial de seis torres de cinco andares, chamado de Torres de Comfandi, totalmente destruído, no bairro de Capri. "Vi pessoas chorando, em estado de choque. Muitas vestiam pijamas. Comecei a entrar no local e uma mulher gritou que eu saísse, pois havia vazamento de gás e cabos elétricos soltos. Escutei a voz de uma garota de 10 anos, que gritava: 'Sim, estou aqui! Estou aqui! Ah, meu Deus! Aqui ainda há pessoas soterradas!'. Outras pessoas entraram e resgataram a menina", disse ao Correio.
Brayan seguiu adiante e foi surpreendido por um homem gritando com toda a força e dizendo que estava preso com um bebê. Foi então que ele escutou uma espécie de sussurro vindo dos escombros. "Era um barulho muito suave. Eu e mais seis pessoas começamos a remover as placas de concreto. Enquanto dois de nós seguramos uma enorme placa de concreto, os outros cinco puxaram Salomão, de dois meses. O bebê estava roxo, acho que por não poder respirar. Foi então que ele começou a chorar, a gritar e a ganhar um tom rosado", lembrou. Depois de tirar a criança dos escombros, Brayan entregou Salomão a um policial, que o encaminhou de ambulância até a clínica.
Outro caso que comoveu os colombianos e o mundo envolveu o médico pediatra German Andres Somoyar Duarte, morador de Apartadó, no departamento de Antióquia, perto de Chocó — região castigada pelo tremor. Ele retirou 10 bebês da unidade neonatal do hospital onde trabalha. "O terremoto começou leve e ganhou intensidade rapidamente. Colocamos em funcionamento o protocolo de evacuação do hospital, com uma rota de fuga pelas escadas. Os pacientes da unidade de terapia intensiva (UTI) ficaram dentro do prédio, acompanhados de médicos. Algumas pessoas estavam em pânico. Passei pelos leitos da pediatria, expliquei a situação a eles e aos familiares, e eles começaram a sair rapidamente. No centro neonatal, o cenário era um pouco mais complexo: havia 10 recém-nascidos e três enfermeiras", disse à reportagem.
German ordenou que cada enfermeira pegasse dois bebês nos braços e descesse até a parte externa do prédio. "Dois médicos carregaram outras duas crianças; saí por último, levando mais duas. Em uma área segura, encontramos as mães dos bebês, que choravam de alegria", comentou.
No lugar e hora certos...
"Quando vimos o bebê, roxinho, dar o seu primeiro choro, o primeiro respiro, depois de sair dos escombros, senti calma e alegria. Algo difícil de experimentar. Ele nasceu de novo. Foi como ver que não se apaga uma luz de vida. Ele começou a chorar. Graças a Deus, vi que não ocorreu uma tragédia muito maior a ele. Então, senti felicidade."
Brayan Osorio Zuluaga, 35 anos, analista de crédito, morador de Cali