Manifestações na Albânia contra complexo turístico do genro de Trump
Os protestos já se espalharam por várias cidades da Albânia e foram realizadas manifestações também na Itália, França, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e Grécia
Publicado: 15/06/2026 às 16:42
Manifestantes são contra um projeto de hotel de luxo na área costeira protegida de Zvernec, ligado a Jared Kushner, genro do presidente dos EUA, Donald Trump (ADNAN BECI / AFP)
Mais de 150 mil pessoas, sem adesão partidária, participam nas maiores manifestações dos últimos anos na Albânia, que exigem a suspensão dos projetos de construção na costa sul do país de Jared Kushner, casado com Ivanka Trump, filha do presidente dos Estados Unidos.
Os protestos já se espalharam por várias cidades da Albânia e foram realizadas manifestações também na Itália, França, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e Grécia. A Comissão Europeia já alertou a Albânia de que o empreendimento poderá prejudicar as áreas de conservação da natureza e complicar o caminho do país para a adesão à União Europeia e apelou a uma revisão das alterações à lei sobre áreas protegidas do país.
Desde o final de maio que a população de Tirana, capital albanesa, sai às ruas todos os dias para protestar contra o empreendimento do genro de Trump, planejadas de serem erguidas em zonas de preservação ambiental. Para além dos riscos ambientais, chamam a atenção para a falta de transparência em torno da implementação deste e de outros projetos semelhantes. Eles acusam todo o processo de desenvolvimento das futuras obras de pouco transparente, que desencadeou inicialmente os protestos, uma vez que denunciam a corrupção sistêmica do governo, à crise na educação e o abandono da saúde.
Os milhares de manifestantes questionam ainda por que razão as autoridades se aliaram aos investidores estrangeiros e o escândalo afeta os principais líderes políticos do país. A onda de protestos vem se avolumando cada vez mais sob o lema "A Albânia não está à venda", e se estendem agora contra um dos seus principais defensores, o próprio primeiro-ministro albanês Edi Rama, que lidera o governo há 16 anos. Mas, para além de Rama, o líder do Partido Democrático da oposição, Sali Berisha, vem sendo alvo de críticas por parte dos manifestantes.
O governo alega que a base jurídica para o empreendimento foi estabelecida por uma lei aprovada pelo Parlamento em 2024, que permite a construção de hotéis de cinco estrelas em qualquer parte do país, incluindo em áreas naturais protegidas. Rama rejeita todas as acusações, alega que a dimensão do caso está sendo exagerada e que os protestos têm motivações políticas, além de insistir que o projeto ajudará a transformar a economia do país e a posicioná-lo no mercado do turismo de luxo e até mesmo a aproximá-lo da adesão à UE.
Enquanto isso, os críticos apontam que o projeto do complexo turístico não foi submetido a uma avaliação de impacto ambiental e se opõem à transferência de terrenos para investidores estrangeiros sem consulta pública. Exigem que o projeto seja cancelado e que a legislação que rege o investimento estrangeiro seja alterada. "Tem havido uma total falta de transparência desde o início deste projeto até aos dias de hoje", salienta Alexander Traitse, diretor executivo da organização ambiental PPNEA Bird Life Albania .
Já o projeto de Kushner, que planeja construir um resort de luxo, fica localizado em uma das áreas protegidas e de preservação ambiental da costa sul da Albânia. Os planos envolvem ainda construir várias outras instalações nesta região, assim como na ilha de Sazan, no mar Adriático, uma zona ecológica praticamente desabitada. Os investidores estrangeiros dizem estar dispostos a investir milhões de euros no projeto.
Outro local do projeto fica numa parte da costa na aldeia de Zvernets, em frente à ilha Sazan, empreendimento previsto de ser erguido dentro do Parque Nacional Vjosa-Narta, o que provocou a indignação dos albaneses, sobretudo após os empreendedores terem ordenado vedar e colocar sob vigilância um trecho da costa da cidade. Porém, a barreira já foi removida e a polícia iniciou uma investigação.
Estas zonas abrigam mais de 200 espécies de aves migratórias, incluindo flamingos e pelicanos, focas-monge do Mediterrâneo e tartarugas marinhas. O grupo de conservação animal PPNEA destacou que este é o único reduto no país onde os flamingos constroem seus ninhos. “Todos os anos até sete mil destas aves sobrevoam o parque. O empreendimento poderá pôr tudo isto em risco. É por isso que o movimento de protesto foi batizado de "Revolução dos Flamingos", afirma a PPNEA.
Enquanto isso, o custo total destes projetos é estimado em cerca de 5 bilhões de euros, com um complexo turístico que abrangeria a construção de cerca de dez mil quartos de hotel, bem como moradias.
A Procuradoria Anticorrupção (SPAK) já está investigando se ocorreram violações durante a celebração de acordos de investimento relativos a projetos de desenvolvimento em áreas protegidas. Em junho, as autoridades policiais congelaram as contas de uma empresa do Catar envolvida no caso. O montante em questão era de 195 milhões de dólares. No entanto, as restrições foram suspensas alguns dias depois.
Por outro lado, os promotores imobiliários insistem que estão a cumprir todos os regulamentos. "Continuamos empenhados numa gestão responsável, na melhoria do ambiente e na criação de emprego", afirmou Asher Abegser, presidente da Sazan Real Estate Development LLC, empresa que realiza o projeto em parceria com a empresa de Kushner.