"O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos", diz papa Leão 14
Em discurso contundente, pontífice critica líderes autoritários e pede paz durante visita a região em conflito em Camarões
Publicado: 16/04/2026 às 20:29
O papa Leão XIV esteve em Camarões, na África Central, nesta quinta-feira (16). ( AFP)
O Papa Leão XIV denunciou nesta quinta-feira (16), em Camarões, que "um punhado de tiranos" está "devastando" o mundo e fez um apelo à paz em uma das regiões mais violentas do país.
Desde o início de sua viagem de 11 dias por quatro países do continente africano, o pontífice americano abandonou sua habitual posição reservada e reiterou seus pedidos de paz, apesar das duras críticas que recebeu do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Ao chegar à Catedral de São José na cidade de Bamenda, em um papamóvel com vidros blindados e sob escolta militar, Leão XIV abençoou a multidão agitada, entre cânticos, bandeiras de Camarões e do Vaticano e faixas com a sua imagem.
"Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para seu próprio benefício militar, econômico e político", disse o papa em Bamenda, depois que o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, o criticou e pediu que tivesse "cuidado" ao abordar questões de teologia.
"O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos, mas é mantido unido por uma multidão de irmãos e irmãs solidários", acrescentou o pontífice em seu discurso.
Estas declarações reforçam a oposição, que ficou evidente nos últimos dias, entre o papa nascido em Chicago e o presidente americano, que o qualificou de "fraco" e "nulo em política externa".
Nesta quinta-feira, Trump tentou dar lições ao papa sobre a guerra no Irã, embora tenha negado que estivesse "brigando" com o pontífice.
"O papa tem que entender que o Irã matou mais de 42 mil pessoas nos últimos meses", disse o presidente.
"Eram manifestantes totalmente desarmados. O papa tem que entender isso. Este é o mundo real, é um mundo desagradável", afirmou.
Ao deixar a catedral, o papa soltou pombas brancas, um símbolo de paz em uma região do país africano que ele chamou de "terra manchada de sangue, porém fértil, que tem sido maltratada".
"Aqueles que roubam os recursos de sua terra geralmente investem grande parte do lucro em armas, perpetuando assim um ciclo interminável de desestabilização e morte", lamentou.
'Exploração e saques'
Durante a tarde, o papa celebrou uma missa na pista do aeroporto da cidade, depois de passar pelos cerca de 20.000 fiéis que o aguardavam a caminho do local.
Denunciou "o mal causado a partir do exterior, por aqueles que, em nome do lucro, continuam apoderando-se do continente africano para explorá-lo e saqueá-lo".
Camarões possui abundantes recursos como petróleo, madeiras preciosas, cacau, café e algodão, mas também vastos jazigos minerais que há décadas atraem grupos estrangeiros e elites locais.
Na quarta-feira, diante do presidente camaronês Paul Biya, que dirige o país com mão de ferro desde 1982, Leão XIV pediu para que se "quebrem as correntes da corrupção".
Bamenda é o epicentro do conflito que, desde 2016, opõe os independentistas da minoria anglófona do país ao governo de Yaoundé. Tanto separatistas como forças de segurança foram acusados de cometer atrocidades.
Os civis se tornaram alvo de extorsões, violência, sequestros e assassinatos. E pelo menos 6.000 pessoas morreram desde 2016, segundo a ONU.
Vivian Ndey, uma professora de 60 anos de Bamenda, recebeu o papa com uma "planta da paz", símbolo de esperança. "Dei aulas durante este período de crise e não tem sido fácil. Não havia alunos, os professores tinham medo de vir às aulas", explicou ela à AFP.
Neste país da África Central, onde cerca de 37% dos seus quase 30 milhões de habitantes são católicos, a Igreja desempenha um papel de mediação e administra uma extensa rede de hospitais, escolas e obras de caridade.
Antes de Camarões, o líder espiritual realizou uma visita histórica à Argélia.
O pontífice continuará sua viagem pelo continente africano em Angola e Guiné Equatorial até 23 de abril.