Beto Lago: "Ação dos sócios do Sport é legítima e necessária"
Debate sobre cessão de 20% dos direitos de arena por 50 anos à Liga Forte União revela questionamentos sobre governança, transparência e os limites das decisões administrativas no clube
Publicado: 19/02/2026 às 08:02
Ilha do Retiro, estádio do Sport (Rafael Vieira/DP Foto)
Conta cara
A ação movida por sócios patrimoniais do Sport pedindo a nulidade da adesão ao contrato que compromete 20% dos direitos de arena por 50 anos junto à Liga Forte União deixou de ser apenas uma disputa jurídica. Virou um debate sobre autonomia, transparência e respeito ao estatuto. E parte de um ponto inegociável: uma decisão dessa dimensão não deveria ter sido tratada como ato administrativo ordinário nem resolvida apenas dentro do Conselho. Ceder parte relevante das receitas até 2074 não é detalhe contratual. É mexer na espinha dorsal financeira de um clube que atravessa recuperação judicial e reestruturação interna. Direitos de transmissão sustentam elenco, base, infraestrutura e competitividade. São o oxigênio do futebol moderno. Comprometê-los por meio século exige Assembleia Geral, debate público e escrutínio cláusula por cláusula. Pressa de mercado nunca pode atropelar governança. O percentual chama atenção. O prazo assusta. Cinquenta anos é uma geração inteira. Dirigentes passam. Presidentes passam. O contrato permanece. E com ele, a vinculação do voto do clube a interesses estruturais do Brasileiro. Decisões sobre formato de competição e reorganização institucional poderão depender da anuência de investidor privado. Isso não é parceria pontual. É amarra estratégica. A Liga Forte União nasceu com discurso de fortalecimento coletivo e ruptura com modelos concentrados. Mas protagonismo sem autonomia é apenas retórica bem embalada. Se a antecipação financeira cobra como contrapartida meio século de dependência, a conta pode sair cara demais e não apenas no balanço.
Os sócios que recorreram à Justiça não combatem modernização. Cobram governança. Exigem que um ato estrutural siga os ritos estatutários e passe por Assembleia Geral. É um pedido básico: transparência antes da assinatura. A iniciativa é legítima e necessária. Porque defender o processo é defender o próprio Sport de decisões que atravessam décadas.
FFU traz resposta
A Liga Forte União afirma que todos os atos seguiram rigorosamente os estatutos, com aprovação do Conselho e, no caso do Sport, do Juízo da recuperação judicial. É um argumento formal. Mas legalidade não substitui legitimidade política interna. Cumprir rito mínimo não encerra o debate quando o impacto é geracional.
A resistência de Vini Júnior
É exaustivo constatar que, em 2026, a pauta sobre Vini Júnior ainda seja sua resistência psicológica ao racismo, não o seu futebol. O seu companheiro Mbappe comprou a briga. Porém, o episódio em Portugal, diante do Benfica, é mais um capítulo de uma omissão estrutural das instituições. As grandes ligas seguem operando protocolos que não protegem o atleta. A discussão já não é apoio individual. É decidir se o futebol seguirá tratando o racismo como ruído de arquibancada ou como crime que interrompe jogo, tabela e negócio.