Agricultores e pecuaristas de Pernambuco se preparam para a chegada do El Niño
Plantio de palma e reservas de água da chuva podem minimizar os impactos de uma possível seca extrema
Publicado: 16/06/2026 às 18:47
Produção de uvas (João Tínel/Codevasf Petrolina)
As previsões para a chegada do El Niño não indicam um cenário favorável para o Nordeste brasileiro. Classificado como um dos mais intensos das últimas décadas, o fenômeno poderá provocar consequências como seca prolongada, agravamento da estiagem, perda de lavouras e prejuízos à criação de animais, caso as projeções se confirmem.
O fenômeno deverá ser sentido com maior intensidade entre outubro deste ano e maio de 2027. No Sertão de Pernambuco, esse período já é marcado por temperaturas elevadas e clima seco. A produção agrícola nessa época concentra-se principalmente na fruticultura irrigada, com destaque para o cultivo de uva, manga e banana.
O engenheiro agrônomo e viticultor Diogo Chagas, que cultiva uvas em Petrolina, demonstra preocupação com as possíveis alterações climáticas. “Este ano já tivemos perdas na colheita. As chuvas foram mais intensas do que o normal, o que contribuiu para o aparecimento de doenças. Se vier o El Niño, teremos outro prejuízo”, afirma.
Segundo o produtor, cerca de 20 toneladas da produção foram perdidas por não se desenvolverem adequadamente ou por apodrecerem. “Já realizamos, independentemente do El Niño, manejos e barreiras físicas para reduzir os efeitos do calor. Mas, se tivermos temperaturas acima do esperado, a fruta poderá perder qualidade na coloração e haverá queda na produtividade”, explica.
Ações para garantir água
Para minimizar os problemas que possam afetar os pequenos agricultores, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) vem desenvolvendo ações voltadas à garantia do abastecimento de água.
“Os agricultores que trabalham com irrigação são acompanhados com atenção, mas com menos preocupação, porque contam com a Barragem de Sobradinho, que oferece maior segurança no suprimento de água. Já para os pequenos agricultores, realizamos trabalhos permanentes visando enfrentar possíveis períodos prolongados de estiagem”, explica o superintendente da 3ª Superintendência Regional da Codevasf, Edilazio Wanderley.
Segundo ele, a estratégia se baseia em pilares como a diversificação da produção de alimentos e a captação de água da chuva por meio de cisternas.
Impactos no setor sucroenergético
Já para o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar no Estado de Pernambuco (Sindaçúcar-PE), Renato Cunha, o período previsto para a atuação do fenômeno no Nordeste coincide com a fase de colheita e moagem da cana-de-açúcar, que ocorre entre o fim de julho e meados de março. “O clima, apesar de toda a tecnologia disponível, não permite previsões exatas. Mas acredito que, caso o fenômeno ocorra, não afetará o setor de forma intensa”, avalia.
Pecuária: plantio de palma pode salvar o gado
O fenômeno climático El Niño teve forte impacto no Nordeste brasileiro, especialmente em Pernambuco, durante o período de 2015 a 2016, quando ocorreu um dos eventos mais intensos já registrados.
Na ocasião, diversos produtores foram obrigados a vender ou deslocar seus rebanhos em busca de alimento e água. Para evitar que isso se repita, o professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Geraldo Eugênio, destaca a importância do plantio de palma forrageira.
“Quem plantou tem uma reserva alimentar estabelecida. Aqueles que ainda não o fizeram devem procurar fazê-lo, já que a palma forrageira é o principal recurso disponível na região para alimentar o rebanho”, afirma.
Para o acadêmico, outra recomendação importante é manter as cisternas domésticas limpas e as calhas em perfeito funcionamento. “Afinal, toda água proveniente das chuvas deve ser armazenada. E, caso ocorra uma seca, como previsto, é necessário usar os recursos naturais com cautela, evitando o desmatamento da Caatinga para a produção de lenha ou carvão.”
O pecuarista Edenildo de Azevedo, de São Bento do Una, é um exemplo de como o cultivo da palma pode ajudar a enfrentar os períodos de estiagem com menos dificuldades. “Quem cria animais no Agreste e no Sertão de Pernambuco já tem garantidos pelo menos sete meses de seca por ano. Então, é preciso estar sempre preparado. O cultivo da palma garante alimento para o gado por até três anos”, afirma. O criador relata que enfrentou a última seca extrema sem perder nenhum animal do rebanho.
Comitê permanente
No fim de maio, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Pernambuco (Faepe) encaminhou uma proposta, por intermédio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), para ser submetida ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O documento pede a implantação imediata de um Comitê Permanente Regional de Prevenção e Combate aos Efeitos do El Niño.
"O Comitê teria a participação dos ministérios da Agricultura, da Integração e Desenvolvimento Regional, Sudene, Embrapa, Governos Estaduais, Defesas Civis, Codevasf, institutos de meteorologia, agências de monitoramento do clima, produtores e trabalhadores rurais, com reuniões permanentes e definição imediata de um plano regional integrado de contingência para o Semiárido nordestino", explica o presidente da Faepe, Pio Guerra.
"O Nordeste não pode repetir os erros observados em eventos climáticos anteriores, quando as ações governamentais foram tomadas apenas após o agravamento da seca", finaliza.