TJPE libera venda de área do Cassino Americano no Pina
Prédio do antigo Cassino Americano, no Pina, será comprado pela Rio Ave após venda ter sido suspensa por pedido da Moura Dubeux, que irá recorrer da decisão
Publicado: 27/03/2026 às 23:10
Prédio do antigo Cassino Americano, no Pina, será comprado pela Rio Ave (Foto: Sandy James/DP Foto)
A 6ª Câmara Cível, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), autorizou, nesta quinta-feira (26), a venda do imóvel do antigo Cassino Americano, no terreno localizado na Av. Boa Viagem, bairro do Pina, na Zona Sul do Recife, à Rio Ave Holding. Por meio de um instrumento chamado juízo de retratação, o desembargador Gabriel Cavalcanti revogou uma liminar anterior, concedida por ele mesmo, em que suspendia o negócio a pedido da Moura Dubeux Engenharia S/A. Esta, em nota, informou que recorrerá.
A área e o imóvel integram o patrimônio do Grupo João Santos, um dos maiores grupos empresariais do Nordeste, que está em recuperação judicial. O bem pertence 70% ao espólio da família Santos e 30% à empresa Itapessoca Agro Industrial S/A.
Segundo o desembargador, após “análise cirúrgica” dos autos, concluiu-se que o processo que precedeu a venda do lote, por R$ 171 milhões, à Rio Ave Holding “foi dotado de ampla competitividade e transparência”, e não de forma irregular ou às escondidas como foi sustentado pela Moura Dubeux, conforme o desembargador.
Ainda de acordo com o magistrado, o objetivo central da venda do ativo é a obtenção imediata de recursos para quitação do Imposto de Transmissão Causa Mortis (ITCMD), pago ao estado, referente ao espólio com descontos de até 90% em multas e juros, cujo prazo termina no próximo 31 de março. “Neste cenário, a Rio Ave Holding apresentou-se como a única proponente capaz de oferecer uma proposta incondicional, assumindo o risco tributário de forma imediata e sem cláusulas de saída que pusessem em risco o prazo de 31/03/2026”, escreve o desembargador.
Consta na decisão judicial que a Secretaria da Fazenda de Pernambuco teria afirmado que a adesão ao programa que concede o desconto, via Programa Especial de Recuperação de Créditos Tributários (PERC) seria a única forma de evitar o colapso do grupo: sem o benefício, o passivo tributário do espólio do Grupo João Santos saltaria para mais de R$ 421 milhões. “O prejuízo de se perder um desconto tributário que reduz a dívida para R$ 94 milhões é aritmeticamente superior a qualquer ganho marginal de R$ 3,9 milhões oferecido pela Agravante (Moura Dubeux)”, pontua o juiz.
Moura Dubeux
Embora fosse mais alta, a proposta financeira da Moura Dubeux foi rejeitada por quatro dos seis herdeiros por conter exigências tidas como incompatíveis com a urgência do momento. Segundo o desembargador, a oferta previa a realização de auditoria (due diligence) até o fim de março de 2026.
“Além disso, outro aspecto decisivo para a recusa foi a previsão de desistência unilateral, facultando à proponente a possibilidade de abandonar o negócio a qualquer momento mediante simples notificação extrajudicial, sem qualquer obrigação de pagamento de multa, penalidade, indenização ou cumprimento de outras obrigações”, afirma o magistrado.
O Diario de Pernambuco tentou contato com os herdeiros do Grupo João Santos, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Em nota enviada ao Diario, a Moura Dubeux afirmou que recorrerá da decisão e “adotará as medidas judiciais e extrajudiciais necessárias”. Além disso, a empresa declarou que “sua atuação sempre se deu de forma legítima, no exercício regular da atividade negocial, a partir de tratativas com titulares de direitos que se opõem à venda questionada. Não houve qualquer interferência ilícita, mas sim atuação dentro de um ambiente de incerteza jurídica e dissenso entre as partes envolvidas”.
Já a Rio Ave confirmou, também por nota, a aquisição do terreno. “A iniciativa integra a estratégia da companhia de desenvolver projetos imobiliários de alto padrão, alinhados à sua trajetória de 57 anos marcada pela inovação, qualidade construtiva e compromisso com a cidade do Recife”, disse a empresa.
Segundo a Rio Ave, para o local está previsto um empreendimento residencial e a preservação do prédio do antigo Cassino. “O imóvel será restaurado com o objetivo de resgatar e valorizar a memória da cidade, sendo integrado de forma harmônica ao novo empreendimento, respeitando sua relevância cultural e arquitetônica”.