Motoristas e entregadores de plataformas digitais recebem praticamente o mesmo que outros trabalhadores do setor privado, mas trabalham mais horas. É o que apontam os números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que detalham essa diferença.
Em 2025, a renda mensal média de motoristas e entregadores de aplicativos era de R$ 3.147, praticamente igual à dos demais trabalhadores do setor privado, de R$ 3.148. Três anos antes, quando o IBGE iniciou essa série histórica, em 2022, o cenário era diferente.
Naquele ano, quem trabalhava por plataformas ganhava R$ 3.115 por mês, enquanto outros profissionais do setor privado recebiam R$ 2.847. A vantagem salarial desapareceu nos anos seguintes, em contraste com o crescimento da renda no restante da economia.
A jornada maior reduz o rendimento por hora
A diferença entre as duas categorias fica mais clara quando se calcula o rendimento por hora. Motoristas e entregadores de aplicativos trabalham, em média, 44,7 horas por semana, 5,4 horas a mais que as 39,3 horas dos demais profissionais do setor privado. Essa diferença muda o cálculo do que cada grupo ganha efetivamente.
Já quem trabalha por aplicativo recebe R$ 16,20 por hora, contra R$ 18,40 recebidos pelos demais. A diferença de R$ 2,20 por hora reduz o rendimento quando se considera o esforço investido. Em uma jornada semanal, esse valor se acumula e diminui o que sobra depois dos gastos com combustível, manutenção do veículo e outras despesas operacionais.
Crescimento estagnado enquanto mercado aquece
Entre 2022 e 2025, profissionais do setor privado registraram avanço de 4,1% na renda, impulsionado pelo mercado de trabalho aquecido e pela baixa taxa de desocupação. A renda de quem trabalha por aplicativos, por sua vez, praticamente não avançou em termos reais no mesmo período.
Motoristas de automóveis e motocicletas, que representam aproximadamente três quartos dos trabalhadores plataformizados, não tiveram ganho real de renda. Segundo dados do IBGE divulgados em setembro de 2025, pelo menos 2 milhões de pessoas trabalhavam por plataformas no terceiro trimestre daquele ano. Desse total, 1,8 milhão tinha as plataformas como trabalho único ou principal.
Para esse grupo, o resultado é direto: trabalha mais, ganha igual e recebe menos quando o cálculo é feito por hora, e a flexibilidade de horário não compensa integralmente essa diferença.
Motivações que esbarram em limitações reais
A dificuldade de encontrar outro emprego é o principal motivo citado por motoristas e entregadores para permanecer nas plataformas, segundo levantamento complementar. Entre os que citam esse motivo estão iniciantes como Pedro Ivo, que deixou um emprego de jovem aprendiz no início de 2025 porque recebia menos de um salário mínimo. Segundo o jovem, a renda em aplicativos quadruplicou em relação ao que recebia antes.
Essa percepção de ganho inicial contrasta com a realidade de médio prazo revelada pelos dados. Segundo analistas do IBGE, o aumento contínuo da oferta de trabalho nas plataformas pode explicar a estagnação salarial, embora outros fatores também atuem nesse cenário.
O “breque dos apps”, realizado em 1º de setembro, refletiu essa frustração. Profissionais reivindicaram taxa mínima de R$ 10 em entregas de até quatro quilômetros e alterações no projeto de lei que regulamenta os direitos da categoria.
Dos 1,8 milhão de profissionais que têm as plataformas como principal fonte de renda, 62,7% atuam exclusivamente por esse canal. Desse grupo, 701 mil utilizam apenas um aplicativo, e essa concentração amplia a vulnerabilidade do trabalhador diante de oscilações nas condições oferecidas pelas empresas.
O resultado é uma jornada mais longa, remuneração que não acompanha o esforço e perspectivas de melhoria cada vez mais distantes.










