Com apenas 23 anos, o jogador Richarlison já acumulava histórias suficientes para preencher um livro. Como tantos jogadores brasileiros, ele enfrentou dificuldades desde a infância e transformou essas experiências em parte de sua trajetória no futebol. Em uma carta publicada no The Players Tribune, o atacante da Seleção Brasileira e do Tottenham descreveu como as experiências da juventude definiram sua determinação na carreira.
Um dos momentos decisivos ocorreu quando ele tinha 17 anos. Richarlison visitava o pai, Antônio, que passava por dificuldades — separado da mãe Vera Lucia há 10 anos, vivia sozinho na fazenda e enfrentava depressão. Foi durante essa visita que o atleta e seus primos foram pescar nas represas próximas da propriedade onde o pai morava. O dono havia permitido pesca em apenas duas delas; a terceira era proibida.
Como não encontraram nada nas duas represas permitidas, eles decidiram tentar a pesca na área proibida, e Richarlison conseguiu uma fisgada em poucos segundos.
O episódio que virou ponto de virada
O proprietário presenciou a desobediência e se enfureceu, gritando e humilhando publicamente o pai do atacante, ameaçando expulsá-lo da casa a qualquer momento. Para o pai de Richarlison, já fragilizado emocionalmente, aquele foi um golpe devastador. Naquele momento, segundo o próprio atacante, algo mudou dentro dele e surgiu uma resolução inabalável.
Richarlison confessou ao tio Elton sua determinação: garantiria um contrato profissional no América-MG e tiraria seu pai daquela situação. O que até então era apenas uma ideia se transformou em obsessão. A momento testemunhado naquele dia se tornou combustível para sua trajetória no futebol.
O atacante passou a enxergar o esporte não apenas como carreira pessoal, mas como ferramenta para resgatar sua família da pobreza.
Trabalhos desde criança para sustentar a família
A luta de Richarlison começou bem antes dos 17 anos. Aos 11, ele começou a trabalhar para ajudar a mãe, Vera Lucia, que passava o dia trabalhando para colocar comida na mesa de cinco pessoas que viviam em uma casa de apenas dois cômodos.
Seu primeiro emprego foi vender picolés, seguindo a tradição do bisavô, que havia passado anos com um carrinho de sorvete nas praças da cidade. Richarlison acordava às 6 da manhã, pegava o carrinho no centro e passava o dia anunciando os sorvetes pelas ruas, e vendia muito, mas ganhava pouco.
A renda insuficiente o levou a buscar outras formas de ajudar no sustento da família. Ele vendeu bombons caseiros preparados pela tia e trabalhou em um lava-rápido, onde passava o dia ensaboando pneus cobertos de lama e para-brisas sujos.
O trabalho era tão exaustivo que suas costas doíam o dia todo. Quando o chefe quis registrar sua carteira de trabalho, o menino se recusou e nunca mais voltou. Também ajudava o avô na colheita de café na roça, onde passava horas sob o sol.
A humilhação do pai e o trabalho precoce para ajudar a mãe fortaleceram em Richarlison a determinação que o impulsionaria no futebol brasileiro. As rejeições de clubes na base. As recusas de equipes grandes e os dias difíceis de trabalho infantil ganharam outro significado quando ele se lembrava daquela fazenda em Minas Gerais e do pai que precisava ser resgatado.










