Qual é o tamanho que um festival precisa ter?
Festivais são mais do que palcos e shows. São espaços de descoberta, circulação, formação de público e encontro
Publicado: 09/09/2026 às 08:23
Palco do Festival Coquetel Molotov. (Divulgação)
Por Ana Garcia*
Fiz parte da mesa de encerramento da 12ª edição do Porto Musical, que aconteceu no Recife. A conversa, apresentada pela Abrafin (Associação Brasileira dos Festivais Independentes), tinha como tema "Festivais Brasileiros", com mediação de Ana Morena, do DoSol, e participação de Potyra Lavor, do Afropunk; Gabriel Junqueira, do Coala; Gabriel Bibi, do Timbre; Gerson Dias, do Psica; e de mim, representando o Coquetel Molotov.
Toda vez que participo de uma mesa sobre festivais que rende tanta conversa, acordo reflexiva no dia seguinte.
Pergunto-me sobre o tamanho do Coquetel Molotov. Deveríamos crescer? Deveríamos diminuir? O fato de não termos necessariamente grandes headliners é uma questão? O que vem primeiro: o headliner, que ajuda a atrair uma marca, ou a marca, que permite fechar o headliner? E quanto risco nós, produtores, ainda estamos dispostos a correr, especialmente depois de tantos anos fazendo festival?
Vinte e três anos depois, ainda me faço muitas perguntas. E talvez isso seja uma coisa boa.
Antes da nossa mesa, Melina Hickson, diretora do Porto Musical, fez uma fala muito bonita sobre a sobrevivência da conferência e terminou dizendo: “Todo dinheiro para os festivais é pouco”.
E é pouco porque o que fazemos é muito.
Festivais são mais do que palcos e shows. São espaços de descoberta, circulação, formação de público e encontro. Talvez nenhuma rádio, revista, blog ou rede social consiga reproduzir exatamente o que um festival pode fazer: colocar um artista diante de um público e criar, naquele momento, uma conexão real. Estamos construindo palcos, mas também construindo público.
Isso me lembrou também de uma fala de Zé Ricardo, diretor do Palco Sunset do Rock in Rio: os grandes festivais bebem dos festivais independentes. Muitos artistas precisam passar pelos nossos palcos antes de chegar aos grandes. Não por acaso, Marcelo Beraldo, diretor e curador do Lollapalooza, já citou Coquetel Molotov, Bananada e DoSol como referências para descobrir e curar bandas brasileiras independentes.
E tudo isso me fez pensar novamente sobre a importância dos diferentes tamanhos de festival. Cada um com sua peculiaridade, sua história e, principalmente, sua relação com o território. Naquela mesa estavam experiências muito diferentes: do Timbre, no interior de Minas Gerais, ao Psica, em Belém. Não existe uma única fórmula. Existe entender o que faz sentido para cada cidade, para cada público e para cada projeto.
E isso me levou ao Bananada, que, há poucas semanas, realizou uma edição histórica — a sua volta no cenário pós-pandemia —, fazendo algo que está na essência dos festivais independentes: construir coletivamente, ocupar a cidade, fortalecer cenas e apostar na descoberta do novo.
Escrever isso acaba sendo quase uma terapia para mim. Uma maneira de me lembrar que o propósito do Coquetel Molotov nunca foi simplesmente ser grande. Sempre foi ser uma vitrine para aquilo que consideramos mais incrível, diferente e instigante, daqui e de outros lugares do Brasil e do mundo. Criar espaço para artistas novos, provocar descobertas, realizar encontros improváveis e fazer com que as pessoas saiam do festival tendo visto algo que talvez não encontrassem em outro lugar.
E, quando conseguimos trazer os headliners, eles são a cereja do bolo.
O bolo, para mim, continua sendo a descoberta.
* Ana Garcia é produtora cultural e diretora do No Ar Coquetel Molotov.