O que um tubarão de US$ 12 milhões revela sobre o mercado de arte
o livro "O Tubarão de 12 Milhões de Dólares: A Curiosa Economia da Arte Contemporânea", de Don Thompson, parte de duas perguntas simples: a peça vale o que custa? Se sim, por quê?
Publicado: 08/09/2026 às 07:13
"The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living", de Damien Hirst (Isabell Schulz/Flickr)
Em 2004, o gestor de fundos americano Steve Cohen comprou por US$ 12 milhões a obra The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living, de Damien Hirst: um tubarão de cinco metros e duas toneladas, conservado em um tanque de formol e já em processo de deterioração. O episódio abre o livro "O Tubarão de 12 Milhões de Dólares: A Curiosa Economia da Arte Contemporânea", de Don Thompson, lançado no Brasil em 2012.
A obra parte de duas perguntas simples: a peça vale o que custa? Se sim, por quê? A partir delas, Thompson investiga um mercado marcado por preços exorbitantes, obras inusitadas e compradores extravagantes. É um universo difícil de compreender para quem está de fora, mas que movimentou US$ 59,6 bilhões em 2025.
Segundo o Art Basel and UBS Global Art Market Report 2026, as vendas globais cresceram 4% no ano, após duas quedas consecutivas. No Brasil, as vendas dos dealers avançaram 21%. Feiras como SP-Arte, ArtRio, Art.PE e Rotas Brasileiras também vêm ampliando espaços e atraindo mais público. Os números sugerem que o interesse veio para ficar.
Desde a pandemia, quando muitos brasileiros viram seus ativos financeiros perder valor e passaram mais tempo dentro de casa, cresceu o interesse por obras de arte. Com a valorização dos preços, tornou-se mais frequente a pergunta: arte pode fazer parte de uma carteira de investimentos?
A resposta exige algumas ponderações. Apesar de pujante, o mercado de arte não oferece as mesmas condições do mercado financeiro. A primeira diferença é a liquidez: enquanto ações e títulos costumam ser vendidos com relativa rapidez, um quadro ou uma escultura pode levar meses até encontrar comprador por um preço justo.
A segunda é a assimetria de informação. No mercado financeiro, relatórios, análises e divulgações obrigatórias ajudam a orientar decisões. No de arte, marchands, galerias, casas de leilão e colecionadores experientes têm acesso a informações sobre preços e demanda que raramente chegam ao iniciante. Há ainda os custos de transação. Comissões, seguros, armazenamento e autenticação podem corroer o retorno e nem sempre são considerados na compra.
Não podemos esquecer a concentração dos ganhos: não há um equivalente ao CDI nesse mercado, e acertar o artista, a fase e a obra que irão se valorizar é extremamente difícil. Os maiores retornos ficam restritos a poucos nomes, enquanto grande parte das obras perde relevância com o tempo.
Não pretendo desestimular ninguém a começar uma coleção. Eu mesmo separo parte da renda para comprar arte, que pode, sim, integrar um patrimônio. Mas é preciso abandonar a fantasia de descobrir o próximo Picasso a preço de banana. As principais razões para adquirir uma obra devem ser estéticas e culturais, e até de status, por que não? Se ela não provoca interesse verdadeiro, é melhor não comprar.
Também não parece prudente entrar nesse mercado sozinho. Manter contato com galerias, recorrer a um art advisor, quando possível, frequentar feiras e estudar o assunto reduz o risco de escolhas ruins.
Comprar o que se aprecia, e não apenas o que está na moda, permite desfrutar da experiência. Conviver com arte estimula, diferencia e pode proporcionar prazer intelectual. Ser o guardião temporário de uma obra que talvez sobreviva a todos nós é gratificante. Portanto, compre arte, colecione dentro de seus limites e aproveite o processo. Cerque-se de bons profissionais, mas cuidado com as falsas promessas e expectativas de acertar na mosca. Nesse mercado, assim como no mercado financeiro, as moscas não existem.