O espelho, a foto, a idade
Gilberto Amado revela, em Minha formação no Recife, que só em 1905, ao chegar ao Recife, a fim de fazer o curso de Direito, é que, num hotel, para se abrigar da chuva, se deparou com um espelho enorme
Publicado: 24/06/2026 às 08:50
Espelho (Foto: Magnific)
Gilberto Amado revela, em Minha formação no Recife, que só em 1905, ao chegar ao Recife, a fim de fazer o curso de Direito, é que, num hotel, para se abrigar da chuva, se deparou com um espelho enorme, no qual “pela primeira vez me via de corpo inteiro”. Então, a desagradável surpresa: “Aí é que tomei conhecimento da minha fealdade”. O diabo do espelho enorme. Uma vez, em Maceió, em hotel, saindo do banheiro, bem à vontade, senti que alguém me acompanhava os passos. Susto imediato. Parei para apurar. Não era ninguém. Era eu mesmo e o espelho, do piso ao teto, Ufa! Respirei.
Se o espelho, o espelho grande, revela o que está a sua frente, sem respeitar os anos vividos por cada um, sem ter um cirurgião plástico que estique as papadas do rosto, levante as pálpebras, se o espelho é tão cruel com a imagem que exibe, eu penso que mais tenebroso é a fotografia, que guarda a fisionomia do fotografado pelo resto da vida, independentemente das medalhas, que conserve no peito, de amigo disso e daquilo, por serviços prestados, que nunca o foram, jogando no lixo a liturgia da solenidade de entrega, os passos do oficial a caminhar levantando o joelho até perto da cintura, a medalha ou o diploma, numa peça de veludo. Nada disso leva em conta. Mantém a pessoa como era, sobretudo porque o fotógrafo não é dado ao deleite da leitura , e, assim, certamente, não mergulhou nas páginas de O retrato de Dorian Gray.
Se corro do espelho grande, por ficar a perguntar do que a vida fez do meu rosto dos vinte anos, para não repetir um poema de Cecília Meireles, não consigo fazer o mesmo da fotografia, que guardo como um hábito de todos os tempos. Não é agora que vou mudar meus passos. E, vez ou outra, sem dolo algum, me deparo com uma, de velhas datas, ou quando a curiosidade aperta o cinto, o espanto é maior. Deus do céu, como eu era, exclamação inútil. E aí constato que o tempo passou e continua passando, como um filme que só se encerra quando a morte tomar assento à mesa. O consolo é que mamãe, com onze anos em outra dimensão, não está mais aqui. Estivesse, não me reconheceria.
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras