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Diario Econômico

Com Pedro Ivo Bernardes

Comércio Exterior

Trump cria sua versão de capitalismo de estado em defesa das empresas americanas

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atua de forma protecionista aplicando tarifas a produtos estrangeiros ao mesmo tempo em que critica a intervenção dos governos mundo afora na economia

Pedro Ivo Bernardes

Publicado: 08/08/2026 às 15:49

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia tarifas globais sobre produtos importados/foto: Reprodução

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia tarifas globais sobre produtos importados (foto: Reprodução)

Eles usam o estado para roubar nossos empregos. O eixo teórico da política comercial dos Estados Unidos, sob Trump, aproxima ao mesmo tempo que afasta o papel do Estado na iniciativa privada. A intervenção estatal na economia, duramente criticada pelo presidente norte-americano em relação a seus parceiros comerciais (o Brasil incluso) é sua principal ferramente de atuação no comércio exterior.

O capitalista radical é o presidente dos Estados Unidos que mais usou Decretos de Emergência Nacional (IEEPA) para intervir em contratos privados entre multinacionais. Para defender as norte-americanas Visa e Mastercard, por exemplo, Trump direcionou sua artilharia contra o Pix, ignorando que o sistema de pagamentos brasileiros é aceito em seu próprio país como alternativa para empresas norte-americanas receberem dinheiro de turistas brasileiros.

Ele condena a Europa por subsidiar a Airbus, mas usa o poder do dólar para forçar a Boeing a vender mais. Ele critica a China por manipular o câmbio, mas pressiona o Federal Reserve para cortar juros e desvalorizar o dólar.

Neocapitalismo de estado trumpista

Assim, a grosso modo, e com a flexibilidade metafórica que o texto jornalístico permite, peço licença para fazer a ilação de que contra o capitalismo de estado chinês Trump está importando seu método de intervenção econômica, mas sem o planejamento estatal.

Na gestão tuitesca de Donald Trump, o Estado não é sócio da iniciativa privada, ele é interventor político e econômico lançando mão de medidas, inclusive tarifas e taxas comerciais, anunciadas via a Truth Social, sua rede social que desempenha o papel de Diario Oficial dos Estados Unidos.

Berço da Escola de Chicago e da interpretação mais liberal da teoria do escocês Adam Smith, considerado o pai do capitalismo, os Estados Unidos trumpista contraria a crítica clássica ao mercantilismo do século XVII e subverte a “mão invisível” do mercado em “mão visível” do Estado.

O Partido Republicano, que ostentava o livro “A Riqueza das Nações”, de Smith, como uma declaração de princípios tem com Trump o Estado americano com maior perfil interventor desde a grande crise de 1929.

Planejamento chinês e a intepestividade americana

A comparação soa absurda, sem dúvida, mas fica cada vez mais caótica a medida que se buscam mais elementos. Enquanto no capitalismo estatal chinês o governo se tornou sócio de grandes multinacionais, visando a absorção de tecnologia e a inovação fabril, os Estados Unidos lançam mão do protecionismo para tornar suas empresas competitivas.

A indústria automotiva dos dois países é um exemplo clássico dessas duas visões. Enquanto os chineses obrigaram as grandes fabricantes de automóveis a se associarem a empresas locais para aprender e desenvolver os processos de produção, os Estados Unidos criam obstáculos ou até mesmo proíbem a venda de veículos produzidos na China.

Ao final, a ironia é cruel. Ao tentar derrotar o modelo chinês usando o poder de fogo estatal, Trump dá ao mundo uma permissão moral para que todo governo possa intervir nas relações comerciais externas, seja pela adoção de tarifas, subsídios ou vedação de exportações de tecnologia a possíveis futuros correntes.

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