Academia da Berlinda aposta na cultura popular para reforçar sua mistura musical em novo disco
"Nave Luz" é o quinto disco de estúdio da grupo olindense Academia da Berlinda e chegou às plataformas digitais neste mês
O que Pernambuco tem de especial para produzir tantos artistas legais? A Academia da Berlinda ouviu essa pergunta tantas vezes desde sua formação, há 22 anos, que precisou fazer um disco como resposta. O resultado está em “Nave Luz”, quinto álbum de estúdio do grupo olindense, lançado na última quinta-feira (17) para intensificar as referências musicais nordestinas que dão sentido ao gingado caribenho do projeto.
A proposta busca destacar a essência da banda e aponta para a cultura popular como principal segredo por trás da qualidade artística do estado. A primeira evidência dessa tese surge já na abertura do disco, com a loa de maracatu de Mestre Anderson Miguel, em “Ciência”, que sugere a construção de um território abençoado pela água que alimenta seus artistas.
“Como a gente é de Pernambuco, temos uma vivência muito forte com a cultura popular. Quando a gente voltou para cá, a gente queria um disco que nos representasse bem”, explica o vocalista Tiné, em entrevista ao Diario. Por isso, a capa do álbum também transmite essa mensagem ao trazer uma foto, de autoria de Mateus Sá, que retrata um brincante fazendo passo durante um festejo. “Acho que a Nave Luz é justamente essa nave que a gente carrega com essa bagagem pelos lugares”, completa.
O trabalho é o primeiro registro do grupo em um estúdio de Olinda e marca o retorno de suas gravações a Pernambuco desde “Descompondo o Silêncio” (2020), feito no estúdio de Kassin, no Rio de Janeiro. A reaproximação geográfica inspirou o resgate de melodias e ritmos mais nordestinos, que levaram compassos de xote para a faixa-título, frevo para “O Que Depois” e galope para “Proposta”, por exemplo. Tudo vem costurado em uma trama que também entrelaça os ritmos latinos e africanos de dança de salão, que são parte da assinatura da banda.
“A gente não gosta de cair na mesmice”, observa Tiné, ao justificar a dose extra de sons nordestinos, mesmo que isso esteja na contramão de um momento em que artistas como Bad Bunny vêm despertando o interesse do mercado por mais música caribenha. O vocalista indica que, mesmo quando suas famosas cúmbias tinham mais destaque no trabalho da Academia, a mistura sempre fez parte do DNA do grupo. “Logo no nosso primeiro disco a gente já traz ‘Ciranda Enrustida’, que mescla salsa com ciranda”, lembra ele.
A cultura da disco music também é outra novidade que ajudou a construir “Jandaias”, lançada ainda em janeiro como primeiro single de “Nave Luz”. “Acho que essa história de apontar para outro lugar é muito interessante, porque a gente tá indo na direção oposta de outras tendências também, como a música de IA. A gente segue sendo uma banda muito orgânica, porque bebemos dessa tradição da cultura popular, muito percussiva e com instrumentos de sopro”, frisa Tiné.
Essa herança musical é especialmente celebrada em “Já Vi Fogo”, com a participação do recifense IVYSON, que reconhece a importância do trabalho de diferentes gerações da música pernambucana. Italiana radicada no Chile, Margherita Lavosi completa o time de convidados com versos em espanhol que ressaltam a latinidade da balada dançante “Paz no Olhar”.
FORMAÇÃO
A Academia da Berlinda segue com a mesma formação desde o seu primeiro disco, lançado em 2007. Além de Tiné, a banda conta com Alexandre Urêa (voz e timbales), Yuri Rabid (baixo e voz), Gabriel Melo (guitarra), Hugo Gila (teclados), Irandê Naguê (bateria e percussão) e Tom Rocha (percussão e bateria).