Sertão é terreno de experimentações em 1º disco solo de Clayton Barros, do Cordel do Fogo Encantado
Em"Primitivo Atemporal", seu primeiro álbum solo, Clayton Barros parte das raízes de Arcoverde para explorar novas possibilidades sonoras
Natural de Arcoverde e um dos fundadores do Cordel do Fogo Encantado, o cantor, compositor e violonista Clayton Barros deixou sua terra natal ainda na década de 1980, guiado pelo desejo de conhecer os seus pais biológicos em São Paulo.
Na metrópole, descobriu um mundo distante da vida sertaneja que conhecia, mas não deixou para trás as referências que trazia do Sertão do Moxotó. O deslocamento entre esses dois universos dá o tom de “Primitivo Atemporal”, álbum de estreia solo do artista pernambucano, que já está liberado nas plataformas digitais.
Arcoverde flui com naturalidade na música de Clayton. Afinal, além das memórias de infância, a cidade também está entranhada nas próprias origens musicais dele. A caminhada profissional começou cedo na noite arcoverdense, aos 16 anos, quando o jovem autodidata percorria os bares locais interpretando MPB e outros gêneros.
Foi também nessa época que conheceu José Paes de Lira, popularmente conhecido como Lirinha, com quem fundou o Cordel. “A banda me abriu muitas portas. Mas também me fez perceber que existe um percurso anterior à banda, formado por todos esses processos que, agora, culmina neste trabalho”, explica o músico em entrevista ao Diario.
As atividades com o Cordel do Fogo Encantado, vale ressaltar, continuam normalmente, e a nova fase solo passa a exigir apenas a conciliação das agendas. Segundo Clayton, “Primitivo Atemporal” é o desdobramento natural de uma linguagem musical amadurecida e consolidada ao longo dos anos com o grupo.
Livre para experimentar, ele amplia o repertório de influências e costura samba, rap, repente, baião, música eletrônica e funk ao rock e à MPB, tendo o violão como fio condutor dessa mistura. “O Cordel tem uma sonoridade própria, construída principalmente a partir da percussão e do violão. No meu disco, por outro lado, me sinto mais à vontade para explorar teclados, baixo e elementos eletrônicos”, destaca.
A inquietude Clayton gerou um verdadeiro laboratório de experimentações nos últimos anos. Sua versatilidade gerou o dueto com Chico César em “Açude Negro” (2021), avançou pelo forró de “Menino de Asas” (2023), ao lado de Marco Polo, e desembocou em “Baseados no Frevo” (2024), com Juba Valença.
Para “Primitivo Atemporal”, a diversidade se estendeu a nomes como Jessica Caitano, BNegão e Flaira Ferro. Jessica, que também traz as raízes fincadas no Sertão — mas na região do Pajeú —, assume o pandeiro, os vocais e a coautoria da letra na faixa de abertura “Ancestral”
A liberdade do trabalho solo também permite ao cantor aprofundar o olhar sobre um Sertão que conhece de perto, sem reduzi-lo aos estereótipos que costumam cercar a região. “O Sertão ainda é um Brasil que o próprio Brasil não conhece. Eu tento levá-lo comigo por onde passo”, diz o artista.
Na faixa que batiza o álbum, com participação de BNegão, a perspectiva se torna mais combativa. Clayton canta sobre a resistência dos povos originários e a violência sofrida pelas populações sertanejas durante o avanço das expedições conhecidas como “Entradas e Bandeiras”, financiadas pela Coroa Portuguesa.
Aos olhos do músico, o momento também é propício para levar o projeto solo aos palcos. A primeira apresentação acontece na próxima sexta-feira (7), às 18h30, na abertura do show de Michael Sullivan pelo Projeto Seis e Meia.
“O disco deixa de ser um empreendimento de quem o fez e passa a ter como objetivo chegar ao maior número possível de pessoas”, afirma Clayton. “É uma forma de expandir esse Sertão que está presente dentro da gente e que, muitas vezes, precisamos redescobrir”, conclui.
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