Alceu Valença chega aos 80: Conheça 8 facetas do pernambucano que marcam sua obra
No aniversário de 80 anos de Alceu Valença, o Diario reúne oito tópicos para compreender a dimensão artística de um dos maiores nomes da música brasileira
No dia 1º de julho de 1946, a população de pouco mais de 5 mil habitantes de São Bento do Una aumentava discretamente com a chegada do seu mais novo cidadão, Alceu Paiva Valença. Local e universal como nenhum outro, o garoto do Agreste cresceria para colocar sua terra natal em sintonia direta com o mundo, passando por Garanhuns, Olinda, Recife e a Europa através da sua arte. Mas a genialidade resultante de toda essa história é complexa demais para empilhar simples adjetivos. Por isso, para festejar os seus 80 anos nesta terça-feira, o Diario preparou um roteiro especial com oito tópicos que ajudam a explicar as diferentes facetas de Alceu.
Influências do interior
As raízes musicais de Alceu Valença foram fincadas em São Bento do Una, onde cresceu imerso na cultura popular. Na infância, dividia-se entre dois mundos: na casa do avô Adalberto, era fascinado com a modernidade da radiola que tocava Luiz Gonzaga e Nelson Gonçalves; já na fazenda do avô Orestes, um violeiro e poeta, mergulhava nos saraus e na tradição oral. "Já naquela época, quando eu cantava Luiz Gonzaga, me diziam ‘menino, isso é coisa de velho, você é tão novo para gostar dessas coisas”, recordou ao Diario em 2016. Alceu também cresceu atento às feiras locais, onde aprendeu a arte do aboio e se inspirou nos repentistas que via cantar. Além disso, o rigor de sua avó Adélia com a gramática consolidou a precisão literária que norteia a sua produção artística.
Era dos festivais
O espírito competitivo e libertário dos festivais sempre acompanhou os passos de Alceu. A consagração em escala nacional começou a se desenhar em 1969, quando ele participou do Festival Internacional da Canção (FIC), no Rio de Janeiro. Diante de um Maracanãzinho lotado, ele arrancou aplausos calorosos com "Acalanto para Isabela", que foi regida pelo maestro Clóvis Pereira. Já no Festival Abertura, promovido pela TV Globo em 1975, Alceu subiu ao palco para defender a emblemática “Vou Danado pra Catende”. A apresentação foi tão intensa que o júri, incapaz de categorizar aquela mistura de vanguarda e tradição, criou um prêmio especial de "Pesquisa”. Além de abrir as portas das rádios de todo o país, aquela performance lhe rendeu, por parte da crítica, a alcunha de o "Bobo da Corte do Ano 2000".
Parcerias
O espírito coletivo sempre guiou a carreira de Alceu Valença através de parcerias marcantes. A mais emblemática delas foi com Geraldo Azevedo, seu parceiro mais constante e “irmão” de vida, com quem dividiu o álbum de estreia "Quadrafônico" (1972) e compôs hinos como "Talismã”. Na década de 1990, Alceu foi o elo que viabilizou O Grande Encontro, projeto histórico ao lado de Geraldo, Elba Ramalho e Zé Ramalho, que alcançou uma popularidade comparada à dos Beatles em versão brasileira.
Também, destacam-se colaborações com Paulo Rafael, Jackson do Pandeiro e Naná Vasconcelos, além do projeto Asas da América, idealizado por Carlos Fernando, que uniu grandes nomes da MPB em torno do frevo. Mais recentemente, sua obra ganhou roupagem sinfônica em “Valencianas”, ao lado da Orquestra Ouro Preto, mostrando que sua música continua a se expandir através do diálogo com outros universos.
Multiartista
A mente inquieta de Alceu Valença nunca se acomodou apenas na música. Sua trajetória transbordou cedo para o cinema, em 1974, quando estreou como ator no musical “A Noite do Espantalho”, de Sérgio Ricardo. “Sua participação é marcante em todos os momentos da fita. Sérgio Ricardo deixou que ele ficasse à vontade e isso assegurou-lhe indiscutível performance no papel do espantalho”, relatou o Diario na época. Alceu voltou às telonas em 1985 com o drama político “Patriamada”, filmado por Tizuka Yamasaki, em que contracenou ao lado de estrelas como Débora Bloch, Walmor Chagas, Lilian Lemmertz e Ewerton de Castro.
Em 2014, ele assumiu o comando das câmeras e do roteiro com o aclamado longa “A Luneta do Tempo”, cuja história foi desenvolvida inteiramente em versos. Trazendo Irandhir Santos e Hermila Guedes no elenco, o longa saiu consagrado do Festival de Cinema de Gramado com dois Kikitos de Ouro. A estrutura poética do filme funciona como um espelho de sua literatura, considerada por ele a raiz de todas as suas artes. Essa faceta de escritor foi coroada com o lançamento do livro “O Poeta da Madrugada”, que reúne escritos produzidos por Alceu entre 1967 e 2014. "Roteiros de cinema, crônicas, canções… Vou fazendo tudo o que a imaginação e o tempo me permitirem", disse o cantor, escritor… e muito mais.
Viajante global
A trajetória de Alceu Valença é guiada por um "espírito andarilho" que traçou suas rotas de acordo com o tempo. Esse roteiro itinerante começou a ganhar corpo em Garanhuns, onde viveu até se mudar para o Recife aos 10 anos. Na capital, o artista consolidou sua formação acadêmica em Direito e iniciou suas pesquisas sobre o folclore. Após ser detido brevemente pela Ditadura Militar durante celebrações estudantis, Alceu partiu rumo aos Estados Unidos como estudante de Harvard.
Lá, com a verve artística aflorada, chamou atenção dos hippies da geração Woodstock e da imprensa local. Munido dessa bagagem, Alceu buscou o cenário fonográfico do Rio de Janeiro nos anos 1970, onde ganhou projeção nacional e estabeleceu parcerias marcantes. Dali para se apaixonar por Olinda foi um salto natural, transformando as ladeiras no templo de sua folia. Ele se internacionalizou ainda mais nas décadas de 1970 e 1980, no momento em que a ditadura o levou a descobrir a Europa, fixando bases na Holanda, França e Suíça. “Nossos ritmos estão pelo mundo. A música encurtou as distâncias para mim”, conta.
Alter egos
Os palcos são pequenos para conter o espírito lúdico de Alceu Valença, que se disfarça de alter egos imprevisíveis. Sua esposa, Yanê Montenegro, já revelou que Alceu costuma acordar inspirado a se fantasiar de personagens como Maurício de Nassau, Pedro Álvares Cabral, piratas e mosqueteiros. Certa vez, trajado de toureiro, passou horas conversando em um "espanhol inventado”. Essa propensão ao teatro também dialoga com sua obra, a exemplo de quando encarnou Dom Quixote no carnaval de 2012 ou se vestiu de Lampião para divulgar o longa “A Luneta do Tempo. ”Eu não escondo nada. Mostro minhas caretas, minhas bobagens, meu ridículo... Assumo tudo”, falou Alceu ao Diario em 1975.
Da negação ao ícone do frevo
A transformação de Alceu Valença em um ícone inquestionável do frevo foi fruto de resistência e de um paradoxo curioso. Ainda aos seis anos, ele teve que digerir o veredito do avô paterno de que "não levava jeito e não tinha ritmo". A desconfiança sobre sua veia festiva o acompanhou por muito tempo. Mesmo após conquistar o sucesso nacional, o artista chegou a declarar em entrevista ao Diario: "Acho que não tenho uma figura carnavalesca". Registros da época indicam até que ele recusava os pedidos do público para cantar frevo.
No entanto, o divisor de águas ocorreu através do projeto “Asas da América” (1979), idealizado por Carlos Fernando, que visava modernizar e resgatar o frevo tradicional. “Eu jamais havia gravado frevos até Carlos Fernando me convidar para o Asas [da América]. Gravei, por exemplo, ‘O Homem da Meia-Noite’. Isso me marcou muito”, explicou. Hoje, ele não apenas encontrou sua "figura carnavalesca", mas tornou-se a própria alma da festa
Renovação musical
O tempo não diminui o ritmo de Alceu Valença, definido por quem o acompanha de perto como um verdadeiro "dínamo em movimento". Isso ficou nítido em experimentos recentes como “Valencianas”, que deu contornos eruditos ao seu repertório pop, e “Vivo! Revivo!”, em que trouxe releituras de suas canções psicodélicas da década de 1970. Até mesmo sua entrada definitiva no carnaval foi pautada pela renovação com o projeto Asas da América. “Não estou sabendo o que vem depois. Eu quero é assumir meu ser definitivo”, afirmou o artista há 41 anos. O depois chegou, imponente e festivo, como o próprio Alceu.
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