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Aos 75 anos, Terezinha do Acordeon é uma das pioneiras do forró e defende a tradição: "Precisamos resistir"

Terezinha do Acordeon, referência para gerações de mulheres no forró, cobra ações concretas para garantir a renovação e a continuidade do gênero

Por Allan Lopes

Patrimônio Vivo de Pernambuco, Terezinha do Acordeon integra mobilização que busca o reconhecimento do forró pé de serra como Patrimônio Imaterial da Humanidade

Meses após o Brasil formalizar o pedido para que a Unesco reconheça o forró tradicional como Patrimônio Imaterial da Humanidade, o passaporte do ritmo rumo ao título não está somente nos gabinetes, mas nas mãos de quem o defende por meio da oralidade, do aprendizado coletivo e da preservação dos repertórios tradicionais.

Nessa ampla rede de resistência, brilha o protagonismo de Terezinha do Acordeon, que foi eleita Patrimônio Vivo de Pernambuco no ano passado e traz a força do seu pioneirismo feminino como um dos argumentos mais fortes do pleito internacional.

A sanfoneira atua na legitimação do dossiê brasileiro enviado no final de março, transformando sua história, apresentações e projetos em provas vivas de que o gênero permanece autêntico e pulsante.

Para Terezinha, é fundamental oficializar a soberania cultural que o Nordeste já exerce no dia a dia como forma de proteger o forró pé de serra contra o esquecimento e a descaracterização. “Costumo dizer que é como ter um filho: você sabe que ele é seu, mas precisa ir ao cartório registrar. O forró é nosso, sem nenhuma dúvida, mas é preciso documentar isso”, diz a artista em entrevista ao Diario.

Caso a candidatura seja aprovada, o ritmo se somará às dez expressões brasileiras já inscritas na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, entre elas o frevo, que conquistou o título em 2012.

Diante disso, Terezinha faz um alerta sobre a necessidade de ações práticas para além do reconhecimento. “Não adianta ficar só no título maravilhoso de Patrimônio Imaterial. O importante é que isso sirva para abrir espaço para mim e para os jovens talentos que estão chegando”, comenta. A tramitação do processo costuma durar cerca de um ano a partir da entrega do dossiê.

A vocação de Terezinha do Acordeon para defender a cultura popular confunde-se com a sua própria biografia. Natural de Salgueiro, no Sertão do estado, ela conheceu Luiz Gonzaga aos 7 anos e dominou o instrumento aos 12.

Hoje, aos 75, faz questão de se apresentar como a primeira sanfoneira do Nordeste, o que a faz ser reverenciada como a “mãe” de diversas gerações de mulheres que cresceram seguindo seus passos. “Eu só queria tocar meu forró e abrir espaço para mim em um universo totalmente masculinizado”, afirma.

Apesar de reconhecer os avanços na equidade de gênero, a veterana pontua que a caminhada está longe do fim. “Ainda fica devendo muito. Tem muita gente boa que não tem palco para se apresentar”, lamenta.

A queixa sobre a exclusão de novos talentos estende-se à mercantilização dos festejos juninos. “A gente fica muito triste porque o São João tradicional está se acabando”, dispara a artista. Para ela, a concorrência desleal diante de gêneros comerciais torna-se uma batalha diária que exige a persistência dos músicos da velha e da nova guarda. “Sempre digo aos meus colegas que precisamos resistir. Nordestino é teimoso e tem que continuar nessa teimosia”, completa a sanfoneira.

Nesta terça-feira (23), a partir das 19h30, ela sobe ao palco do Sítio Trindade, no Recife, com um repertório feito para o público dançar, resgatando clássicos como “Um Amor Assim” e “Forró de Dois”. “O que eu preparo é sempre o forró tradicional. É isso que eu faço, é disso que eu gosto e é por isso que a gente tem que batalhar para permanecer”, destaca a musicista.

A agenda junina na capital pernambucana segue até o próximo domingo (28), quando ela se apresenta no polo da Avenida Rio Branco, a partir das 18h30.