Conheça Mãe Nena, costureira homenageada do São João do Recife que veste quadrilhas há 30 anos
Aos 73 anos, Mãe Nena celebra uma trajetória de mais de três décadas dedicada aos figurinos das quadrilhas juninas e recebe homenagem no São João do Recife 2026
Meses antes de qualquer fogueira ser acesa, o São João já respira nos ateliês de costura, onde linhas, fitas e retalhos consagram a força visual da festa. O figurino caipira, indispensável para vestir a alma da quadrilha, exige um esforço que atravessa madrugadas e une gerações.
Exemplo vivo dessa dedicação é Maria Lúcia Nascimento, a Mãe Nena. Com uma vida inteira dedicada à arte de vestir a cultura popular, a costureira de mão cheia foi merecidamente escolhida como uma das grandes personalidades homenageadas do São João do Recife em 2026.
Se hoje Mãe Nena é festejada aos 73 anos, é porque sua trajetória foi pavimentada pelo orgulho de vestir as suas próprias filhas na avenida. O divisor de águas foi o primeiro ano de sua caçula, Ana Cleide, como noiva principal em uma quadrilha, em 1996.
Superando uma crise financeira com o apoio do marido, ela preparou um vestido que coroou uma noite memorável. “Ver minha filha na avenida, sendo aplaudida e escolhida como a melhor noiva, me deu uma alegria muito grande. Depois daquele momento, não parei mais”, explica em entrevista ao Diario.
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Embora a consagração tenha vindo com o São João, a intimidade com as linhas e tecidos a acompanha desde sempre. Ainda criança, ela transformava retalhos em roupas para bonecas durante as brincadeiras com as amigas. Aos 12 anos, a habilidade precoce já permitia que fizesse, totalmente à mão, as roupas da mãe e das irmãs.
Após ganhar uma máquina de costura usada, passou a atender a vizinhança. “Eu fazia de tudo: vestido, calça, short e roupa de criança. O povo gostava, e fui seguindo”, conta Mãe Nena. O rumo de sua carreira mudou quando uma quadrilha junina se formou nas proximidades de casa, mobilizando toda a sua família na organização do grupo.
Inicialmente, Mãe Nena costurou para uma ala mirim integrada por suas filhas e, com o tempo, seu talento ganhou as grandes quadrilhas do cenário recifense. Foram 30 anos dedicados à confecção dos figurinos da Origem Nordestina e outras 22 temporadas à frente da Junina Tradição, criada pelo seu marido e onde continua costurando sua história até hoje.
No começo, ela resistiu à ideia de participar, mas eventualmente cedeu. “A Tradição é como uma família. Sou muito bem recebida, e existe um respeito muito grande por mim”, celebra. Presente em todas as etapas e ensaios, a costureira comanda a produção do ateliê familiar, cercada por três de suas filhas e pelo bisneto dançarino, Ítalo.
Entre março e abril, o relógio dos festejos juninos dita o ritmo na residência de Mãe Nena, no Morro da Conceição. O trabalho é contra o tempo, uma vez que as peças devem ser entregues até 20 dias antes do lançamento oficial. Para dar conta da alta demanda, as filhas somam forças à matriarca no ateliê doméstico, onde quatro máquinas operam em ritmo acelerado.
“Na última semana, o corre-corre é muito grande. A gente passa dia e noite trabalhando na máquina, porque, de outro jeito, não consegue terminar todas as roupas dentro do prazo”, afirma ela. A responsabilidade de Mãe Nena é, sobretudo, o guarda-roupa dos mais de 40 rapazes que se apresentam na Junina Tradição.
Além da beleza visual, os trajes juninos demandam uma engenharia de resistência. Os tecidos precisam ser altamente resistentes, já que o ritmo frenético da dança faz com que os componentes puxem muito as roupas, especialmente as saias rodadas.
Para garantir que nenhum imprevisto aconteça, Mãe Nena reforça a costura e capricha no acabamento. “Se alguém quer a roupa mais folgada, ajustamos; se precisa ficar mais apertada, também resolvemos. Só então faço a entrega das peças. Graças a Deus, costuma dar tudo certo”, relata.
A merecida homenagem prestada pela prefeitura surpreendeu a costureira, que confessa não ser muito chegada a cerimônias por preferir a rotina discreta em casa. Ainda assim, deixou a timidez de lado para aceitar a honraria. “Foi um momento bonito, ao lado de outros profissionais que também dedicam a vida às quadrilhas juninas. Fiquei muito feliz”, afirma.
Para o futuro, a meta de Mãe Nena é manter a consistência em seu trabalho. “Enquanto eu tiver saúde e vida, vou costurar para a minha quadrilha. Gosto desse trabalho, gosto de acompanhar minha família e gosto de ver a Tradição na rua”, derrete-se.