Incêndio da UFPE destruiu material irrecuperável de pesquisas sobre Chikungunya e COVID-19
Pesquisadora revela que foram perdidas amostras coletadas ao longo de três anos de mais de 800 pacientes, incluindo o maior biorrepositório de Chikungunya do Brasil
O antigo prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (DINE), na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pegou fogo nesta quarta-feira (7). O local abrigava diversas pesquisas da área da saúde que envolviam amostras de materiais orgânicos coletados de pacientes com Chikungunya e COVID-19, além de tipos diferentes de câncer. As causas do incêndio ainda estão sendo investigadas pelo Corpo de Bombeiros e pela Polícia Federal.
O maior biorrepositório de Chikungunya do Brasil foi perdido no incêndio, segundo a pesquisadora e pós-doutoranda Jamile Tamiele, que esteve presente no novo edifício do Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapéutica (NUPIT) e falou ao Diario sobre o ocorrido. Ela trabalhava no prédio incendiado.
"Fiquei sabendo do incêndio através de um grupo interno que temos no WhatsApp. Algumas pessoas do próprio grupo de pesquisa acompanharam o início do fogo, avisaram-nos e, a partir disso, começamos a acompanhar o que estava acontecendo em tempo real", relatou.
Sobre a pesquisa desenvolvida
Ela comenta sobre a quantidade de amostras de sua pesquisa que foram queimadas durante o incêndio. "Sou pós-doutoranda na etapa um da Rede de Pesquisa Clínica e Aplicada em Chikungunya. Realizávamos uma pesquisa na qual recrutamos 886 pacientes, que foram acompanhados por três anos. Todas as amostras do biobanco formado por esse estudo estavam no prédio que foi incendiado", ressalta.
"O objetivo da nossa pesquisa era compreender a história natural da doença e descobrir estratégias terapêuticas para evitar que a população atingida pelo Chikungunya evoluísse para a fase crônica. Estávamos avançando para descobrir quais aspectos biológicos, imunológicos e clínicos poderiam prever essa cronicidade. Há muitos estudos em andamento, mas grande parte do que precisávamos fazer ainda dependia dessas amostras", comenta.
Estimativa das perdas
A pós-doutoranda fala que a perda das amostras é 'inéstimavel', pois não podem ser recuperadas. "Em termos subjetivos, a perda é inestimável, pois as amostras biológicas não podem ser recuperadas. Embora possamos correr atrás e comprar novos equipamentos, as amostras têm um valor inestimável", diz.
"Tínhamos amostras da pandemia de COVID-19 e do último surto de Chikungunya, que foi muito forte aqui. Essas amostras não voltarão; não esperamos que ocorra outro surto e sempre torcemos pela saúde da população, mas perdemos essa riqueza biológica. Além de Chikungunya e COVID, também tínhamos amostras de diversos tipos de câncer de pacientes, pois testamos fármacos contra a doença", reforça.
Ela ainda destaca que mais de 200 mil alíquotas de pesquisa foram perdidas em decorrência do fogo. "Em números exatos, não sei afirmar com precisão o total, mas perdemos mais de 85 mil alíquotas apenas do projeto de Chikungunya, o que inclui soro, urina, sangue total e PBMC. Como temos cerca de dez linhas de pesquisa ativas em nosso grupo, o total de perdas certamente ultrapassa 200 mil alíquotas", comenta.
Impacto no avanço das pesquisas
"Em relação ao Chikungunya, perdemos o biorrepositório de uma pesquisa multicêntrica, que era o maior biorrepositório de Chikungunya do Brasil", lamenta Jamile. "Agora, só poderemos trabalhar com os dados que já havíamos adquirido, como os aspectos imunológicos e clínicos. Não consigo estimar o impacto total na pesquisa porque perdemos toda a nossa matéria-prima, o que inclui tanto as amostras quanto os insumos utilizados para realizar os testes", reforça.
Por fim, a pesquisadora ressalta que também trabalhava com doenças raras no local. "Em relação aos cânceres, lamento muito porque trabalhamos com tipos altamente letais, como câncer de pâncreas, hepático e colangiocarcinoma. Infelizmente, alguns desses pacientes já foram a óbito. Também trabalhamos com doenças raras, nas quais, como o próprio nome diz, é muito difícil encontrar pacientes. Como o ocorrido é recente, ainda não conseguimos estimar o prejuízo em termos de tempo e o real impacto em nossas pesquisas", conclui.