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Mulher denuncia ter sido envenenada com mercúrio por aluna de projeto social

Exames demonstraram um alta presença de mercúrio no corpo da professora. Vítima aguarda desfecho de investigação há mais de um ano

Por Isabella Fabricio

Artesã precisa de muletas e ajuda para se locomover

Uma mulher de 43 anos, que afirma ter sido vítima de envenenamento por mercúrio, aguarda há mais de um ano pelo avanço das investigações. Ela denuncia ter sido envenenada por uma de suas alunas de artesanato durante um projeto social do Hospital Oswaldo Cruz, no Recife, onde atuava como professora voluntária. Segundo o relato da vítima, pequenas esferas de mercúrio eram colocadas dentro da sua garrafa de água.

A mulher, que prefere não divulgar a identidade, afirma que atualmente depende do uso de muletas, perdeu força nas mãos e apresenta sequelas na pele.

“Meus filhos eram assistidos pelo GAC (Grupo de Ajuda à Criança Carente com Câncer). Os dois tinham epilepsia e faziam acompanhamento na unidade. Lá conheci o projeto e quis retribuir o carinho recebido pelos meus filhos”, contou.

Há quase dois anos, a artesã, que é portadora de fibromialgia, começou a apresentar perda de equilíbrio e dificuldades para urinar. “Pensei que os sintomas da minha doença estavam piorando. Achei estranho porque minha fibromialgia sempre foi controlada”, relatou.

Ela conta que, durante um ano, medicamentos foram ajustados, as sessões de fisioterapia foram intensificadas e, mesmo assim, os sintomas continuaram aumentando. “Comecei a ter cãibras, espasmos e feridas que foram surgindo pelo corpo”, afirmou.

Segundo a vítima, a suspeita de envenamento surgiu cerca de um ano após o agravamento dos sintomas. “Ao chegar em casa, fui beber o restante da água que estava na garrafinha que levava para as aulas de artesanato e senti umas ‘bolinhas’ no líquido. Quando tentei cuspir, vi que eram bolinhas prateadas e guardei”, contou.

A decisão de instalar uma câmera, segundo ela, ocorreu após perder a garrafa de água. “Ao chegar sem minha garrafa, uma das alunas fez várias perguntas: por que eu estava sem a garrafa, se eu não iria comprar outra, se eu ia beber água. Achei a preocupação dela estranha”, disse.

Uma semana depois, a mesma aluna teria presenteado a professora com uma nova garrafa. “A partir daí, acendeu um alerta. No dia seguinte, deixei meu celular ligado e fui ao banheiro. Quando voltei e vi as imagens, percebi ela colocando algo dentro da minha água”, relatou.

No mesmo dia, a professora procurou a Delegacia da Boa Vista, realizou exames no Instituto de Medicina Legal (IML) e entregou a garrafa para perícia. “No dia seguinte, comprei uma garrafa idêntica. Cheguei ao projeto social bebendo água, coloquei a câmera para filmar e fui ao banheiro. Quando vi que ela tinha colocado algo novamente, não toquei mais na garrafa e liguei para o 190”, contou.

Segundo a vítima, a Polícia Militar foi até o hospital e encaminhou as duas mulheres para a Central de Plantões. A suspeita negou ter colocado qualquer substância na bebida.

Na ocasião, a filha da suspeita teria ofendido a professora, que também registrou um boletim de ocorrência contra ela. “Todo o processo se arrasta há mais de um ano. É muito desgastante”, lamentou.

Laudo do IML

O exame toxicológico realizado pela perícia do IML apontou a presença de mercúrio no sangue e na urina da vítima, em níveis acima dos considerados esperados para pessoas sem exposição ao metal. De acordo com o laudo, foram identificados 21,0 µg/L de mercúrio no sangue e 5,8 µg/L na urina.

Segundo os peritos, como o mercúrio não possui função no organismo humano e os valores encontrados estavam acima do parâmetro de referência (inferior a 5 µg/L), o resultado confirma a intoxicação por mercúrio.

Em um laudo médico apresentado pela vítima, o profissional responsável aponta que a intoxicação por mercúrio pode causar diversos problemas de saúde, incluindo alterações neurológicas, renais e cardíacas. O documento também relaciona os sintomas apresentados pela paciente à exposição ao metal.

Consulta médica

Para dar continuidade ao inquérito, foi solicitado à vítima um exame com um neurocirurgião. A artesã entrou com um pedido de tutela antecipada de urgência para conseguir o agendamento da consulta, diante do quadro clínico apresentado.

De acordo com o advogado da vítima, Wilgberto Reis, a Polícia Civil solicitou um parecer de um neurocirurgião para avaliar se houve complicações neurológicas relacionadas à intoxicação por mercúrio. 

“Estamos cobrando das autoridades competentes agilidade no processo, visto que já tem mais de um ano que foi registrada a ocorrência”. Ele salienta que a audiência por xingamentos feitos pela filha da acusada foi realizada semana passada e um acordo foi feito. “Mas a audiência principal que diz respeito à saúde física e mental da minha cliente está com toda essa demora”.