Parceria que prevê investimento de R$ 300 milhões valoriza reciclagem e catadores no Recife
Projeto prevê investimentos em até sete anos para ampliar a reciclagem, fortalecer cooperativas, valorizar catadores e reduzir a poluição por plásticos
A história de quem transformou resíduos em sustento, dignidade e futuro marcou a assinatura da parceria internacional que destinará até R$ 300 milhões ao Recife para fortalecer a economia circular e combater a poluição por plásticos. “Foi do material reciclado que eu criei meus filhos”, resumiu a catadora e representante da Cooperativa Recicla Torre, Alexsandra Maria, durante a cerimônia realizada na manhã desta quarta-feira (1º), no Comvida Vila do Papel, no bairro de São José, área central do Recife.
"Hoje saber que vai existir uma central onde os catadores avulsos também serão remunerados pelo material que levarem é maravilhoso. O lixo que sai das ruas deixa de contaminar o meio ambiente e ainda gera renda para quem mais precisa”, afirmou Alexsandra, que atua há 17 anos na função.
Os recursos deverão ser destinados à ampliação da coleta seletiva, fortalecimento da infraestrutura das cooperativas de reciclagem, valorização profissional dos catadores, modernização da cadeia da reciclagem e redução da quantidade de resíduos, especialmente plásticos, descartados de forma irregular em rios, canais e manguezais.
O acordo foi firmado entre a prefeitura da capital Pernambucana, a Fundação Ellen MacArthur e a Clean Rivers, com participação de representantes do Governo Federal e da iniciativa privada. Durante a programação, também foi entregue a 17ª Ecoestação do Recife, ampliando a rede municipal de pontos de entrega voluntária de resíduos.
Projeto começa com planejamento
Embora o investimento possa chegar a R$ 300 milhões, a aplicação dos recursos dependerá da elaboração de um plano estratégico que começa a ser desenvolvido imediatamente após a assinatura da parceria. A diretora da Fundação Ellen MacArthur para a América Latina, Luísa Santiago, explicou que os próximos nove meses serão dedicados à construção desse diagnóstico.
“Hoje iniciamos uma fase de planejamento. Vamos construir, junto com a Prefeitura do Recife, um plano de transformação da cidade. A partir de 2027 começaremos a executar esse financiamento, criando um sistema mais robusto de coleta, reciclagem e economia circular.”
Segundo ela, o modelo será financiado por empresas e instituições internacionais interessadas em reduzir a poluição plástica.n“A ideia é estruturar um financiamento inovador que ainda não existe no Brasil e que permita investir em infraestrutura, operação, cooperativas e geração de renda para catadores.”
Reciclagem como transformação
Muito além do que foi apresentado durante o evento, a cerimônia foi marcada pelos relatos dos trabalhadores que vivem da reciclagem.
Representante da Cooperativa Recicla Torre, Alexsandra explicou que a unidade, existente há duas décadas, passou recentemente por uma ampla reestruturação, recebendo esteira de separação, prensa, balança, equipamentos de proteção individual e melhorias estruturais. Segundo ela, o impacto foi imediato.
“Antes, nós recebíamos cerca de R$400 ou R$500 por mês. Hoje a renda média chegou a aproximadamente R$2 mil. Eu consegui comprar minha casa própria com reciclagem. Para muitos, lixo é lixo. Para mim, o lixo é luxo.”
A catadora também destacou que a atividade deixou de ser apenas um trabalho de coleta para assumir um papel de educação ambiental. “Hoje a gente entra em condomínios, empresas, faz palestras e mostra que o material reciclável não é lixo. Nós não temos um planeta B. Precisamos cuidar do planeta que temos.”
Outro depoimento foi do catador Maurício Nunes da Silva, de 40 anos, que trabalha com reciclagem há 10 anos. Segundo ele, os investimentos realizados nas cooperativas mudaram a realidade de centenas de trabalhadores.
“O catador hoje está conseguindo dignidade. Está sendo valorizado e reconhecido. Antes eu ganhava muito pouco trabalhando sozinho. Hoje, na cooperativa, consigo tirar entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil por mês. Em períodos de grandes eventos esse valor ultrapassa R$ 2 mil. O mais importante é o reconhecimento da pessoa humana.”
Resíduo deixa de ser lixo e passa a ser matéria-prima
Para a secretária nacional de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Julia Cruz, o projeto também fortalece a indústria brasileira ao transformar resíduos em matéria-prima.
“As pessoas enxergam lixo, mas ali existem insumos extremamente valiosos para a indústria. Alumínio, plástico, cobre, ouro, níquel e minerais críticos podem ser recuperados a partir dos resíduos eletroeletrônicos. Isso gera renda para os catadores e fortalece a indústria nacional.”
Recife foi escolhido como cidade-modelo
O secretário nacional de Meio Ambiente Urbano, Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Adalberto Maluf, explicou que a iniciativa nasceu de negociações internacionais iniciadas há cerca de três anos e que o Recife foi selecionado por já possuir políticas públicas voltadas à reciclagem.
“Recife investiu nos últimos anos em infraestrutura de coleta, triagem e inclusão socioprodutiva dos catadores. Por isso entendemos que a cidade reúne as condições necessárias para mostrar que é possível aumentar significativamente a reciclagem quando setor público, setor privado, cooperativas e sociedade trabalham juntos.”
Segundo Maluf, além do impacto ambiental, o projeto pretende servir de modelo para outras cidades brasileiras. “Estamos falando de um projeto em escala global que pode transformar a economia circular no Brasil, aumentar a renda dos catadores e reduzir a quantidade de resíduos que chegam aos rios e ao oceano.”
Prefeitura aposta em referência internacional
O prefeito Victor Marques afirmou que a assinatura representa apenas o início de um trabalho que deverá se estender pelos próximos anos. Segundo ele, o Recife foi escolhido por já desenvolver ações voltadas à coleta seletiva, fortalecimento das cooperativas e ampliação da infraestrutura de reciclagem.
“O Recife foi escolhido porque está apontando na direção correta. Ainda há muito a fazer, mas estamos construindo uma política consistente de gestão de resíduos.” O prefeito ressaltou que os recursos dependerão do desempenho do município durante a elaboração e execução do plano de trabalho.
“Hoje celebramos um compromisso. Agora começa o trabalho para transformar esse compromisso em realidade. Se fizermos nossa parte, poderemos receber até R$300 milhões para ampliar a coleta seletiva, fortalecer cooperativas, melhorar a infraestrutura e fazer do Recife uma referência para o Brasil.”
Victor Marques também destacou que parte dos resultados deve começar a aparecer ainda este ano, com ações de capacitação e melhorias em cooperativas, enquanto a execução completa do programa poderá durar até sete anos.
“O desafio da gestão de resíduos não é apenas do poder público. Cada cidadão também participa quando separa corretamente o lixo, evita o descarte irregular e contribui para que esse material gera renda para centenas de famílias e deixe de poluir nossos rios e manguezais.”
Confira onde as Ecoestações estão distribuídas
Ecoestação Cohab - Avenida Rio Largo, 375, bairro da Cohab
Ecoestação Ibura - Rua Rio Tapado, 39, bairro do Ibura
Ecoestação Totó - Travessa Onze de Agosto, no bairro do Curado
Ecoestação Barbalho - Est. do Barbalho, bairro da Iputinga (ao lado do casarão do barbalho)
Ecoestação Arruda - Av. Professor José dos Anjos, 36, no Arruda
Ecoestação Agamenon - Avenida Agamenon Magalhães, 1956, no bairro de Santo Amaro
Ecoestação Imbiribeira- Viaduto Presidente Tancredo Neves, na Imbiribeira, Recife - PE, 51190-505
Ecoestação Torre - Rua Ciclovia República da Argélia, 478, na Torre
Ecoestação Torrões - Avenida Maestro Jones Johnson, 1001, no bairro dos Torrões
Ecoestação Via Mangue - Rua Manoel de Brito, 871, no Pina
Ecoestação Macaxeira - Avenida da Recuperação, no Córrego do Jenipapo (giradouro próximo à Av. Norte)
Ecoestação Jayme da Fonte - Avenida Doutor Jayme da Fonte, ao lado da rua caramuru
Ecoestação Nova Descoberta - Rua Nova Descoberta, 1062, em Nova Descoberta
Ecoestação Cais de Santa Rita - Cais Santa Rita, no bairro de São José
Ecoestação Jiquía - Avenida General San Martin. 802, Jiquiá
Ecoestação Santana - Rua Henrique Machado. 112-126, em Santana