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RECICLAGEM

"Lixo para gente é dinheiro, é oportunidade", diz catadora do Recife destaque em livro

Livro "Mulheres que Reciclam o Futuro", que será lançado nesta quarta (20), em Brasília, conta as histórias de 25 mulheres catadoras de lixo, entre elas Roberta Cardoso, do Recife

Nicolle Gomes

Publicado: 19/05/2026 às 11:03

Roberta é catadora desde os 7 anos no Recife/RAFAEL VIEIRA/DP

Roberta é catadora desde os 7 anos no Recife (RAFAEL VIEIRA/DP)

Roberta Cardoso, de 52 anos, trabalha com reciclagem desde os 7. A história dela é uma entre 25 catadoras de diferentes estados do Brasil que estarão no livro “Mulheres que Reciclam o Futuro”, que será lançado nesta quarta (20), em Brasília

“O que para as pessoas é ‘lixo’, para nós é oportunidade.” É assim que Roberta Cardoso, de 52 anos, define o trabalho dos catadores de materiais recicláveis Há 45 anos ela trabalha com reciclagem, numa trajetória marcada por determinação. Tudo começou aos 7 anos, na comunidade de Caranguejo Tabaiares, na Zona Oeste do Recife.

Filha de um pescador com uma também catadora, Roberta conta ao Diario de Pernambuco que aprendeu o ofício com a mãe.

“Comecei a catar com 7 anos de idade. Nisso, fui com minha mãe; minha mãe me botava na carroça. Tinha a época em que eu estava no colégio; ela me botava no colégio e, quando eu largava, ela me pegava lá. Nisso, eu fui vivendo”, relembra.

Aos 19 anos, a realidade impôs uma pausa nos estudos. Daí para frente, a relação com a reciclagem só estreitou.

“Eu tive que me afastar do colégio porque meu pai e minha mãe adoeceram. Aos 19 anos, perdi o interesse em estudar e terminar os estudos. Foquei só em trabalhar para ajudar meus pais acamados. E assim segui na reciclagem, não parei mais”, narra.

Em 2006, após dois anos de reuniões e estudos na comunidade, Roberta ajudou a fundar a Cooperativa Pró Recife, situada na Imbiribeira, Zona Sul da capital. O projeto completa duas décadas neste ano.

Nesse período de dedicação ao ofício, a reciclagem foi fundamental no sustento e transformação para ela e a família, ela diz. Foram anos se dividindo entre a criação dos filhos e o trabalho intenso, que muitas vezes tomava mais de 12 horas por dia.

“É o ganha-pão da minha família. Criei sete filhos do material reciclado. Graças a Deus, nunca faltou. Ou pouco ou muito, mas nunca falta. Deus abre as portas, o caminho”, afirma.

Ela acrescenta que o trabalho na reciclagem se consolidou como herança familiar. Da mãe para ela, e agora, para dois de seus filhos, que atualmente trabalham diretamente na cooperativa. “Fico muito contente de tê-los ao meu lado, me ajudando”, conta, com um sorriso no rosto.

A cooperativa é um projeto que colocou Roberta no caminho de representar a categoria no Recife e no Estado. Neste período, o trabalho foi constante. “A luta não para”, acrescenta, pontuando os desafios do ofício.

“O que me dá forças para eu não desistir é meu filho autista, de 8 anos. Eu tenho que trabalhar para não faltar nada para ele. Além do meu filho, também penso nos meus companheiros, que precisam levar o pão de cada dia para suas casas. Eu olho para as pessoas e tenho que lutar. Estou lutando por todos, porque, quando eu saio para buscar alguma coisa, algum recurso, não é só para minha cooperativa, é para as 12 de Recife que tem”, comenta.

Segundo Roberta, alguns dos desafios de trabalhar com reciclagem são a invisibilização e a falta de reconhecimento.

“Lixo para gente é dinheiro. Há quem diga ‘joga no lixo’, e a gente vai e tira do lixo. Não é lixo; para a gente, é renda, é a oportunidade que a gente tem. O catador na rua sustenta aquele material, que não vai para o bueiro, mangue ou praia, e o planeta agradece. Só falta mais as pessoas agradecerem e reconhecerem os catadores”, explica.

O trabalho que preencheu e deu sentido à vida de Roberta deve seguir orientando a missão dela. “Quero seguir (com a reciclagem). Eu não tenho mais sonhos; Deus já me deu tudo. Eu só tenho a agradecer. Eu acho que só deixo a reciclagem depois que eu morrer”, alega, determinada.

Mulheres que reciclam o futuro

Além de ser a protagonista da própria história, Roberta também assume esse papel no livro “Mulheres que Reciclam o Futuro”. Ela é uma entre as 25 reunidas na obra, que será lançada no dia 20 de maio, em Brasília, e destaca temas como sustentabilidade, força feminina e transformação social.

“[O convite] chegou como uma surpresa. Fui chamada para fazer parte da equipe e topei. Indiquei minha amiga Aline, da rede das cooperativas de Brasília, e ela indicou cada uma de cada estado. Conversamos e saímos definindo mulheres guerreiras, lutadoras”, adiciona.

Roberta não esconde o entusiasmo em participar da obra e destaca, ainda, a importância da visibilidade de histórias de mulheres como ela. “Não tenho nem como agradecer pelo apoio às catadoras de materiais reciclados”, finaliza.

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