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Buracos, alagamentos e ratos: comerciantes denunciam abandono no Mercado de Afogados

Equipamento histórico do Recife convive com infraestrutura precária, alagamentos, buracos e reclamações sobre condições do entorno e das áreas internas

Por Cadu Silva

Mercado público de Afogados

O cenário encontrado no Mercado Público de Afogados, na Zona Oeste do Recife, revela que os problemas enfrentados pelos comerciantes vão muito além dos alagamentos registrados durante as chuvas. No entorno do equipamento, buracos, lama, pavimentação deteriorada e dificuldades de acesso fazem parte da rotina de quem trabalha e circula pela região. Dentro do mercado, comerciantes denunciam infiltrações, água invadindo boxes, falta de banheiros para os clientes, estrutura deteriorada, problemas de higiene e sensação de abandono.

Durante visita realizada pela reportagem nesta segunda-feira (29), foi possível encontrar diversos pontos com pavimento danificado ao redor do mercado.

Em alguns trechos, os buracos tomam conta da via e obrigam os motoristas a reduzir a velocidade ou desviar. A lama formada pelas chuvas também dificulta a passagem de pedestres e torna o acesso ao equipamento ainda mais complicado.

Os relatos dos comerciantes apontam que a situação se agravou nos últimos anos e que, apesar das reclamações frequentes, nenhuma solução definitiva foi adotada.

Há 26 anos trabalhando no Mercado de Afogados, a comerciante Patrícia Batista dos Santos, de 45 anos, afirma que nunca presenciou melhorias significativas no entorno do equipamento público.

Segundo ela, a principal mudança observada ao longo das últimas décadas foi o agravamento dos alagamentos.

“Não teve mudança nenhuma. Cada dia está piorando. Antigamente, quando chovia, a água baixava rápido. Depois das obras realizadas na região, ela passou a permanecer acumulada. Só diminui um pouco quando vem um caminhão fazer a sucção, mas basta chover novamente para tudo voltar a alagar.”

Ela relata que a água impede até mesmo a chegada de comerciantes e clientes. “Quem vem de Uber precisa descer no meio do caminho porque o carro não consegue chegar. Os clientes que vêm de carro também deixam de vir porque não têm onde estacionar.”

Patrícia afirma que os alagamentos registrados no último sábado (27) provocaram forte impacto nas vendas.

“Pelos comentários dos próprios comerciantes, cerca de 80% do comércio perdeu movimento naquele dia.”

 

Buracos e lama dificultam circulação

Além da drenagem deficiente, comerciantes afirmam que o estado das vias se deteriorou após intervenções realizadas na região. Eles relatam que os buracos são fechados com operações de tapa-buraco, mas reaparecem sempre que chove.

“O serviço é feito, mas quando vem outra chuva os buracos abrem novamente”, relata Patrícia.

Durante a visita, a reportagem constatou diversos trechos com pavimento comprometido e acúmulo de lama, dificultando tanto a circulação de veículos quanto de pedestres.

Segundo os trabalhadores, a situação afasta consumidores e reduz ainda mais o movimento em um mercado que já enfrenta dificuldades para manter as vendas.

Prejuízo para quem depende do mercado

A dificuldade de acesso tem reflexo direto no faturamento dos comerciantes. Com menos clientes conseguindo chegar ao local, muitos comerciantes relatam queda nas vendas sempre que ocorrem chuvas mais intensas.

Uma comerciante, que não quis se identificar e que atua no mercado há mais de seis anos, afirma que o problema ultrapassa a redução no movimento. Ela conta que perdeu equipamentos depois que a água invadiu seu box.

“Meu freezer fica suspenso porque a água sobe. Mesmo assim perdi o equipamento quando a água atingiu o motor. Eu vendo almoço e bebidas. Não conseguimos trabalhar.”

Segundo ela, muitos consumidores deixaram de frequentar o mercado.

“Ninguém quer colocar o pé naquela água. A clientela caiu muito.”

Dentro do mercado, os problemas também são recorrentes. Outra comerciante que trabalha há quase 30 anos no local e preferiu não ser identificada relata que a água invade diversos boxes sempre que chove.

“Embaixo alaga tudo. A água entra nos boxes e a gente precisa trabalhar no meio da água.”

Ela conta que, para conseguir chegar ao trabalho após o último alagamento, precisou utilizar botas. Mesmo assim, a água entrou no calçado.

“Quando cheguei, lavei os pés com água sanitária e passei álcool 70 por medo de pegar alguma doença.”

Segundo os comerciantes, a água acumulada mistura lixo, lama e esgoto, aumentando a preocupação com doenças. Eles afirmam que é comum encontrar ratos, baratas e outros animais após os alagamentos.

Os problemas não se limitam às chuvas. Os trabalhadores denunciam que o Mercado de Afogados apresenta sinais de deterioração em vários pontos. Entre as reclamações estão infiltrações, teto danificado e risco de queda de partes da estrutura.

“O teto está caindo. A qualquer momento pode acontecer um acidente”, afirma a comerciante.

Outro problema apontado é a falta de banheiros em condições adequadas para atender os clientes.

Segundo ela, a situação faz com que muitas pessoas utilizem áreas externas do mercado para fazer necessidades fisiológicas, agravando ainda mais os problemas de higiene.

Eles também criticam a limpeza do equipamento. “Quando fazem a lavagem, é apenas com água. Não usam produtos de limpeza.”

Falta de segurança aumenta sensação de abandono

Além da infraestrutura precária, comerciantes reclamam da falta de segurança. Segundo os trabalhadores, a insegurança também contribui para afastar consumidores.

“Falta segurança. A gente trabalha praticamente abandonado,” declarou a comerciante.

Ela afirma que os comerciantes convivem diariamente com a sensação de que o mercado foi esquecido pelo poder público. “Ninguém aparece para resolver nada.”

Os comerciantes afirmam que esperam há décadas por uma reforma completa no Mercado de Afogados. Segundo eles, enquanto outros mercados públicos do Recife passaram por obras de requalificação, o equipamento continua recebendo apenas intervenções pontuais.

“Há quase 30 anos escuto a promessa de reforma. Nunca aconteceu,” afirmou Patrícia.

Cobrança por soluções definitivas

Diante dos problemas, comerciantes defendem uma intervenção ampla que contemple tanto o entorno quanto o interior do Mercado de Afogados.

Entre as principais reivindicações estão a recuperação completa da pavimentação das vias, melhorias no sistema de drenagem para evitar novos alagamentos, eliminação dos buracos, reforma estrutural do mercado, recuperação do teto, ampliação dos banheiros, reforço na limpeza e aumento da segurança.

Procurada pela reportagem, a Prefeitura do Recife foi questionada sobre as reclamações relacionadas aos alagamentos, buracos, obras realizadas na região e às condições estruturais do Mercado de Afogados. Até o momento não houve resposta.

Sobre o Mercado

Inaugurado em 4 de novembro de 1934, o tradicional Mercado Público de Afogados é um dos mais antigos centros de comércio popular do Recife.

À época em que foi construído, a Estrada dos Remédios ainda era de barro e iluminada por lampiões, enquanto um viveiro de peixes instalado na região garantia o sustento de diversas famílias.

A construção do mercado impulsionou o desenvolvimento econômico do bairro e possibilitou a transferência de dezenas de barracas que funcionavam no largo da feira para um espaço estruturado.

Passados quase 92 anos, o equipamento segue desempenhando papel importante no abastecimento e na economia local, recebendo diariamente milhares de comerciantes e consumidores.